` ... autor dêsse imortal `ciclo da cana-de-açúcar', que o consagraria como o Balzac do nosso patriarcalismo moribundo." ". . a obra-prima que é Fogo Morto, talvez a sua maior realização romanesca, e onde está inscrita, em traços indeléveis, essa figura imortal de Dom Quixote sertanejo, o Capitão Vitorino Carneiro da Cunha, por alcunha o Papa-Rabo, seguramente uma das mais acabadas e tocantes figuras de nosso romanceiro nacional." LIVRARIA JOSÉ OLYMPIO EDITÕRA apresenta na r-.-ç: A4ARdÁ GUANABARA: Rua Marqués de Olínda. 12, RIO DE JANEIRO SAO PAIILO: Rua dos Gusmbes, 100, SAO PAULO MINAS GERAIS: Rua Januáría, 258. BELO HORIZONTE DISTRITO FEDERAL: CLS-108, Bloco D. Rua da Igrejinha, BRASfLIA PERNAMBUCO: Avenida Visconde de Suassuna, 562, RECIFE RIO GRANDE DO SUL: Rua dos Andradas, 717, PORTO ALEGRE BAHIA: Rua Gustavo dos Santos, 10, SAS.VADOR PARANÁ: Praça Garíbaldi, 30, CURITIBA O desenho reproduzido na capa, no frontispícia e na pág. 1 é de autoria de Tomás Santa Rosam famoso S. R. que tantas capas assinou para esta Casa. Foi executado pelo saudoso artista para a capa da edição original, em 1943. Capa da 12 - ed.: montagem de Eugênio Hirsch. Rêgo, Jasé Lins do, 1901-1957 Fogo Morto. Romance. 12 - ed. Biografia do A. por Wilson Lousada. Pref. de Otto Maria Carpeaux. Rio de Janeiro. Editôra José Olympio, 1972. 320 p. ilust., fot., facs. 18 cm. (Coleção Sagarana, 24) 1. Literatura brasileira-Romance. 2. Rêgo, José Lins do, 19011957-Biografia. I. Lousada, Wilson. II. Carpeaux, Otto Maria, 1900, pref. III. Brasil. IV. Série. V. Título. CDD B869.3 BIBLIOGRAFIA DE & SÔBRE JOSÉ LINS DO REGO Fac-símile da capa da edição norte-americana de Menino de EngenhoDoidinho-Bangüê. 1932: Menino de Engenha. Adersen, editor, Rio. 17.a ed. 1972. Estudos de José Aderaldo Gastello e João Ribeiro. 1933: Doidinho. Ariel editôra, Rio. 11 á ed., 1972. Estudo de Rolando Morei Pinto. 1934: Bangüê.° 8.a ed. 1972. Estudo de Olívio Mantenegro. 1935: O Moleque Ricardo. 8.a ed. 1971. Estudo de M. Cavalcanti Prcença. 1936: Usina. 6 - ed. 1967. Estudo de Wilson Martins. 1937: Pureza. 7.a ed. 1968. Estudo de Virginius da Gama Melo. 1938: Pedra Bonita. 7.a ed. 1968. Estudo de Paulo Rónai. 1939: Riacho Doce. 5.a ed. 1968. Estudo de Mário de Andrade. 1941: Agua-Mãe. 6 á ed. 1970. Estuda de Eugênio Gomes. 1943: Fogo Morto. 12 s ed. 1972. Estudo de Otto Maria C'arpeaux. 1947: Eurídice. 6 á ed. 1971. Estudo de Nelson Werneck Sodré. Notas de Rachel de Queiroz e Valdemar Cavalcanü. 1953: Cangaceiros. 4 á ed. 1970. Estudo de Nertan Macedo. • A partir de B¢ngüé, todos - romances publicados pela Editbra José Olympio, Rio. OBRA REUNIDA DE FICÇÃO 1956: ROMANCES DE JOSÉ LINS DO REGO. 12 volumes. Com 290 ilustrações de Luís Jardim. Estudos de João Ribeiro, Pedro Dantas, Otávio de Faria, António de Alcântara Machado, Olívio Montenegro, Otávio Targiiínio de Sousa, Adolfo Casais Monteiro, Lúcia Miguel Pereira, Aurélio Buarque de Holanda, Mário de Andrade, Álvaro Lins, Roberto Alvim Correia, Otto Maria Carpeaux, Sérgio Milliet, Rachel de Queiroz, Temfstocles Linhares e Dante Costa. ROMANCE 1960-1961: ROMANCES REUNIDOS E ILUSTRADOS DE J. L. do R. 5 volumes. Com 290 ilustrações de Luís Jardim. Introdução de José Aderaldo Castello. Estudo de João Ribeira. Nota biográfica de Wilson Lousada. Notas (nas orelhas): Tiago de Melo, Almeida Sales, Cassiano Nunes, Antônio Cândido e Sérgio Milliet. MEM6RIAS 1956: Meus Verdes Anos. Editôra José Olympio, Rio. LITERATURA INFANTIL 1936: Histórias da Velha Totônia. Ilustrações de Santa Rosa. Editôra Jc,sé Olympio, Ria. 1971, 4.a ed., Edições Melhoramentos, São Paulo. CRóN ICA 1942: Gordos e Magros. Casa do Estudante do Brasil, Rio. 1945: Poesia e Vida. Editôra Universal, Rio. 1952: Homens, Sôres e Coisas. Serviço de Documentação do Ministério Educação e Saúde, Rio. 1954: A Casa e o Homem. Organização Simões, Rio. 1957: Presença do Nordeste na Literatura Brasileira. Serviço de Documentação do Ministério da Educação e Saúde, Ria. 1958: O Vulcão e a Fonte. Edições O Cruzeiro, Rio. da CONFERr NCIA 1943: Pedra Américo. Casa do Estudante do Brasil, Rio. 1946: Conferências no Prata. (Tendências do Romance' Brasileiro, Raul Pompéia, Machado de Assis), Casa do Estudante do Brasil, Ria. 1957: Discursos de Posse e Recepção na Academia Brasileira de Letras. José Lins do Rêgo e Austregésilo de Athayde. Editôra José Olympio, Rio. VIAGEM 1951: Bota de Sete Léguas. Editôra A Noite, Rio. 1955: Roteiro de Israel. Centro Cultural Brasil-lsrael, Rio. 1957: Gregos e Troianos. Bloch Editôres S. A., Rio. TRADUÇÃO 1940: A Vida de Eleonora Duse. De E. A. Rheinhardt. Editôra Jasé pio, Rio. NO ESTRANGEIRO Alemanha: RHAPSODIE IN RUT (CANGACEIROS), trad. de Waldemar Sonntag, H. M. Hieronimi editor, Bonn, 1958.-SANTA ROSA (trad. de Olym MENINO DE ENGENHO, BANGÜE e O MOLEQUE RICARDO), Hamburgo, 1953. França: L'ENFANT DE LA PLANTATION (MENINO DE ENGENHO), Paris, 1953.-CANGACEIROS, trad. por Denyse Chast, P1on, Paris, 1956. Inglaterra: PUREZA, Londres, 1950. Argentina: Nhç10 DE ENGEI -O. 1946.-BANGÜE. 1946.-PEDRA BONITA. 1947.-FOGO MORTO. 1947. Editados em Buenos Aires. iJ.R.S.S.: O MOLEQUE RICARDO, Editôra do Estado, Moscou, 1938.CANGACEIROS, Editôra do Livro Estrangeiro, Moscou, 1960. Espanha: CANGACEIROS, trad. de André Fernandes Romero e Manuel José Arce y Valadares, Luís de Caralt, editor, Barcelona, 1957. Estados Unidos: PLANTATION BOY (MENINO DE ENGENHO, DOIDINHO, BANGÜE), trad. de Emmi Baum, Alfred A. Knopf, Nova Iorque, 1966. Itália: FUOCO SPENTO, trad. de Luciana Stegagno Picchio, Biblioteca Mondiale Bocca, Fratelli Bocca Editori, Roma-Milão, 1956. Portugal: PUREZA-CANGACEIROS-BANGüE-MENINO DE ENGENHO -DOIDINHO (num só vol.)-RIACHO DOCE-EURÍDICE-FOGO MORTO-PEDRA BONITA-0 MOLEQUE RICARDO-AGUA-MÃE-USINA. Todos sem data e na ordem acima publicados na Coleção Livros do Brasil da Editôra Livros da Brasil, Lisboa. A HISTÓRIA BIBLIOGRbFICA DE FOGO MORTO 1 á Edição: Outubro de 1943. Estudo de Otto Maria Carpeaux. Capa de Santa Rosa. 2 á: Maio de 1944. Estudos de Otto Maria Carpeaux e Álvaro Lins. Capa de Santa Rosa. 3 -: Abril de 1950. Estudos de Otto Maria Carpeaux e Álvaro Lins. Capa de Santa Rosa. 4 -: Novembro de 1955. Estudos de Otto Maria Carpeaux e Álvaro Lins. Capa e ilustrações de Luís Jardim. 5 -: Junho de 1961 (juntamente com a 5 - ed, de ÁguaMãe, 4 ° vol. dos Romances Reunidos e Ilustrados de J. L. do R.) Nota crítica de Antônio Cândido (nas orelhas). Capa: Ciro Del Nero. Ilustrações de Luís Jardim. 6.a: Outubro de 1965. Estudos de Otto Maria Carpeaux, Sérgio Milliet e Alfredo Bosi. Desenha da capa: Santa Rosa. (A partir desta ed. na Col. Sagarana.). 7.a e 8 á: Abril e dezembro de 1968. Comemorativas do jubileu de prata do romance. Estudos de Otto Maria Carpeaux, -Sérgio Milliet, Alfredo Bosi, Álvaro Lins e Antônio Cândido. Nota biográfica de Wilson Lousada. Trechos de opiniões da crítica. Desenho da capa: Santa Rosa. 9.a, 10.a: Outubro de 1969, outubro de 1970. Com estudos de Carpeaux, Milliet, Bosi, Álvaro Lins, Antônio Cândido. Nata biogr. de W. Lousada. Trechos de opiniões da crítica. ll.a: dezembro de 1971 (em co-edição com o LN.L.). Pref. de Otto Maria Carpeaux. Nota do Autor, nota biogr. de W. Lousada, e opiniões da crítica. Desenho da capa: Santa Rosa. Cam fac-símiles, 12.a: setembro de 1972. Tôdas publicadas pela LIVRARIA JOSÉ OLYMPIO EDITÔRA, Rio. ALGUNS LIVROS E ESTUDOS EM LIVROS SSBRE JOSÉ LINS DO Rr=GO JOSÉ ADERALDO CASTELLO. José Lins da Rêgo: Modernismo e Regionalismo. Edart ed., S. Paulo, 1961. IVAN BICHARA SOBREIRA. O Romance de' José Lins do Rêgo. A União ed., João Pessoa, 1971. JAIME DE BARROS. "O Drama Econômica do Romance" em Espelho dos Livros. Ed. José Olympio, 1936. ÁLVARO LINS. Estudos em Jornal de Crítica, 2 á, 3 á, 4 á, 6 á séries. Ed. José Olympio, 1943, 1944, 1946, 1951. Integram hoje Os Mortos de Sobrecasaca (ensaios e estudos 1940-1960), Ed. Civilização Brasileira, 1963. WILSON MARTINS. "Fogo Morta" em Interpretações, Ed. José Olympio, 1946. AGRIPPINO GRIECO. "Doidinho e Bangüê" em Gente Nova do Brasil. Ed. José Olympio, 1948. PLfNIO BARRETO. "Fogo Morto" em Páginas Avulsas. Ed. José Olympio, 1958. J. GUILHERME DE ARAGÃO. "Espaço e Tempo em J. L. da R:' em Fronteiras da Criação. Ed. José Olympio, 1959. VALDEMAR CAVALCANTI. Notas sôbre Agua-Mãe e José Lins cronista em Jornal Literário. Ed. José Olympio, Rio, 1960. DANTE COSTA. "Cangaceiros" em Os Olhos nas Mãos (Literatura Brasileira Contemporânea). Ed. José Olympio, 1960. GILBERTO FREYRE. "Recordando J. L. do R:' em Vida, Forma e Côr. Ed. José Olympio, 1962. ANTÕNIO CÃNDIDO. "Um Romancista da Decadência" em Brigada Ligeira. Ed. Martins, S. Paulo, s/d. ADOLFO CASAIS MONTEIRO. Quatro estudos e crítica). Ed. José Olympio, 1964. TRISTÃO DE ATHAYDE. "José Lins do Rêgo" em Meia Século de' Presença Literária. Ed. José Olympio, 1970. MÁRIO DE ANDRADE. Dois estudos em O Empalhadar de Passarinho. Ed. Martins, S. Paulo, s/d. M. CAVALCANTI PROENÇA. Ensaia sôbre O Moleque Ricardo em Estudos Literários. Ed. José Olympia, 1971. em O Romance (teoria BREVE NO -ÍCIA-VIDA DE JO5É LINS DO RÊGO WILSON LOUSADA NA HISTÓRIA da moderna literatura brasileira, a obra de José Lins do Rêgo representa uma época, uma corrente de pensamento dentro da atividade criadora na ficção. Confluíram em seus livros caminhas de diversas origens, raízes aflarantes no sola e outras de mais longa viagem subterrânea, crs primeiras de contemporâneos em tentativas recentes e as segundas de nomes mais antigos na história do romance brasileiro. Mas o menino José-José Lins da Rêgo Cavalcanti-nascido aos 3 de junho de 1901, no engenho Corredor, município de Pilar, Estado da Paraíba, já trazia consiga outras raízes que iria acrescentar a essas heranças. Raízes do sangue e da terra, que vinham de João do Rêgo Cavalcanti e Amélia da Rêga Cavalcanti, seus pais, passando de geração em geração por outros homens e mulheres sempre ligados ao mundo rural do Nordeste açucareiro, às senzalas e aos negros rebanhos humanas que a escravidão havia formado. E essas afinal f oram as predominantes em sua obra, que reflete todo êsse mundo do patriarcalismo rural, reconstituída pelo escritor sem receio de confessar que dêle participara como seu direto beneficiário. Fai talvez por isso que Paula Prado declarou certa vez a Blaise Cendrara, a respeita de José Lins da Rêga: "Você se lembra, Blaise, de me haver falado um dia da tempo perdido? Acabei por acreditar que você tinha razão. Vou dar-lhe a conhecer um escritor que encontrou o tempo. É o nosso Proust. Um môço. Leia-o." Esse môço seria o criador do "Ciclo da Cana,de-Açúcar"-José Lins do Rêgo-e o ponta de vista de Paulo Prado não pode ser fàcilmente desmentido, num romancista que em geral tem sido colocado sob o signa da memória e da imaginação, ou do regionalismo, tal como o faz por exemplo o crítica José Aderaldo Castella, no seu estudo sôbre o criador de Fogo Morto. E sua infância livre de Menino de Engenho, título do seu primeira livro, marca a etapa inicial, no adulto, dessa procura das raízes perdidas no tempo, dessa reconstituição de urre mundo em contínua fuga. Foi breve, por sinal, a liberdade de infância, logo sofreada com as primeiras letras no Instituto Nossa Senhora do Carmo, em Itabaiana, e a seguir, em 1912, com os estudos ginasiais no Colégio Diocesano Pio X, na capital do Estado, onde também começam a revelar-se seus pendores literários, seus gostos iniciais de leitor. É de 1916, por exemplo, o primeiro contacto com O Ateneu, de Raul Pompéia, obra por sinal que deve ter tido em seu espírito profunda repercussão, dada a natureza do tema que aborda. Em 1918, aos 17 anos portanto, José Lins trava conhecimento com Machado de Assis, através do Dom Casmurro, e publica seu primeiro artigo, tendo como tema Rui Barbosa. Nesse mesmo ano faz amizade com Olívio Montenegro, que lhe revela as obras de Rousseau e Stendhal. Dois anos depois, matriculando-se na Faculdade de Direito do Recife, José Lins amplia seus contactos com o meio literário pernambucano, tornando-se amigo de José América de Almeida, Osório Borba, Luís Delgado, Aníbal Fernandes e outros. Gilberto Freyre, voltando em 1923 de uma longa temporada de estudos universitários nos Estados Unidos, marcou uma nova fase de influências no espírito de José Lins, através das idéias novas que o mestre de Casa-Grande & Senzala já então defendia sôbre a formação social brasileira. Além disso, através dêsse convívio intelectual ampliou-se o campo de leituras do futuro romancista, que passou a interessar-se também pelo vasto mundo da literatura inglêsa. Em 1923 José Lins começa a assinar os primeiros trabalhos reveladores de autêntica vocação de escritor, publicando-os no semanário de crítica política e literária Dom Casmurro, fundado por Osório Borba, e recebe afinal o diploma de bacharel em Direito. Aos 22 anos, portanto, estava José Lins do Rêgo diante_ de uma nova vida, alterada um ano depois pelo casamento com a filha do Senador Massa, Filomena Massa (Naná). Dêsse casamento adviriam três filhas: Maria Elisabeth, Maria da Glória e Maria Christina. Bacharel, com leitura intensa e sonhos acalentados de uma literatura própria, José Lins vai agora experimentar a magistratura. Em 1925 é nomeado promotor público em Manhuaçu, Minas Gerais, onde entretanto não se demora. O jornalismo e a literatura já se haviam impôsto em sua formação intelectual, e.José Lins não se sentia adaptado aos deveres que o exercício profissional da justiça lhe impunha. Por essa época suas leituras favoritas eram Tho Xiv mas Hardy e Marcel Proust, a que se acrescentariam naturalmente alguns nomes novos do modernismo já vitorioso, embora ainda meio confinado ao ambiente paulistano. Desistindo afinal de fazer carreira na magistratura, Lins do Rêgo transferiu-se em 1926 para a capital de Alagoas, onde passa a exercer as funções de fiscal de bancos. Em Maceió, passa a fazer parte de um grupo, o grupo de Graciliano Ramos, Rachel de Queiroz, Aurélio Buarque de Holanda, Jorge de Lima, Valdemar Cavalcanti, Aloísio Branco, Carlos Paurílio e outros. E foi ainda em Maceió que Lins do Rêgo escreveu seu primeiro livro-Menino de Engenha*-chave de uma obra que se revelou de importância fundamental na história do moderno romance brasileiro. Éle mesmo, certa vez, em artigo de jornal, contou alguma cousa a respeito dêsse livro de estréia: "O livro foi oferecido a todos os editôres nacionais, e de todos recebeu um não sêco, quando não me deram o calado como resposta. Só mais tarde uma editôra desconhecida, com dinheiro do meu bôlso, publicaria a novela. Havia por êste tempo a revolução de São Paulo e, apesar da convulsão, esgotou-se em três meses. Uma edição de 2.000 exemplares foi quase tôda vendida no Rio." E a crítica de João Ribeiro, diz ainda Lins do Rêgo, foi por êle recebida como um presente do céu, a tal ponto que dormiu com o recorte no bôlso do pijama. Tinha razão o emotiva José Lins, muito embora autor e crítico nem de longe suspeitassem de que ali começava a existir um grande romancista brasileiro. "Bem examinadas as cousas", dizia João Ribeiro a propósito de Menino de Engenho, "êste livro pungente é de uma realidade profunda. Nada há que não seja o espelho do que se passa na sociedade rural e na das cidades do Norte e do Sul do Brasil. É de todo o Brasil e um pouco de todo o mundo." Mas não ficou nisso a estréia feliz do nôvo romancista. Além das opiniões elogiosas da crítica, o livro mereceu também o prêmio de romance da Fundação Graça Aranha, o que consolidou sem dúvida a posição do estreante, que então se lança ao trabalho com maior entusiasmo e ímpeto criador, para oferecer no ano seguinte-1933-o segundo livro do "Ciclo da Cana-de-Açúcar"-Doidinho-tlue alguns críticos aproximaram do Ateneu, de Raul Pompéia, e que em verdade contém alguma cousa de * Ver, a respeito, Valdemar Cavalcanti, em Jornal Literário, Livraria José Olympio Editôra, 1960. XV autobiográfico, tanto quanto o continha o romance de estréia. Daí por diante sua obra não conheceu interrupções maiores. A partir de Bangüê, em 1934 (romance que ainda foi escrito em Maceió), seus livros trazem então uma nova e definitiva chancela editorialLivraria José Otympio Editôra-casa com a qual, a partir daí, o escritor se ligaria por laços de amizade profundos. No aro seguinte, 1935, já nomeado fiscal do impôsto de consumo, José Lins do Rêgo transferiu-se para o Rio de Janeiro, onde passou a residir, publicando nesse mesmo ano Moleque Ricardo, penúltima parte do "Ciclo da Cana-de-Açúcar", que ficará definitivamente encerrado com o aparecimento de Usina, em 1936. No Rio, integrando-se plenamente no ambiente carioca, José Lins passou de nôvo a fazer jornalismo, colaborando assiduamente em O Globo, Diários Associados e Jornal dos Esportes. Desempenha cargos de direção no Clube de Regatas do Flamengo, na Confederação Brasileira de Desportos e no Conselho Nacional de Desportos. Revelou-se então, por essa época, a facêta esportiva de sua personalidade, sofrendo e vivendo as paixões desencadeadas pelo futebol, o esporte de sua predileção. Certa vez, por exemplo, escrevendo um auto-retrato, dizia êle: "Vou ao futebol e sofro como um pobre-diabo. Jogo tênis, pessimamente, e daria tudo para ver meu clube campeão de tudo." Pureza, primeiro romance isolado da obra cíclica, saiu em 1937, seguido nos anos imediatos de Pedra Bonita e Riacho Doce, surgindo pela primeira vez, em Pedra Bonita, o problema do fanatismo religioso no Nordeste. Em 1941, com AguaMãe, primeiro dos seus livros cujo cenário não é o Nordeste, e sim Cabo Frio, no Estado do Rio, onde exercia então o cargo de fiscal do impôsto de consumo, José Lins obtinha o Prêmio Felipe d'Oliveira. Mas já em 1943 voltava o romancista ao regionalismo nordestino, publicando o romance Fogo Morto, onde surge talvez uma de suas maiores criações--o Capitão Vitorino--que alguns críticos compararam a um Quixote sertanejo dos nossos dias. Visitando no ano seguinte a Argentina e o Uruguai, em missão oficial, pronunciou nesses países várias conferências sôbre literatura brasileira, abrindo então uma pausa, até 1947, em sua produção de f iccionista. Não que sua atividade intelectual tenha conhecido o repouso completo, pois nesses anos de intervalo saem Gordos e Magros, Pedro Américo, Conferências no Prata e Poesia e Vida, crônicas e con f erên cias que refletem sua permanente inquietação diante de qualquer estímulo exterior. E, quatro anos depois de Fogo Morto, sai então seu primeiro romance tendo o Rio de Janeiro como cenário-Eurídice-com que obteve aliás o Prêmio Fábio Prado de 1947. Já então consagrado como um dos nossos maiores romancistas, José Lins diz de si mesmo nessa época: "Tenho quarenta e seis anos, moreno, cabelos prêtos, com meia dúzia de fios brancos, um metro e 74 centímetros, casado, com três filhas e um genro, 86 quilos bem pesados, muita saúde e muito mêdo de morrer. Não gosto de trabalhar, não fumo, não durmo com muitos sonos, e já escrevi 11 romances. Se chove, tenho saudades do sol, se faz calor, tenho saudades da chuva. Sou homem de paixões violentas. Temo os podêres de Deus, e fui devoto de Nossa Senhora da Conceição. Enfim, literato da cabeça aos pés, amigo de meus amigos e capaz de tudo se me pisarem nos calos. Perco então a cabeça e fico ridículo. Não sou mau pagador. Se tenho, pago, mas se não tenho, não pago, e não perco o sono por isso. Afinal de contas, sou um homem como os outros. E Deus queira que assim continue." E assim continuou-felizmente para êle mesmo, para seus amigos e até para seus possíveis inimigos. Extrovertido, exuberante, incapaz de rancores, apaixonado, amando a vida por ela mesma, interessando-se por tudo, tornando-se enfim um verdadeiro cronista do Rio, sobretudo nas suas conhecidas Conversas de Lotação, coluna que manteve durante vários anos no vespertino carioca O Globo. Três anos depois-1950-eis o nosso romancista em sua primeira viagem à Europa, visitando a França a convite do govêrno dêsse país, viagem que seria repetida em 1951, conhecendo Portugal, a Suécia e Dinamarca, desta vez integrando uma delegação esportiva brasileira. Ainda nesse ano, José Lins do Rêgo vai ao Peru, ainda como esportista, e em 1952 dá início à publicação em folhetim do seu último romance-Cangaceiros-que aparece em volume em 1953. Lesse romance é a sua despedida, o seu adeus a todo um mundo de ficção onde realidade e fantasia se cruzam e entrecruzam, mundo que resistirá pelo que encerra de arte literária, documento e verdade humana. Mas as viagens também lhe serviram de estímulo, como se vê do volume Bota de Sete Léguas de 1952, e Gregos e Troianos, de 1957. Essas viagens, xvii FOGO MORTO-PEÇA TEATRAI—APRECIADA PELO PRÓPRIO ROMANCISTA 4 O BRASILEIRISSIMO JOSÉ LINS DO RÊGO OTTO MARIA CARPEAUX Em setembro de 1955, figuras de teatro, dentre as quais se destacava José Carlos Cavalcanti Borges, converteram em peça teatral o romance Fogo Morto, de José Lins do Rêgo. Opróprio autor, em registro de sua seção "Homens, coisas e letras" em OJornal, edição de 16 de setembro daquele ano, confessa curiosamente a impressão que lhe causou a encenação de Fogo Morto: Fui ver em São Paulo, levada por um grupo de amadores, a adaptação que fêz, para o teatro, José Carlos Cavalcanti Borges, de meu romance Fogo Morto. E a impressão que me deixou o esfôrço e a coragem dos jovens amadores paulistas foi a melhor. Para uma sala cheia o drama de Luís de Holanda Chacon, o Seu Lula, chegou a me empolgar. A doença e o orgulho se encontraram na obsessão pela grandeza defunta. José Carlos conseguiu exprimir em diálogos e monólogos a decadência da família rural destruída pela soberba de um homem no fim de raça. A doença deu a Seu Lula um tom lúgubre de raciocínio. Tudo para êle se resumia na filha que ia se consumindo na esterilidade de uma vida reclusa. O mundo lá de fora não existia para o pai que sonhava com um príncipe para entregar a sua filha. Tudo que não fôsse a medida de seu sonho era uma vergonha. E assim o drama cresce em poesia pungente. A figura da mãe sacrificada é uma imagem da dor concentrada nas humilhações da pobreza. A presença de Vitorino Carneiro da Cunha dá à adaptação de José Carlos um triste cômico de teatro espanhol. Vitorino se espalha com a sua loucura como um verdadeiro pé-de-vento. Otrágico e o cômico se cruzam na sua personalidade em atitudes e gestos que nos emocionam. Vitorino faz rir e chorar como um chapliniano autêntico. Dou parabéns a José Carlos Cavalcanti Borges. Oque êle sentiu de meu livro é bem o comentário doloroso de um fim de época. Há muito de Pernambuco dos últimos senhores arrebatados na vigorosa interpretação de seu drama. Eu mesmo que imaginei os personagens me deixei surpreender pelos achados do escritor que soube arrancar das minhas pobres almas as suas terríveis particularidades. FOGO MORTO é o décimo romance de José Lins do Rêgo. Pois bem, êsses dez romances de José Lins do Rêgo conjunto da obra feliz dum grande escritor, são, desde já, um fato da história literária. Confesso, porém, que os meros fatos pouco me interessam; o que me interessa são os problemas. Acredito mesmo que, para nós outros, os meros fatos não existem, e sim apenas os problemas. Os fatos não se percebem;, só pelo lado problemático se tornam visíveis. Do mesmo modo, a plenitude de vida orgânica dentro do nosso corpo, trabalho complicadíssimo e incessante dos seus órgãos passa-nos, felizmente, despercebido, continua espontâneamente sem tomarmos conhecimento, disso, e só quando aquelas complicações se tornam irregulares, quando um órgão ou todo o organismo adoece, só então ficamos conscientes do nosso estado corporal, como os filhos mais complicados, mais expostos e mais perdidos da Criação: o fato transformou-se em problema. Agora, o que são as doenças para o médico, são os problemas para o crítico literário: sugerem-lhe dúvidas e admirações, arrancam-lhe golpes e aplausos, provocam-lhe a suprema alegria da interpretação, Pois, "do encontro da dor e do instinto de criação, nascem as obras de arte" (Thomas Mann). Os fatos, contam-se; os problemas, interpretam-se. José Lins do Rêgo, porém, é um conteur nato; contar histórias é a sua profissão. Os seus dez romances em conjunto são, desde já, um fato da história literária; cada um daqueles romances é um fato, todos êles são cheios de fatos numa riqueza que é a da própria vida orgânica, espontânea e como que sem problema. José Lins do Rêgo não é um escritor problemático. Verificação que me deixa perplexo. José Lins do Rêgo não é um escritor problemático como não é problemática a própria vida. Então, como é? A vida não N. da E. Escolhido. pelo próprio romancista, o eminente crítico e ensaísta Otto Maria Carpeaux escreveu, em 14 de janeiro de 1943, esta admirável interpretação da obra de José Lins do Rêgo para servir de prefácio ao seu décimo romance, Fogo Morto, cuja edição príncipe é de outubro daquele mesmo ano. seria problemática? A riqueza poética de José Lins do Rêgo é a vida orgânica antes de tornar-se problemática: é orgânica, espontânea, inconsciente. Tôdas as saudades do escritor José Lins do Rêgo, que é um homem lido, culto, cheio de problemas, tôdas as suas saudades, que são saudades dos seus instintos, do seu sangue, da sua herança no sangue, giram em tôrno da vida orgânica espontânea, inconsciente; e a sua fôrça literária consiste em saber transformar essas saudades em palavras escritas, nas mil e mil e mil palavras dos seus dez romances. Menino de Engenho, Doidinho, Bangüê, O Moleque Ricardo, Usina, Pureza, Pedra Bonita, Riacho Doce, Agua-Mãe, e agora Fogo Morto,-os títulos bastam para lembrar-nos inúmeros homens e mulheres que acreditamos ter conhecido, como conhecemos o seu próprio criador; sêres de carne e sangue, vivos, alegres, e tristes até a morte, como é a própria vida. Não têm o mesmo valor todos êsses romances, há altos e baixos, como a vida tem as suas marés, como a vida do ser mais instintivo, da mulher, à qual José Lins do Rêgo dedicou as suas páginas mais sentidas, é regida pela influência misteriosa da lua. Tôdas as virtudes e todos os defeitos do escritor José Lins do Rêgo re sidem na sua espontaneidade fabulosa, na sua riqueza vital, na sua fôrça instintiva. Então seria difícil, seria impossível transformar a obra de José Lins do Rêgo em problema? Então, é a próprio escritor José Lins do Rêgo quem nos propõe o problema. José Lins do Rêgo é um homem estranho. Entra na Livraria José Olympio, sem saudar a ninguém, roupa elegante, atitude desleixada, bem nutrido, com olhos muito móveis atrás dos óculos, uns grandes sinais no rosto, voz alta, barulhenta. Traz uns livros-"Impressionaram-me muito! "-q u e não vai ler, recebe os recados que a môça da caixa tem sempre para êle, vai para o telefone: coisas de futebol, a literatura não interessa. Fala com os amigos, com Graciliano Ramos, Octávio Tarqüínio, Aurélio Buarque de Holanda, João Condé Filho, uns outros-Otto Maria Carpeaux está entre êles-, fala sem ouvir as respostas, conta histórias as mais engraçadas, de humor rabelaisiano, ri-se gostosamente, com barulho, é todo menino, eterno menino de engenho. A literatura não lhe importa. Diz sôbre todos a quem admira o que poderia dizer de si próprio: "Êle é mais um homem da terra do que dos livros." É homem da comida boa e farta, das meninas bonitas, do futebol, e do povo. E, de repen te, sente dores em tôdas as partes do corpo: no estômago, no fígado, no coração. Fica sentado, calado, cabisbaixo. Não fala nem ouve falar. Os óculos escondem uma profunda tristeza. Levanta-se, sai, sem saudar a ninguém. É êle mesmo. A obra de José Lins do Rêgo é êle mesmo. É profundamente triste. É uma epopéia da tristeza, da tristeza da sua terra e da sua gente, da tristeza do Brasil. Na tremenda saúde física de José Lins do Rêgo há a consciência desesperada de tôdas as doenças possíveis e da morte certa. Há na sua obra a consciência de que tudo está condenado a adoecer, a morrer, a apodrecer. Há a certeza da decadência dos seus engenhos e dos seus avós, de tôda essa gente que produziu, como último produto, o homem engraçado e triste que lhe erigiu o monumento. É grande literatura. Eis o problema: José Lins do Rêgo é, antes de tudo, uma natureza. Tem algo duma fôrça elementar, cria; como a natureza cria, pròdigamente, sem cuidar das vidas, que há sempre em excesso: morrem, ressuscitam, sobrevivem. "É mais um homem da terra do que dos livros." Mas êste mesmo José Lins do Rêgo é uma das maiores vocações literárias que conheci. Não pode viver sem escrever. Tudo se lhe transforma em palavras, linhas, artigos, ensaios, livros. Para êle, "tout existe pour aboutir à un livre" (Mallarmé). Tem o dom imenso de transformar tudo em literatura. Transformou-se a si próprio em personagem sua, em eterno menino de engenho. E--considerando só essa qualidade de viver em escrever, e tirando-se do superlativo todo sentido de crítica, de julgamento literário-êsse menino de engenho é o maior escritor do Brasil. Dêste modo, acredito ter conseguido decompor o fato literário -"dez romances de José Lins do Rêgo"-em dois fatos de psicologia literária, que aparentemente se contradizem. 0 fato transformou-se em problema. Exige a interpretação. José Lins do Rêgo é brasileiríssimo. Outro dia, o meu amigo Álvaro Lins conversou comigo sôbre as pretendidas influências estrangeiras na obra do paraibano: falamos em Thomas Hardy, em David Herbert Lawrence. Não estava certo. José Lins do Rêgo é êle mesmo. É paraibano. É brasileiro, brasileiríssimo. É brasileiro com o amor à terra, às mulheres, à conversa, aos gracejos, com a memória do avô que era governador da província, do primo que morreu de tuberculose, do tio que -,4 /Yyl••- -i-v ro ? -^ . -cur,• ,a.t -.•, sh -a.ce, -a do,J,.- -.• -.. -„.4 - 4 - , - - -A ü -p_ -t -. Wt 4. - -„ AM a AU -I ?eme; Ú - ' ... • - cc.. -,vw.+ Ir Q.Vr • G v a -,. -. -. - . o ,G , -.,. , -, .„ -._ a^ N ntJ1^l. L,° G M - - -u --nr - -,r t,. az. Q C M - . / - - dt . Vim, - e7e,( - - - A lq , -. -- • -+-o lL.. oG -+ N.-,Llr..,, -`'2 +- y , -, . -r .1 - a4 a Y. - -.-d - , --, .i,...vt -., d - i^ -',l.•.,.. --; - - yy-A -..,.t -.. Q .. U -. l -e;Pct,. - -„t.t - -aaa ,,,,,,, , - -, - -s -.e,., -° a - d-l. o(t N,•• ,ytw t._ ya ., -- ,l - kx oL -S „ -„ / - - .w aV. - < <. .o , -., . r • fia,... o. Mr A - 4. n - .S • r i -,-,,.(,v„.. ,, -,u.. -f - - a M.me 1 ' _ - - - . % - ` - • - M a iLl a.a i..ar - G p/ -+ a / - s s M - - • - - fj - - -tn..a ) ,.U. 7 Ol w l7.ai'V^i` a G,t....r...V, A -„ Q.- -a., a Oá. Ya... -. -i a - -`) .n. Mi`. An a - • O - - Nt. • • - O - a - -^ - -, a d -.n.. - .,.• - , M^ a-r C,alv( -• O' - -,_,l,L` -N,M+-tM. . ,,y -. i"_ -J i .w• - • -,. - - -,.-al ó . - -• ,..,.. a,a.,r-o . A PAGINA INICIAL DOS MANUSCRITOS de Fogo Morto. José Lins do Rêgo só escrevia a mão, em cadernos escolares : são verdadeiros hieróglifos os originais dos seus romances. 0 manuscrita de Fogo Morto, que faz parte dos arquivos de João Candé (a quem o romance é dedicado), tem 185 páginas, como a que acima se reproduz em fac-símile. vendeu o engenho, com a memória vivíssima de tôdas as tristezas da sua gente brasileira, e que se encarnaram na sua própria tristeza brasileira. Risos e lágrimas: eis o seu mundo. "Mundo épicolírico", como disse De Sanctis para caracterizar o romancista nato de sua terra. Os seus homens e mulheres são sêres primitivos, agem e reagem instintivamente, sem motivos superiores-na criação de homens superiores o romancista não é bem sucedidomas não por materialismo e sim por identificação completa com aquêle mundo primitivo que se perde, dolorosamente. É homem do povo. Com isto, a sua literatura parece destinar-se à literatura popular. Mas não é assim. José Lins do Rêgo é autor dos homens cultos, até dos literatos, que o amam, todos, como a um irmão. Há um mal-entendido em tôrno do conceito "literatura popular". Os romances que tratam dos pobres, dos míseros, dos humildes, do povo, são a literatura dos ricos, dos cultos, dos literatos. Opróprio povo não gosta da "literatura popular"; prefere a outra que lhe parece "literatura culta" e que lhe conta histórias de banqueiros-ladrões e datilógrafas-princesas; prefere o Carlos Magno e os heróis do cinema. A verdadeira "litera hoje um xxvi tura popular" é grande literatura; é diferente, é "popular" apenas pelo estilo diferente, estilo de tempos passados, arcaico, não escrito mas oral. Parece mal escrito, porque não é escrito, mas ouvido e falado. Os contadores profissionais de histórias falam, contam assim. É uma espécie arcaica de literatura à qual o verdadeiro "conto" pertence, isto é, a recitação duma história que se passou ou que se teria passado. Oromance histórico fracassou quase sempre-tornou-se, depois, falsa "literatura popular"-porque não se conta com atitudes literárias o que se foi para sempre. Conta-se aquilo sem atitudes, sem artifícios histórico-literários, conta-se como sempre contaram os contadores profissionais de histórias, dos quais o último representante no Brasil é José Lins do Rêgo. 0 grande valor literário da obra de José Lins do Rêgo reside nisto: o seu assunto e o seu estilo correspondem-se plenamente. Assim, e só assim, conta-se a decadência do patriarcalismo no Nordeste do Brasil, com as suas inúmeras tragédias e misérias humanas e uns raros raios de graça e de humor. Por isso, José Lins do Rêgo consegue acertadamente o que quer: e isto parece-me o maior elogio que se pode fazer a um escritor. Pode ser que "o homem da ter ra" nem sempre saiba disso; mas "o homem dos livros", que há também em Zé Lins, sabe muito bem. Sabe bem a lição do seu mestre Gilberto Freyre, e transformou-a tão integralmente em literatura, em romance, em vida, que hoje é sua. Concebendo a "cultura" no sentido de Gilberto Freyre-como expressão global da vida política e do espírito, social e individual, vital e humana, pode-se dizer que José Lins do Rêgo é a expressão literária da cultura da sua terra; é mais da terra do que dos livros. É a consciência literária da casa-grande e da senzala, dos senhores de engenho e dos prêtos, dos bacharéis e dos moleques, de todo o mundo agonizante. Foi ontem, isso? Ou é ainda hoje assim, ou vive isso apenas na sua memória incomparável? Oque está certo é que aquilo não existirá mais amanhã. Só viverá nos romances de José Lins do Rêgo. São, êsses dez romances, um grande monumento. Os historiadores do futuro--esperamos que sejam mais inteligentes do que certos críticos de hoje-aproveitar-se-ão dêsse documento para reconstruir todo um mundo. Mas aos construtores sobrevivem os criadores, e à reconstrução sobrevive a vida. A obra de José Lins do Rêgo é mais, muito mais do que um documento sociológico; é qualquer coisa de vivo, porque o seu criador lhe deu o próprio sangue, encheu-a dos seus gracejos e tristezas, risos e lágrimas, conversas, doenças, barulhos, disparates, e da sua grande sabedoria literária. Deu-lhe o hálito da vida. Essa obra não morre tão cedo. É eternamente jovem, como o povo; é eternamente triste, como o povo. "Sunt lacrimae rerum°", diz o poeta latino, e Gontcharov, o grande russo, falou do "lamento invisível das coisas". Há êsse lamento na obra de José Lins do Rêgo. Por isso, é mais do que o documento dum mundo que se foi; é o seu monumento. Parecem palavras grandes, estas. Palavras dum amigo=dirãoque elogia o amigo. Pois bem, vou responder como aquêle crítico espanhol Juan Dolent ao qual disseram: "É estranho como Você elogia sempre os romances dos seus amigos!" E êle a responder: "Entende-se, pois sujeitos que escrevem romances ruins não se encontram entre os meus amigos." Do homem e do escritor José Lins do Rêgo irradia uma grande fôrça de simpatia. É a mesma simpatia humana que dá vida irresistível a cada linha que escreve, a simpatia humana que enche os seus livros, ressuscita os mortos até restituir a vida àquele seu mundo morto, vivendo entre nós outros. Como José Lins do Rêgo vive entre nós outros, na Avenida, no campo de futebol, na leiteria, na Livraria José Olympio. Lembremo-nos bem da sua figura estranha, da roupa, da atitude, dos olhos e dos óculos, dos sinais no rosto, dos recados, telefonemas, gracejos, histórias, doenças e tristezas. Lembremo-nos bem! "I shall not look upon his like again". Nunca mais veremos um homem assim. José Lins do Rêgo é o último dos contadores profissionais de xxvm O CAPITAO VITORINO PAPA-RABO PERCORRENDO O MUNDO. Fac-símile da capa da edição italiana de Fogo Morto: Fuoco Spento, editada em Roma (1956). histórias. Com êle, a espécie extinguir-se-á. É como um narrador de contos de fadas. Como menino, como menino de engenho, deve ter ouvido muitas histórias dessasbatendo o coração, aos pés da mãe-preta-para poder inventar, depois, tantas histórias assim, que não nos fatigamos de ouvir. Agora, somos nós, assentados aos seus pés, pedindo:-Conta-nos mais! E êle contará, com o fogo vivo da sua fôrça dum grande narrador de histórias. Escutemos! Escutai! Virai a fôlha! Lereis a primeira página de Fogo Morto. FOGO A João Condé Fae-símile da página inicial de Fogo Morto na versão italiana de Luciana Stegagno Picchio. - Buon giorno, mastro Zé disse il pitlore Laurentino ad un vecchio dall'aspetto di malato, gli occhi giallastri, Ia barba lunga. - Di passaggio, sor Laürentino? - Vádo al Santa Rosa. Il Colonnello mi ha mandato a chiamare per una certa pittura alla villa. Sposa Ia figlia. Mastro José Amaro, sellaio all -anfiça; lavorava sulla soglia della bottega, mentre l'axietta ai ,quel mattino di maggio faceva alitare le foglie del pi tombo 1 che ombreggiava Ia catapecchia di creta, dal _ tetto sordido. Lá dentro ceera tutta Ia sua famiglia. Si sentiva un odore acuto di pentola al fuoco ed il lardo che strideva sulla brace riempiva 1a stamberga di fumo. - Ah, lavoriamo per il vecchio José Paulino? Brava persona, non c'e che dixe; ma ascoltate bene quel che vi dito: queste, mani, cosi come le vedete, un pezzo di cuoio per lui non 1'hanno mai tagliato. Ha i soldi e ci si ingrassi. Ma io non sono il servo di nessimo. E lui con me ha osato aliare Ia vote. Questo non va. - Grida, grida, ma é un buon uomo, mastro Zé. - Che ne so io. Con Ia sua bontà non mi riempio certo Ia pancia. Io lavoro per chi mi rispetta. Non ' Bras. « pitombeira », albero fruttifero del Brasile (5imaruba versicolor). (N. d. T.). FOGO MORTO PRIMEIRA PARTE O MESTRE JOSÉ AMARO oM DIA, mestre Zé---foi dizendo o pintor Laurentino a um velho, de aparência doentia, de olhos amarelos, de barba crescida. -Está de passagem, Seu Laurentino? -Vou ao Santa Rosa. OCoronel mandou me chamar para um serviço de pintura na casa-grande. Vai casar filha. 0 mestre José Amaro, seleiro dos velhos tempos, trabalhava na porta de casa, com a fresca da manhã de maio agitando as fôlhas da pitombeira que sombreava a sua casa de taipa, de telheiro sujo. Lá para dentro estava a família. Sentia-se cheiro de panela no fogo, chiado do toicinho no braseiro que enchia a sala de fumaça. -Vai trabalhar para o velho José Paulino? É bom homem, mas eu lhe digo: estas mãos que o senhor vê nunca cortaram sola para êle. Tem a sua riqueza, e fique com ela. Não sou criado de ninguém. Gritou comigo, não vai. -Grita, mas é bom homem, mestre Zé. 3 ---Eu sei. A bondade dêle não me enche a barriga. Trabalho para homem que me respeite. Não sou um traste qualquer. Conheço êstes senhores de engenho da Ribeira como a palma da minha mão. Está aí, o Seu Álvaro do Aurora custa a pagar. É duro de roer, mas gosto daquele homem. Não tem êste negócio de grito, fala manso. É homem de trato. Isto de não pagar não está na vontade dêle. Também aquêle Aurora não ajuda a ninguém. -Muito trabalho, mestre Zé? -Está vasqueiro. Tenho umas encomendas de Gurinhém. Um tangerino passou por aqui e me encomendou esta sela e uns arreios. Estou perdendo o gôsto pelo ofício. Já se foi o tempo em que dava gôsto trabalhar numa sela. Hoje estão comprando tudo feito. E que porcarias se vendem por aí! Não é para me gabar. Não troco uma peça. minha por muita. preciosidade que vejo. Basta lhe dizer que o Seu Augusto do Oiteiro adquiriu na cidade uma sela inglêsa, coisa cheia de arrebiques. Pois bem, aqui estêve ela para consêrto. Eu fiquei me rindo quando o portador do Oiteiro me chegou com a sela. E disse, lá isto disse: "Por que Seu Augusto não manda, consertar esta bicha na cidade?" E deu pela sela um ereção. Se eu fôsse pedir o que pagam na cidade, me chamavam de ladrão. É, mestre José Amaro sabe trabalhar, não rouba a ninguém, não faz coisa de carregação. Éles não querem mais os trabalhos dêle. Que se danem. Aqui nesta tenda só faço o que quero. -É verdade, mestre Zé. Ouvi outro dia, na feira do Pilar, um figurão de Itabaiana gabando o seu trabalho. Lá de dentro da casa ouviu-se uma voz -Pai, o almôço está na mesa. -Espera que já vou-gritou o velho.-Não estou Seu Laurentino, não faça cerimônia. A casa é sua. -Muito obrigado, mestre Zé, tenho que ir andando. --Fique para comer com a gente. Tem pouca coisa, mas dá. Opintor Laurentino aceitou o convite. Ovelho José Amaro foi já dizendo para dentro de casa mouco. 4 José lias do rêgo -Sinhá, tem gente para o almôço. Enquanto se ouviu rumor de vozes no interior da casa o mestre foi falando. -Estou velho, estou acabado, não tive filho para ensinar o ofício, pouco me importa que não me procurem mais. Que se danem. Omestre José Amaro não respeita lição de ninguém. Dentro de casa o cheiro de sola fresca recendia mais forte que o da comida no fogo. Viam-se, por tôda a parte, arreios velhos, selas arrebentadas, e pelo chão, pedaços de sola enrolados. Uma mulher, mais velha do que o mestre, apareceu. -Bom dia, Seu Laurentino. Osenhor vai desculpar. OZeca tem cada uma! É almôço de pobre. -Nada, D. Sinhá, só fiquei porque não sou homem de cerimônia. Pobre não repara. 0 mestre José Amaro, arrastando a perna torta, foi se chegando para a mesa posta, uma pobre mesa de pinho sem toalha. E comeram o feijão com a carne-de-ceará e toicinho torrado. Para o canto estava a filha Marta, de olhos para o chão, com mêdo. Não deu uma palavra, só falava o mestre: -Sou pobre, Seu Laurentino, mas não faço vergonha aos pobres. Está ai minha mulher para dizer. Aqui nesta minha porta tem parado gente rica, gente lorde, para me convidar para isto e aquilo. Não quero nada. Vivo de cheirar sola, nasci nisto e morro nisto. Tenho esta filha que não é um aleijão. -Zeca tem cada uma... Deixa a menina. -0 que é que estou dizendo demais? Tenho esta filha, e não vivo oferecendo a ninguém. A môça baixou mais a cabeça. Era pálida, com os seus trinta anos, de pele escura, com os cabelos arregaçados para trás. Omestre José Amaro olhou firme para ela e continuou: -Não se casa porque não quer. É de calibre, como a mãe. -Cala a bôca, Zeca! A gente não está aqui para ouvir besteira. -Eu não digo besteira, mulher. Se não quiser me ouvir que se retire. Estou falando a verdade. É só isto que me acontece, ouvir mulher fazer má-criação. fogo morto 5 Aí o mestre José Amaro levantou a voz. -Nesta casa mando eu. Quem bate sola o dia inteiro, quem está amarelo de cheirar sola, de amansar couro cru? Falo o que quero, Seu Laurentino. Isto aqui não é casa de Vitorino Papa-Rabo. Isto é casa de homem. As mulheres foram se levantando da mesa. E o mestre saiu da sala. Havia um pé de bogari cheirando na biqueira. A sombra da pitombeira crescia mais ainda sôbre a casa. Omestre José Amaro olhou para a estrada, para os fins da várzea muito verde. -É o que lhe digo, Seu Laurentino. Você mora na vila. Soube valorizar o seu ofício. A minha desgraça foi esta história de bagaceira. É verdade que senhor de engenho nunca me botou canga. Vivo nesta casa como se fôsse dono. Ninguém dá valor a oficial de beira de estrada. Se estivesse em Itabaiana estava rico. Não é lastimar, não. Ninguém manda no mestre José Amaro. Aqui moro para mais de trinta anos. Vim para aqui com o meu pai que chegou corrido de Goiana. Coisa de um crime que êle nunca me contou. Ovelho não contava nada. Foi coisa de morte, estêve no júri. Era mestre de verdade. Só queria que o senhor visse como aquêle homem trabalhava na sola. Uma peça dêle foi dada pelo Barão de Goiana ao Imperador. Foi pra trás. Veio cair nesta desgraça. É a vida, Seu Laurentino. Omestre José Amaro não é homem para se queixar. Estou sòmente contando. Agüento no duro. -Mestre Zé, me desculpe, mas tenho que ir andando. -É cedo, homem, deixa o sol quebrar. Pela estrada passou um matuto, com uma carga de farinha. Ocavalo levantava lama no chão ensopado. -É o Chico Cabeça. Homem de bem. Já teve até recurso. Depois que uma filha morreu das bexigas, deu para trás. Quinta Napoleão tomou um sítio que êle tinha no Riachão e o pobre vive hoje do serviço de carga. Deu a macaca nêle. Se fôsse comigo, Quinta Napoleão não cantava de galo. Ia com a faca no bucho dêle. Ah! lá isto ia! Então, Seu Laurentino, um homem tem a sua terra, suou em cima dela, gosta da bi ó josé lias do rêgo cha de verdade, e vem um sujeito ganancioso como Quinta Napoleão e toma? Comigo era na faca. É por isto que eu não quero nada. Lá para dentro ouvia-se um ladainha. Omestre Zé Amaro prestasse atenção à cantiga. -Pára com isto, menina! Pára com isto. Não quero latomia de igreja na minha casa. -Deixa a menina, Zeca. Vai bater sola. -É o que sabe dizer esta vaca velha. E levantando a voz num grito -Pára isto. Não quero ouvir latomia de igreja. Na minha casa manda o galo. Fêz-se um grande silêncio. Parou tudo lá para dentro. Apenas um chôro baixo se ouvia, chegando surdo, dos fundos da casa. -Vai ser assim o dia inteiro. Vai ser êste chôro, esta peitica até anoitecer. Seu Laurentino, o senhor tem filha? Pois é isto que o senhor vê. Não pode um pai fazer nada, que não venha a mãe tomando as dores. Sentado no seu tamborete, o velho José Amaro parou de falar. Ali estavam os seus instrumentos de trabalho. Pegou no pedaço de sola e foi alisando, dobrando-a, com os dedos grossos. A cantoria dos pássaros aumentara com o silêncio. Os olhos do velho, amarelos, como que se enevoaram de lágrima que não chegara a rolar. Havia uma mágoa profunda nêle. Pegou do martelo, e com uma fôrça de raiva malhou a sola molhada. Obatuque espantou as rolinhas que beiravam o terreiro da tenda. Pela estrada passava um comboio de aguardente. Omatuto chefe parou para conversar. -Deus guarde a V. S.a, mestre José Amaro. Estamos na demanda do sertão. E sucede que se partiu uma cilha do meu animal. Omestre pode me dar uma ajuda? 0 mestre José Amaro olhou para o homem, como se o quisesse identificar. Depois foi lhe dizendo -Você não é o Alípio, do Ingá? gemer de voz, um cantar de parou um instante, como se ouvir fogo morto -Sim senhor, mestre José Amaro. Osenhor sabe, me sucedeu aquela desgraça. Tive que me mudar com o meu povo. Felizmente, com a proteção de Deus, e do Capitão Quinquim, me livrei. 0 mestre José Amaro tomou a cilha partida, fêz a emenda e o homem quis puxar dinheiro para lhe pagar. -Não é nada, Seu Alípio. Não é nada. E quando o comboio se sumiu no fim da estrada, o mestre falou -Bicho homem, êste Alípio. Avalie que quase menino se espalhou na feira do Ingá que foi aquela desgraça. Gosto de homem assim. Ele fôra com o pai vender milho verde na vila e o cabo do destacamento achou de desfazer do velho. Foi aquela desgraça. Alípio se fêz na faca, espalhou a feira. Ocabo ficou para um canto de bofe de fora, e um soldado que se metera a bêsta não ficou para contar a história. Foi no júri. Encontrou homem para livrar êle. Se fôsse aqui do Santa Fé, morria de podre na cadeia. Nem é bom falar. 0 pintor Laurentino levantou-se para sair. -Bem, mestre Zé, muito obrigado, mas o sol está caindo. -Já quer ir mesmo, homem? Aqui a casa é sua. Passando pela estrada, pare aqui. Sinhá, Seu Laurentino já se vai! Apareceu a velha na porta. -Desculpe por tudo, Seu Laurentino, mas o Zeca é impossível. Vá com Deus. 0 bater do martelo do mestre José Amaro cobria os rumores do dia que cantava nos passarinhos, que bulia nas árvores, açoitadas pelo vento. ,Uma vaca MMia -or longe. 0 martelo do mestre era forte, mais alto que tudo. Opintor Laurentino foi saindo. E o mestre, de cabeça baixa, ficara no ofício. Ouvia o gemer da filha. Batia com mais fôrça na sola. Aquêle Laurentino sairia falando da casa dêle. Tinha aquela filha triste, aquela Sinhá de língua sôlta. Ele queria mandar em tudo como mandava no couro que trabalhava, queria bater em tudo como batia naquela sola. A filha continuava chorando como se fôsse uma menina. Oque era que tinha aquela 8 José lins do régo môça de trinta anos? Por que chorava, sem que lhe batessem? Bem que podia ter tido um filho, um rapaz como aquêle Alipio, que fôsse homem macho, de sangue quente, de fôrça no braço. Um filho do mestre José Amaro que não lhe desse o desgôsto daquela filha. Por que chorava daquele jeito? Sempre chorava assim sem que lhe batessem. Bastava uma palavra, bastava um carão para que aquela menina ficasse assim. Um bode parou bem junto do mestre. Oanimal era manso. Omestre levantou-se, sacudiu milho no chão para a cria comer. Depois voltou para o seu tamborete e começou o serviço outra vez. Pela estrada gemia um carro de boi, carregado de lã. Ocarreiro parou para conversar com o mestre. Estava precisando de correame para os bois. OCoronel mandara encomendar no Pilar. Ele gostava mais do trabalho do mestre José Amaro. 0 mestre olhou para o homem. E lhe falou, com a voz mansa, como se não estivesse com a alma pesada de mágoa. -É encomenda do Santa Rosa? Pois, meu negro, para aquela gente não faço nada. Todo mundo sabe que não corto uma tira para o Coronel José Paulino. Você me desculpe. É juramento que fiz. -Me desculpe, seu mestre, respondeu o carreiro, meio perturbado. Ohomem é bom. Não sabia da diferença de vosmecê com êle. -Pois fique sabendo. Se fôsse para você, dava de graça. Para êle nem a pêso de libra. É o que digo a todo mundo. Não agüento grito. Mestre José Amaro é pobre, é atrasado, é um lambe-sola, mas grito não leva. 0 carreiro saiu. Ocarro cantava nos cocões de aroeira, com o pêso das sacas. Foi de estrada afora. Omestre José Amaro sacudiu o ferro na sola úmida. Mais uma vez as rolinhas voaram com mêdo, mais uma vez o silêncio da terra se perturbava com o seu martelo enraivecido. Voltava outra vez 1 ena rnáoaoa latente: o filho que lhe não viera, a filha que era uma manteiga-derretida. Sinhá, sua mulher, era a culpada de tudo. Osol estava mais para o poente. Agora soprava fogo morto $ uma brisa que agitava a pitombeira e os galhos de pinhãoroxo, que mexia nos bogaris floridos. Um cheiro ativo de arruda recendia no ar. Omestre cortava material para ps arreios do tangerino do Gurinhém. Estava trabalhando para camumbembes. Era o que mais lhe doía. Opai fizera sela para o Imperador montar. E êle ali, naquela beira de estrada, fazendo rédea para um sujeito desconhecido. Calara-se a sua filha. Uma môça feita, na idade de parir filho, chorando como uma menina desconsolada. Era para o que dava filha única. Sinhá tinha a culpa de tudo. Parou na sua porta um negro a cavalo. -Boas tardes, mestre. -Boa tarde, Leandro. Está de viagem? -Nada não, mestre Zé. Vou levando um recado para o delegado do Pilar que o Seu Augusto do Oiteiro mandou. -Houve crime por lá? -Duas mortes. O negócio é que havia uma dança na casa de Chico de Naninha, e apareceu um sujeito da Lapa, lá das bandas de Goiana, e fechou o tempo. Mataram o homem e um companheiro dêle. Vou dar notícia ao Major Ambrósio do assucedido. -Êste Ambrósio é um banana. Queria ser delegado nesta terra, um dia só. Mostrava como se metia gente na cadeia. Senhor de engenho, na minha unha, não falava de cima para baixo. -Seu Augusto não é homem para isto, mestre Zé. -Homem, não estou falando de Seu Augusto. Estou falando é da laia tôda. Não está vendo que, comigo delegado, a coisa não corria assim? Aonde já se viu autoridade ser como criado, recebendo ordem dos ricos? Estou aqui no meu canto mas estou vendo tudo. Nesta terra só quem não tem razão é pobre. -É verdade, mestre Zé, mas o senhor deve dar razão a quem tem. Seu Augusto não vive se metendo nos negócios da vila. Éle não deixa é que cabra dêle sofra desfeita. Homem rr assim vale a pena. O Doutor Quinca do Engenho Novo era assim. E assim é que deve ser. -Não estou caducando. Oque eu digo, para quem quiser ouvir e que em mim ninguém manda. Nao falo mal de nmguem, nao me meto com a vida de nin ém. Sou da minha 'casa min a trabalho para quem quiser, nao sou cabra_ da bagaceira de ninguém. -Não precisa ofender, mestre Zé. -Não estou ofendendo. Eu digo aqui, todos os dias para quem quiser ouvir : mestre José Amaro não é um pau-mandado. Agora mesmo me passou por aqui um carreiro do Coronel José Paulino. Pergunte a êle A que foi que lhe disse. Não aceito encomenda daquele velho gritador. Não sou cabra de bagaceira, faço o que quero. O velho meu pai tinha o mesmo calibre. Não precisava andar cheirando o rabo de ninguém. -Mestre Zé está zangado, eu vou saindo. -Não estou zan -do, estou dizendo a verdade. Sou um oficial que não me entram^aos mandóes. Quando a gente fala nestas coisas vem lo o um obr ocê dizen oáue és zanga o. Zan ado por quê? Porque di -o_a verdade_? Sou % o -, dou o meu voto a auem quero Nãa vo o } gòv nó Aqui me apareceu outro dia um parente de Quinca Napoleão pedindo o meu voto. "Vota em quem, Seu Zé Medeiros? fui lhe dizendo. Quinca Napoleão é um ladrão de terra. OPilar é uma terra infeliz ; quando sair da mão do velho José Paulino, vai parar na bôlsa de Quinca Napoleão". 0 homem se foi danado comigo. Ouvia-se um gemer vindo de dentro da casa. Onegro Leandro perguntou para o mestre -Tem gente doente na família, mestre Zé? -Não tenho doente nenhum. E parou a conversa. Apitou um trem, muito de longe. -É o horário do Recife que vem passando. Já está tarde. Mestre Zé, mande as suas ordens. fogo morto 11 -É cedo. A cara fechada do mestre José Amaro se abriu num sorriso para o negro que se despedia. -Não quer nada na rua, mestre? -Nada não, muito obrigado. Dê lembrança ao banana do Ambrósio. E diga que se quiser um cabresto eu faço para êle, de graça. 0 negro saiu, de estrada afora, esquipando o cavalo arrudado. Omestre José Amaro voltou outra vez para dentro de si mesmo. A faca afiada cortava a sola como navalha. Chiavam na ponta da faca as tiras do couro que êle media, com muito cuidado. Trabalhando para um camumbembe do Gurinhém. Não tinha um filho que falasse alto com os grandes, que tivesse fibra para não agüentar desafôro. Então, muito de longe, começavam a soar as campainhas de um cabriolé. Omestre José Amaro se pôs de pé. Vinha passando pela sua porta a carruagem do senhor de suas terras, do dono de sua casa. Era o Coronel Luís César de Holanda Chacon, senhor de engenho de Santa Fé, que passava com a família. Tirou o chapéu para o mestre José Amaro. As senhoras do carro olharam para êle, e cumprimentaram. Pedro Boleeiro nem olhou para o seu lado. Era o cabriolé do Coronel Lula enchendo de grandeza a pobre estrada que dava para o Pilar. A velha Sinhá correu para ver passar o carro. Omestre José Amaro olhou para a mulher, com os seus olhos amarelos, com uma raiva mortal nas palavras que lhe saíram da bôca: -A maluca já parou de chorar? -Cala a tua bôca, homem infeliz, cala a tua bôca. Deixa a desgraçada da tua filha sofrer quieta. 0 mestre Amaro sentou-se outra vez. Omartelo estrondou na paz da tarde que chegava. Ouvia-se já bem distante as campainhas do cabriolé, como uma música que se consumia. Culpada de tudo era a sua mulher Sinhá. Onegro Leandro saiu danado com êle. Negro só servia mesmo para o cativeiro. Ninguém queria ser livre. Todos só desejavam a canga. Bem em cima de sua biqueira começou a cantar um canário côr 12 José lins do rêgo de gema de ôvo. Omestre Amaro já estava acostumado com aquêle cantar de um pássaro livre. Que cantasse à vontade. Batia forte na sola, batia para doer na sua perna que era torta. Que lhe importava o cabriolé do Coronel Lula? Que lhe importava a riqueza do velho José Paulino? As filhas do rico morriam de parto. Ocanário não se importava com o martelo do mestre. Um silêncio medonho envolvia tudo, num instante, como se o mundo tivesse parado. Parara de bater o mestre José Amaro, parara de cantar o canário da biqueira. Um silêncio de segundos, de vertigem do mundo. Omestre José Amaro gritou para dentro de casa -Sinhá, bota êste jantar, faz alguma coisa, mulher dos diabos. Vinha chegando a noite para a casa do mestre José Amaro. Êle já botara para dentro da sala os seus petrechos de trabalho. Havia barulho de galinha no terreiro. A velha Sinhá tangia a criação para o poleiro. -Bicho desgraçado, só êste--dizia o mestre.-Só faz barulho, só dá trabalho. 2 PEDRo BOLEEIRO chegou na porta do mestre José Amaro com um recado do Coronel Lula. Era para o mestre aparecer no engenho para consêrto nos arreios do carro. Omestre ouviu o recado, deixou que o negro falasse à vontade. E depois, como não tivesse gostado, foi se abrindo com o outro. -Todo o mundo pensa que o mestre José Amaro é criado. Sou um oficial, Seu Pedro, sou um oficial que me prezo. OCoronel Lula passa por aqui, me tira o chapéu como um favor, nunca parou para saber como vou passando. Tem o seu orgulho. Eu tenho o meu. Moro em terra dêle, não lhe pago fôro, porque aqui morou meu pai, no tempo do seu sogro. Fui menino por aqui. Para que tanto orgulho? Não custava nada chegar êle aqui e me perguntar pela saúde. Me contava o meu fogo morto 13 pai que o Barão de Goiana não tinha destas bondades. Era homem de trato com os pequenos. E o Barão de Goiana tinha razão para goga, era dono de muitos engenhos, homem de muito dinheiro na caixa. Sou pobre, Seu Pedro, mas sou um homem que não me abaixo a ninguém. -Mestre Zé, não tenho culpa de nada não, o homem mandou chamar o mestre, estou sòmente dando o recado. -Eu sei, não estou dizendo nada demais. Falo, como falo com todo o mundo. Eu não posso ver é pobre com chaleirismo, como êste Vitorino, cabra muito do sem-vergonha, atrás dos grandes, como cachorro sem dono. OCoronel Lula quer que eu vá consertar os arreios do carro dêle. Pois eu vou. -Está tudo podre, mestre Zé. Não posso fazer fôrça que se estoura tudo. Aquilo é coisa de muitos anos. -É que vocês não têm cuidado com as coisas dos outros. Quebram tudo. -Não é não, mestre Zé. É que a coisa está mesmo nas últimas. -0 Coronel Lula é homem de opinião. É um homem soberbo. Nunca vi senhor de engenho de tanto luxo. Nunca vi êste homem, a pé, correndo os partidos. Veja você o Coronel José Paulino. Não sai de cima dum cavalo. E é rico de verdade. OCoronel Lula, não. Vive montado naquele cabriolé como um rei. -É de gôsto, mestre Zé, é de gôsto. Já o velho Costa de Mata de Vara não anda a cavalo para não gastar os cascos do animal. -Estou falando é de gente, Seu Pedro. Não me venha com o exemplo daquele bicho. Aquilo é um bicho. E bicho muito ordinário. Aqui me chegou êle, uma vez, para me encomendar uma sela. Era um falar que não acabava mais. Falou, falou, e no fim me ofereceu uma miséria. Eu fui logo lhe dizendo: "Capitão Costa, eu vivo disto, eu não estou em condição de dar presente a rico não". Ah! disse nas ventas dêle. -0 Coronel Lula não fica atrás, mestre Zé. ó homem somítico danado. 14 José lins do régo -É de raça, Seu Pedro, é de raça. Dizem que o pai dêle era a mesma desgraça. Opai dêle estêve corrido, por causa da revolução de 48. Dizem que morreu no mato. O meu pai falava desta guerra de 48. Mataram um primo do Barão de Goiana, um tal de Nunes Machado. Opai do Coronel Lula andou com êste povo. Acabaram com êle. A mulher ficou amalucada, o filho é isto que o senhor conhece. -É verdade, mestre Zé, aquêle homem não regula bem. Não quero falar não, mas digo aqui ao senhor, tenho até mêdo de viver com aquela gente. -Qual nada, Seu Pedro. É porque o senhor é novo. Conheci o antigo boleeiro de lá, o velho Macário. Nunca, vi tanta dedicação por um homem como a dêle pelo Coronel. Morreu de velho. Contam que Macário viera de Pernambuco para trabalhar com o Coronel por causa do pai. Fôra cabra do velho Holanda, na guerra de 48. E era macho de verdade. Na questão que o Coronel teve com Quinca Napoleão, o velho Macário, um dia, foi ao safado do Quinca e lhe disse: "Olhe, Seu Major, a minha vida não vale nada, mas p do senhor vale muito. OCoronel não pode ser desfeiteado". Gosto de homem assim como êste Macário. -Mas mestre Zé, o senhor não paga fôro? -Meu pai não pagava. Estamos nesta terra desde a vida do sogro do Coronel. Aqui fico. OCoronel Lula nunca me falou nisto. E eu lhe digo: não é mau homem. Eu não me acostumo é com a soberba dêle. Para que tanta bondade, para que tanto luxo? A terra come a gente mesmo... Pois diga ao Coronel que vou amanhã fazer o serviço dêle. Quando o boleeiro Pedro se foi, o mestre Zé Amaro ficou com o Coronel Lula na cabeça. Conhecera muito senhor de engenho, trabalhara para tôda espécie de gente, mas para falar a verdade, o Coronel era como ninguém. Oque era o Santa Fé comparado com os engenhos vizinhos? Uma várzea de massapê de primeira, uns altos de mata fechada. Terra boa, coisa pequena mas que daria para um homem viver fogo morto 15 muito bem com a sua família. Ali vivera o Capitão Tomás, pai de D. Amélia, sogro do Coronel Lula. Conhecera-o ainda menino, mas o seu pai falava dêle como de homem reto, de trabalho, de ação decidida. Era até político de importância no Partido Liberal e dono de boa escravatura. Depois viera o Coronel Lula de Holanda. Vivia com êle há mais de trinta anos, e era aquilo mesmo desde que chegara para tomar conta do engenho com a morte do Capitão Tomás. Viera com aquêle carro, coisa de luxo, e assim vivia. Omestre José Amaro não sabia explicar, não sabia compreender a vida do senhor de engenho, que era dono de sua casa, da terra que pisava. Lá fora era um dia bonito de maio. Tudo era verde e o sol quente enxugava a estrada coberta de poças. As cajàzeiras davam sombra e pelas estacas as flôres das trepadeiras enfeitavam de azul e de roxo o pequeno curral onde a velha Sinhá criava os seus porcos. Os bichos chiavam na manhã clara. Omestre José Amaro deixou o Coronel Lula, e a mulher, que atravessava pela sua frente com um feixe de lenha nas costas, tomou conta, dêle, outra vez. Quis falar com ela, mas parou no meio da palavra que lhe saíra da bôca, e para corrigir-se bateu com mais fôrça na sola que trabalhava. Era a sua mulher Sinhá e não podia esconder o seu ódio por ela. Agora viu a filha sair de casa com uma panela na cabeça, caminhando para o chiqueiro dos porcos. Era de fato a sua filha, mas qualquer coisa havia nela que era contra êle. Omestre José Amaro viu-a no passo lerdo, no andar de pernas abertas e quis falar-lhe também, dizer qualquer coisa que lhe doesse. Martelou mais forte ainda a sola e sentiu que a perna lhe doeu. Com mais fôrça, com mais ódio, sacudiu o martelo. Era a sua família. Uma filha solteira, sem casamento em vista, sem noivo, sem vida de gente. -Bom dia, mestre Zé. Era o pintor Laurentino que voltava do Santa Rosa. 16 José lies do rêgo -Acabei os serviços ontem de tarde. Foi trabalho muito. O Coronel vai dar festa de arromba. Dizem que vem até governador. Também casa a última filha. -Pintaram a casa tôda? -Tudo está um brinco. Está lá o mestre Rodolfo, botando água encanada para o banheiro. OCoronel José Paulino, quando gasta, gasta mesmo. -Tenho visto passar muito troço. Há quinze dias, quando você passou por aqui, eu lhe dizia que o velho do Santa Rosa não conta comigo para coisa nenhuma. E não me arrependo. Você passa por aqui para contar grandeza da casa dêle. Está muito enganado, não me bota água na bôca. -Nada, mestre Zé, o senhor desconfia de tudo. Eu sei que o senhor não vai com o Coronel, mas não é para chegar a êste ponto. -É bom parar, Seu Laurentino ; sou homem pobre, sou um oficial sem nada. E estou contente, não me lastimo. Pode o senhor ir dizendo por aí afora: "Omestre José Amaro não tem inveja de ninguém". Quem tiver o seu dinheiro que mêta no rabo. -Mestre, não vim aqui para brigar. -Não estou brigando, homem de Deus. Isto não é briga. Então eu não posso falar a verdade? -Está certo, mestre Zé, está certo. Osenhor me desculpe. -Não tenho que desculpar coisa nenhuma. Se eu quisesse, estava em Goiana, bem rico de meu. Riqueza de ninguém me faz sofrer. Houve um pequeno silêncio. Ocanário cantava na biqueira, com todo o fôlego. E rugia na sola a quicé do mestre José Amaro. -Seu Laurentino-foi êle dizendo-, um homem vale pelo que é e não pelo que tem. Você estêve comendo na mesa do Coronel José Paulino e veio para a minha casa me meter inveja. -0 senhor está enganado, mestre Zé, não sou homem para isto. Não é a primeira vez que como em mesa de rico. fogo morto 17 -Não estou enganado não. Eu não me engano. Estalou na lama da estrada um cavalo esquipando. Os dois olharam e passou num ruço ligeiro o velho José Paulino, de chapéu-do-chile, grande, de rebenque na mão. -Bom dia-, falou êle, de longe. 0 pintor Laurentino levantou-se para tirar o chapéu. O mestre José Amaro grunhiu por entre dentes um bom-dia de raiva. Pararam de falar. A manhã brilhava por todos os lados. Chiava lá para dentro da cozinha o toicinho na frigideira de barro. -Bom, mestre Zé, vou andando. -É o que lhe digo, Seu Laurentino, estas mãos que estão aqui não cortam sola para aquêle homem. -Está direito, mestre; até outro dia. Velho danado, foi pensando o pintor Laurentino; que natureza de cobra. Que é que tem êle com a vida dos outros? Se se fala de qualquer coisa êle tem sempre o que dizer. Vinha andando pela estrada, para o Pilar, e em direção contrária viu um sujeito a cavalo, em marcha vagarosa. Pensou que fôsse o Padre José João, que gostava de andar assim como se não tivesse pressa de chegar. Era Vitorino PapaRabo, na sua égua rudada. Quis passar por fora, pelo atalho, mas Vitorino deu logo um grito: -Está com mêdo de quê? -De nada, Capitão Vitorino. -Vocês todos pensam que sou bicho. Sou homem para ser respeitado. -Não estou dizendo o contrário. -Pode dizer capitão. Sou capitão, como o Lula de Holanda é coronel. Não me faz favor. 0 pintor Laurentino, na beira da estrada, ouvia o velho Vitorino nos seus arrancos. A égua rudada mostrava os ossos, a sela velha, roída, a manta furada, os freios de corda. -Sou homem de respeito. Passei por ali e os filhos duma cabra saíram para a estrada para me insultar. Isto é um desafôro. Sou homem branco como o José Paulino. É meu 18 José lins do rêgo primo. E êstes canalhas não me largam. Está ouvindo, Seu Laurentino? OLula de Holanda anda de carruagem para ver se arranja uma bêsta que case com a filha dêle. Não esteja pensando que sou um camumbembe, Seu Laurentino. A égua vazava água por um dos olhos e a brida arrebentada enterrava-lhe de bôca adentro. Opintor quis despedir-se mas Vitorino queria falar mais. A cara larga do velho, tôda raspada, os cabelos brancos saindo por debaixo do chapéu de pano sujo, davam-lhe um ar de palhaço sem graça. -Boa viagem, Capitão Vitorino, tenho que chegar cedo em casa. -Diga a êstes cachorros que o Capitão Vitorino Carneiro da Cunha é homem para o que der e vier. E esporeou a égua com fúria. Oanimal pulou de lado, quase que deitando por terra o cavaleiro. Vitorino, aprumandose, gritou -Bando de cachorros! Um moleque escondido atrás duma moita de cabreira apareceu de repente na frente do animal para espantá-lo. -Papa-Rabo, Papa-Rabo! Vitorino sacudiu a tabica que golpeou o vento com tôda a fôrça. -Papa-Rabo é a mãe, filho da puta. E o moleque a gritar, quase que nas pernas do velho enfurecido. Vitorino queria que a égua tivesse fôrça para atropelar o atrevido; fincava as esporas, e nada; era aquêle passo preguiçoso, aquêle se arrastar de ossos velhos. Lá mais para longe gritou outro moleque -0 rabicho caiu. A figura de Vitorino era tôda de indignação, de um desespêro terrível. -Cambada de cachorros. Eu sou Vitorino Carneiro da Cunha, homem branco, de respeito. Falava só, gesticulava como se mantivesse um diálogo com um inimigo. Sacudia a tabica com uma fúria de louco. -E o diabo desta bêsta que não anda! fogo morto 19 E castigava a égua com impiedade. Pela estrada silenciosa o pisar mole da montaria espantava as lagartixas. OCapitão Vitorino Carneiro da Cunha atravessava as terras do Coronel Lula de Holanda, do Santa Fé. Ali era a grande aroeira que dava mal-assombrado. Ele não acreditava. Ele não tinha mêdo de coisa viva, de coisa morta. Passou a pé uma mulher de saia vermelha. -B -mrlia„ Seu Vitorin0 -Dobr lín -ua= não sou de sua laia Capitão_ Vit -ri_.nó ,.nó, Paguei patente foi para isto. -Me desculpe, Seu Vitorino. -Vá s a Vá at ala a bôca, velho debochado. Vitorino quis evan r a tabica agressivamente. A mulher correu para cima do barranco e abriu nos desaforos -Velho mucufa. Quem é que não te conhece, cachorro velho. -Papa-Rabo-gritaram mais adiante. -É a mia A mulher deixou a estrada e o Capitão Vitorino foi continuando a sua viagem. Com pouco mais era a casa do mestre José Amaro. Sim, era o José Amaro da Silva, eleitor de voto livre, o seu compadre José Amaro. Pelo seu gôsto o padrinho do seu filho Luís seria o primo José Paulino. Mas a sua mulher tomou o seleiro. Mulher teimosa, de vontade, de opinião. Queria era chamar, encher a bôca com um "meu compadre José Paulino". Odiabo da mulher escolhera o outro. 0 seu filho Luís estava na Marinha. Seria homem de comando. Os passarinhos cantavam pelas árvores que davam sombra ao Capitão Vitorino, de volta para a casa. Todos que o viam lá vinham com deboche; não era homem para debiques. Era o Capitão Vitorino Carneiro da Cunha, de gente muito boa da Várzea do Paraíba. Tivera um primo barão no govêrno da província. Antes de chegar em casa ia dar uma conversa com o compadre José Amaro. Não era de família como a sua, 20 josé lias do régo mas era homem branco, o pai fôra filho dum marinheiro de Goiana. E assim foi chegando na porta do mestre seleiro, o seu compadre Vitorino, pai daquele menino Luís que êle batizou nas missões do Frei Epifânio, no Pilar. -Bom dia, compadre-foi gritando o cavaleiro na porta. -Bom dia, compadre; não vai se apear? Vitorino saltou da égua, amarrou o cabresto na cêrca e chegou-se para perto da tenda. Omestre José Amaro olhou-o com desprêzo. Sempre lhe causava mal-estar aquela companhia de um pobre homem que não se dava a respeito. Era demais aquela vida sem rumo, aquêle andar de um lado para o outro, sem fazer nada, sem cuidar de coisa nenhuma. Era padrinho do filho daquele Vitorino e quando lhe deram a notícia de que o menino tinha entrado na Marinha, ficara satisfeito. Pelo menos não se criaria assim como o pai, como um bôbo pelo mundo afora. 0 velho Vitorino olhava para o compadre como para um inferior. Era um seleiro, um mestre de ofício que gente branca como êle não devia levar em conta. -Muito trabalho, compadre José Amaro? -Como de costume, compadre Vitorino. Como de costume. -Eu também ando que não tenho mais descanso. Odiabo desta eleição não me deixa parar. Era até para lhe falar, compadre, preciso do seu voto. OMajor Ambrósio me botou na chapa de conselheiro. Conto com o seu voto. Eles sabem o que vale o Capitão Vitorino Carneiro da Cunha. Vou fazer um figurão, meu compadre. OJosé Paulino desta vez vai ver o que vale o primo Vitorino. Apareceu na janela a mulher do seleiro. -Boa tarde, compadre Vitorino; como vai a comadre Adriana? -Boa tarde, comadre Sinhá. A velha não vai indo bem, não. Anda numa ciuméira danada. Como se eu fôsse um paide-chiqueiro. Mulher danada, comadre, anda me botando vigia por tôda a parte. fogo morto 21 -0 compadre também não cria juizo! -Mais do que tenho, minha comadre, só mesmo se fôsse monge.-E deu uma risada estrondosa. Omestre José Amaro, de cara fechada, era como se não escutasse nada da prosa do velho. -Meu compadre, só queria que você visse a figura que fiz na festa. do Maravalha. Olhe que havia uma rapaziada de chifre apontando. Pois eu, assim velho, não dava conta do moçame. Era Capitão Vitorino para aqui, capitão para acolá. Posso dizer que estou nesta idade, mas não tenho mêdo desta mocidade que anda por aí. -Ora, compadre, e o senhor não quer que a comadre Adriana tome cuidado? -Quero lá saber de cuidado de mulher velha! Cavalo velho, capim novo, comadre Sinhá. José Amaro, de cara fechada, não fazia sinal de aprovação para aquela conversa. A mulher compreendeu e foi se despedindo: -Pois compadre, diga à comadre Adriana que apareça. Tenho uns frangos para castração. E só ela é quem sabe fazer estas coisas. Depois que a mulher se retirou, José Amaro olhou firme para o animal amarrado na cêrca -Está nos ossos, compadre. -Não é por falta de trato. Capim não lhe falta, dou-lhe milho, faço tudo o que é possível. É velhice. A diaba nem rincha mais para os pais-d'água. E quando animal estanca, nestas coisas, está nas últimas. Mas meu compadre, eu suspendi a conversa. Eu estava falando na eleição, não é verdade? Conto com o seu voto. Vamos botar o José Paulino para fora de uma vez da política. OAmbrósio conhece o meu prestígio. Êle sabe que sou homem para levar duzentos votos às umas. Êstes meus parentes da Várzea estão enganados. OCapitão Vitorino Carneiro da Cunha tem amigos. Conto com o seu voto? 22 José lins do rêgo Pela estrada passava um moleque, a cavalo, e quando viu o velho Vitorino, parou e largou a bôca no mundo -Papa-Rabo, Papa-Rabo. Vitorino levantou-se com o corpo mole, pegou de uma pedra e saiu correndo atrás: -Papa-Rabo é a mãe. E correu com tanto ímpeto que tropeçou nas raízes da pitombeira e foi ao chão como um jenipapo maduro. Omestre José Amaro levantou-se para ampara-lo. Ovelho quase que não podia falar. Estava branco como algodão, de corpo mole. Depois que se refez com o copo d'água que bebeu, disse com a voz ofegante: -É isto que o senhor vê, meu compadre. Me perseguem dêste jeito. Chegara gente da casa para anima-lo. -Caí com o corpo todo. Muito obrigado. Éstes cabras me pagam. Isto é coisa do Juca do Santa Rosa. Estas desgraças me pagam. Corto a cara do safado de rebenque. 0 mestre Amaro falou manso para o compadre: -Compadre Vitorino, eu não quero dizer nada, mas o senhor é culpado de tudo isto. -Culpado de quê? Não está vendo que isto é perseguição política? Estão com mêdo do meu eleitorado. Cabras safados. Vou mostrar a todos quem é êste velho Vitorino Carneiro da Cunha. Não enjeito briga. Se querem no pau, vamos no pau. Calou-se o mestre José Amaro, e o Capitão Vitorino, já refeito do choque, não parava mais de falar: -Vou dar com o José Paulino no chão. Vem aí o Coronel Rêgo Barros, é militar, é homem de dar razão a quem tem. Vai ser governador. Ladrão com êle é na cadeia. Dantas Barreto está em Pernambuco. Franco Rabelo no Ceará. OLula de Holanda devia chefiar o partido aqui no Pilar. Opai foi homem de mando em Pernambuco, ouvi falar que estêve na guerra de 48. Gosto do povo do sertão por isto. Omeu pai teve terra no Cariri, tinha trinta homens de rifle. Ali é na bala, meu compadre. É do que gosto. fogo morto 23 Vinha já escurecendo e um cachorro latia com desespêro lá para as bandas do rio. Depois, escutou-se um tiro sêco, no silêncio. -É Manuel de Úrsula, caçando preá-disse o Capitão Vitorino. Éste canalha é dos tais que não me respeitam. Pode ficar certo, meu compadre, que uma desgraça eu faço nesta Várzea. Boto as tripas de um no chão. Bem, vou-me embora. -E gritou para o interior da casa:-Comadre, até mais. -Vá com Deus, compadre. -E, compadre, posso contar com o voto?-0 mestre José Amaro quase que não respondeu à pergunta. -Posso contar? -As eleições estão longe, compadre. E Vitorino, montado na pobre égua, de pernas abertas nos estribos de ferro: -Mande as suas ordens. E saiu, no passo do animal cansado. Ovulto cresceu na tarde que se punha. Parecia um gigante, aos restos de sol, que cobriam as cajàzeiras. A égua pulou para um lado, como se fôsse se arrebentar. Ocapitão meteu as esporas e sumiu-se por trás da moita grande de cabreira. Omestre José Amaro ainda o viu na curva da estrada. Ia gesticulando, sacudindo a tabica no ar como se golpeasse inimigos. Ouviu-se então um grito vindo de longe, numa voz fina de menino -Papa-Rabo, Papa-Rabo. E uma gritaria de cachorro cobriu o brado rouco do capitão. -É a mãe. Do outro lado o eco respondia abafado. Omestre José Amaro tratou de botar os troços para dentro de casa. Viu a filha que chegava com um pote d'água na cabeça. A mulher tangia as galinhas para o poleiro. Uma guiné gritava como gente no terreiro. A voz da velha Sinhá enchia tudo -Chi, chi. O mestre Amaro andou um pouco para a beira da estrada. As tanajuras voavam rasteiras, em bando, e caíam no chão 24 joaé lina do rêgo sem fôrça para se levantar. Estavam gordas demais. Passou por êle o negro Manuel de Úrsula, de espingarda ao ombro, com dois cachorros amarrados numa corda comprida. -Boa tarde, mestre. Está tomando a fresca da tarde? -Vendo o tempo. -Os moleques, lá em cima, deram com o velho Vitorino no chão. Amarraram uma corda na estrada e o animal do velho tropeçou e deu com o pobre em terra. São uns moleques dos diabos. Botei Seu Vitorino no animal. E êle foi descompondo a Deus e ao mundo. Me disse, até, que tinha tido uma briga com o pintor Laurentino, e que tinha dado no homem. Éste Seu Vitorino não cria juizo. Os preás mortos deitavam sangue pelo bornal do negro. Omestre José Amaro ficou calado. -Se gosta, mestre, está aí um preàzinho para o senhor. Gordo assim como está, é mesmo que galinha. E tirou um preá e deixou em cima da relva. -É comida carregada. Para quem tem ferida é mesmo que veneno. 0 mestre José Amaro agradeceu o presente. E o negro se foi com os cachorros grunhindo. Era quase noite. Agora na casa não se ouvia uma voz. As galinhas no poleiro se aquietavam para o sono. -Menina, leva isto lá para dentro. 0 capim ficou melado de, sangue. Aquêle sangue escuro fazia mal ao seleiro. Teve nusea; não podia ver sangue de bicho. E com terra molhada cobriu as manchas. Sinhá já havia botado a criação tôda para dormir. Os porcos no chiqueiro fossavam o chão, roncando. Obode, deitado no copiá do lado. Aquêle sangue fizera mal ao mestre. Não teve coragem de botar aquêle bicho fora. Sinhá faria um guisado e no outro dia nem mais pensaria naquele sangue imundo. Uma luz de querosene enchia a sala de claridade mortiça. Cheirava mais ativamente a sola nova que viera de Itabaiana. Omestre, então, teve vontade de falar com a família, de abrir-se com os seus, de sentir um agrado de sua filha. Era fogo morto 25 o raro aquilo que sentia naquele instante. Era duro demais, era como um cardeiro cheio de espinhos. Nisto passou pela estrada o cabriolé do Coronel Lula. Com as lamparinas acesas, com as campainhas tocando, encheu a bôca da noite de vida. -D. Amélia vai para o mês de maio-falou a mulher. -É a vida que êles querem-retrucou o seleiro. Ainda se ouvia como do fim do mundo as campainhas tocando. -É por isto que não vão para diante. -Cala esta bôca, herege. -Não acredito em homem que vive em A casa voltou ao silêncio. -Pobre do compadre Vitorino, a comadre Adriana é que vive naquele sofrer. Você não imagina, Zeca, o que ela passa. -É sina daquela pobre. Nasceu assim e morre assim. Entrava um vento bom da noite para a casa do seleiro. Cheiravam as flôres do bogari, cheiravam as cajàzeiras, o jasmim-do-céu se abria para a lua que botava a cabeça de fora. -12 lua cheia hoje? -É. Você não viu o compadre Vitorino como estava? Foram os dois para a porta da casa. E viram o céu estrelado, e a paz do mundo, do grande mundo calado. Um cachorro começava a latir, latia com desadôro, e por fim lançava uivos de uma dor profunda. -Aquilo é para a lua. -É para a lua. Está sofrendo muito. Uma nuvem cobriu o céu e tudo ficou escuro. De repente mundo se clareou outra vez, em luz branca. -Zeca, olha o sereno. Isto vai dar tosse. O mestre fechou a janela. -Está entrando muito mosquito. Vou andar um pouco. E saiu. -Toma cuidado com o sereno, Zeca. 0 seleiro estava possuído de paz, de terna tristeza; ia ver a lua, por cima das cajàzeiras, banhando de leite as várzeas do Coronel Lula de Holanda. Foi andando de estrada afora, queria estar só, viver só, sentir tudo só. A noite convidava-o para andar. Era o que nunca fazia. Vivia pegado naquele pé de padre. 26 José lins do rêgo tamborete, como negro no tronco. E foi andando. Mais para perto da casa de Lucindo Carreiro, parou um pouco. Vinha vindo um vulto de branco. Esperou que êle passasse. Era um portador do Santa Rosa, o negro José Guedes. -Boa noite, mestre Zé; procurando alguma coisa? -Andando, estirando as pernas. 0 negro se foi. Na lagoa, a saparia enchia o mundo de um gemer sem fim. E os vaga-lumes rastejavam no chão com mêdo da lua. Tudo era tão bonito, tão diferente da sua casa. Quis andar para mais longe. E se deixasse a estrada? Ganhou pelo atalho que ia para o rio. E deparou com a negra Margarida, que ia pescar. -Que faz por aqui, mestre José Amaro? Deu uma desculpa qualquer e voltou para o outro lado. Cheirava tôda a terra. Era cheiro de flôres abertas, era cheiro de fruta madura. Omestre José Amaro foi voltando para a casa como se tivesse descoberto um mundo novo. Quando chegou, a mulher já estava com mêdo: -Que fôste fazer a estas horas, Zeca? Só quem está aluado Calou-se, fechou a porta de casa e foi para a rêde com o coração de outro homem. Não dormiu. Ouvia tudo que vinha lá de fora. Ouviu o ressonar da filha. Oque é que havia com ela? Lembrou-se então do sangue do preá, sujando o verde do capim. Ocheiro de sola nova enchia a casa. Omestre José Amaro via a lua muito branca entrando pelas telhas. E dormiu com as réstias que lhe pontilhavam o quarto. Sinhá roncava como os porcos do chiqueiro. No outro dia corria por tôda a parte que o mestre José Amaro estava virando lobisomem. Fôra encontrado pelo mato, na espreita da hora do diabo; tinham visto sangue de gente na porta dêle. 3 -PODE deixar o tabuleiro aí mesmo. Já estava com fome. fogo morto 27 -Sinhá Mariana manda dizer ao senhor para desculpar. Hoje é dia de guarda, e o povo da casa-grande está no jejum. -Este povo vai todo pro céu. Estão pensando que Deus Nosso Senhor gosta de gado magro. Deus gosta é de ver gado de sedenho abrindo. Oque foi que a velha mandou hoje? Esta história de bacalhau não é comigo. -Todo mundo está no bacalhau, mestre Zé. -Não venho trabalhar aqui para comer isto. -Os brancos estão comendo, mestre. -Quero lá saber de branco. Quero é a minha barriga cheia. 0 moleque abriu os dentes numa risada gostosa. -Mestre, o velho anda com essa leseira de reza que não acaba mais. -É o que êles querem. Estão pensando que oficial é cachorro. Pensam que me machucam, não me chamando para comer na casa-grande. Não sou o pintor Laurentino que vive por aí contando prosa. Omestre José Amaro, menino, tem a sua bondade, também. Tenho trabalhado para senhor de engenho de muitas posses, gente de mesa de banquete, e nunca vi êste luxo aqui do Santa Fé. 0 moleque ouvia o seleiro, de bôca aberta. E enquanto o mestre comia no tabuleiro reparava no olhar duro, na bôca grande, nas mãos grossas. Era aquêle o homem de quem o povo falava tanto. Diziam que pelas estradas, pela beira do rio, alta noite o velho virava em bicho perigoso, de unha como faca, de olhos de fogo, atrás da gente para devorar. E o moleque por mais que olhasse não via nada daquilo. Omestre José Amaro de fato não era como todos os outros. Gostava de ouvi-lo, ali vinha lhe trazer o tabuleiro do almôço, e ali gostava de ficar, reparando no trabalho, no jeito com que o mestre cortava a sola, enrolava o couro, metia a brocha, cosia as correias. Pedro Boleeiro ficava ajudando-o, e de vez em quando o mestre levantava a voz para reparar num malfeito. Os olhos amarelos, a côr de um branco de prêso de cadeia, davam ao seleiro um ar diferente dos outros homens que o moleque via nos eitos, nos trabalhos de enxada. 28 joaé sina do rêgo -0 Coronel Lula-continuava o mestre-está muito enganado comigo. Já trabalhei para muito senhor de engenho aqui da Ribeira, da várzea de Goiana, e só encontrei homens de tratamento. Ele não; passa por aqui e nem se demora para saber do trabalho, para dar uma opinião. É metido na gravata de manhã à noite, como um juiz de direito. Ora, pobre é gente. Depois se levantou, foi até a porta que dava para a casa do engenho, olhou firme como se quisesse descobrir uma coisa, e continuou -Aí está em que dá o luxo dêle. Está aí o engenho num atraso danado. OMajor Tomás, o que deixou está aí no mesmo pé. Engenho de bêstas num tempo dêste! -0 mestre já trabalhou em usina? -Nunca. OJosé César de Goiana, que foi patrão de meu pai, uma vez me mandou chamar. Não fui, não. Já estou velho, vou ficando aqui mesmo por esta desgraça. Ouviu-se então um grito de chamado: -ó Floripes ! -É o velho gritando?-disse o seleiro. -É, êle tem um pegadio danado com o Floripes. Floripes é afilhado dêle e é também da reza. Está todo dia de tarde e de noite no oratório com a família nas ladainhas. Ali na casa do carro o mestre Amaro ficava o dia inteiro no serviço. Os arreios do cabriolé estavam em petição de miséria, tudo podre, levado do diabo. A princípio, quis voltar para casa. Não havia material para o serviço. Ovelho não dava sola, não tinha nada para o consêrto da carruagem. Afinal ficara. No fundo, o Coronel Lula agradava. Parecia-lhe um homem aluado. Ficou, trouxe de casa o material necessário e estava ali, botando ordem no luxo do Coronel Lula. Pelo menos, o carro do Coronel Lula cantaria pela estrada, seria mais alguma coisa que o cavalo ruço do Coronel José Paulino. Ocabriolé consolava um pouco o seleiro da mágoa que lhe dava aquêle senhor muito rico, muito cheio de terras, que lhe dera gritos como se fôsse um negro cativo. Gostava de ver o Coronel Lula no cabriolé, enchendo a estrada com a sua parelha. Odiabo era aquêle orgulho do velho, aquela soberba. fogo morto 29, 0 moleque se fôra e agora, sòzinho no trabalho, os pensamentos enchiam a cabeça do mestre e começavam a sair, a criar asas. A vida daquele povo da casa-grande ninguém podia compreender. D. Amélia tocava piano. Era outra satisfação do seleiro. Em casa do Coronel Lula havia piano. Era o cínico que existia por ali. Em Goiana havia senhora de engenho que tocava piano. Por ali, só D. Amélia. Ovelho José Paulino fôra casado com uma filha do Major João Alves de Itambé, mulher que perto de D. Amélia fazia vergonha. D. Amélia quando saía de cabriolé era como se fôsse dona de tôdas as terras por onde ela passava de carro. As negras não gostavam dela porque não vivia na cozinha, ouvindo enredadas, metida nas conversas dos camumbembes. Com o cabriolé, Dona Amélia era outra fôrça que o seleiro tinha contra o Coronel José Paulino. Mas como seria aquêle povo por dentro? Ovelho Lula só andava de gravata, não saía de casa a pé, a filha estivera com as freiras no Recife, e havia aquela doida, andando dentro de casa sem parar, a irmã de D. Amélia. E havia aquêle piano. Era tudo o que o povo sabia. A sala de visita tinha muito quadro, tinha um espelho para o corpo inteiro, tapêtes no chão. Ovelho Lula não abria as janelas da sala de visita; vivia ela fechada, com o piano de D. Amélia para um canto. E de que vivia aquêle povo? As safras do Santa Fé não davam cem pães. Diziam que o velho todo ano ia ao Recife trocar moedas de ouro que o Capitão Tomás deixara para a filha. -Ó Floripes, ó Floripes! Era o Coronel Lula chamando o negro que fazia as coisas na reza. E o mestre Amaro, sem saber por que, pensou na sua filha, naquela sua Marta, tôda esquisita, com trinta anos, como se fôsse uma menina. Era a sua vida que se ligava à vida do povo da casa-grande. Tinha uma filha que se parecia com aquêle povo. Ocarro do Coronel ficaria um brinco com o trabalho que estava fazendo. Daria uma mão de tinta nubian nas rodas, poria tudo da melhor forma. Osol já devia estar muito baixo. Vinha chegando do pasto o gado do Coronel Lula. Omestre Amaro levantou-se para estirar as pernas e chegou para fora da casa. Viu o gado do senhor de engenho. 30 José lins do rêgo 41 10 Eram umas três vacas, uns dez bois de carro, uns poucos novilhos. Era tudo que o Coronel Lula tinha de criação. Fôsse comparar aquilo com o gado do Santa Rosa ! 0 mestre foi então se preparar para sair. E estava na porta., de chapéu na cabeça para a viagem, quando chegou o negro Floripes: -Boa tarde, seu mestre. Está de saída? -É, já vou pra casa. -É, seu mestre, que o Coronel mandou lhe falar sôbre uma questão do Capitão Vitorino. -Que negócio é êste, Seu Floripes? -0 Capitão Vitorino anda dizendo que o mestre vai votar contra o Coronel José Paulino, e o meu padrinho mandou falar com o senhor para tomar cuidado. José Amaro parou um instante. A cara amarela ficou mais lívida ainda. -Seu Floripes, pode dizer ao Coronel que o mestre José Amaro não é escravo de homem nenhum. Eu voto em quem quero. Omeu compadre Vitorino me falou neste negócio de eleição, e eu nem sei mesmo o que é que êle quer. Não vou atrás de cabeça de doido. 0 sol se punha. Onegro Floripes ficou quieto, meio triste. Ouviu-se um toque de sino. -Está na hora das ave-marcas, seu mestre. Omeu padrinho vai tirar o têrço. - E foi-se. Omestre Amaro parou um pouco junto ao paredão do engenho, e reparou nos estragos que a chuva fizera nos tijolos descobertos. Pareciam feridas vermelhas. 0 bueiro baixo, e a bôca da fornalha escancarada, um barco sujo. Lembrou-se dos tempos do Capitão Tomás de quem o seu pai lhe contava tanta coisa, das safras do capitão, da botada com festas, das pejadas, com a casa de purgar cheia de açúcar. Pela estrada iam passando os dez carros do Coronel José Paulino carregados de lã para a estação. Enchiam a tarde de uma cantoria de doer nos ouvidos. Vinte juntas de bois, dez carreiros, cinqüenta sacas de lã. Era o Santa Rosa na riqueza que fazia mal ao seleiro. Lá na casa-grande do Santa Fé estava escrito uma data: 1852. Ainda do tempo do Capitão Tomás. Mas, afinal de contas, o que era que tinha que fogo morto 31 ver com tudo aquilo? Tinha a sua família para pensar nela. E saiu de rota batida para casa. A casa-grande do Santa Fé já tinha luz acesa quando dobrou na estrada. Tinha a sua casa, e tinha aquela filha para cuidar. Havia pela estrada a trilha funda dos carros do Santa Rosa. Muito de longe cantavam ainda uma cantiga que agora era tristonha. Por debaixo das cajàzeiras foi indo o mestre desconsolado. Pensar na filha era tristeza para êle. Depois pensou no recado do Coronel Lula. Por que não lhe viera falar, não aparecera na casa do carro para lhe indagar? Mandara aquêle negro com um recado. Velho luxento. Nunca lhe pedira para dar o seu voto, nunca lhe mandara falar nestas coisas. E agora, dando ouvidos às histórias dum maluco como Vitorino. Não voltaria mais a trabalhar no Santa Fé. Mudaria de terra, mas ninguém pisaria por cima dêle. Quando foi chegando perto da casa do Seu Lucindo, apareceu-lhe pela frente o Salvador, o bicheiro de S. Miguel. -Boa noite, mestre Zé, deu cobra. A velha Adriana, mulher de Vitorino, pegou quarenta mil-réis. Hoje foi dia safado para banqueiro. José Amaro não quis parar, mas o homem insistiu. -Mestre Zé, o negócio da eleição está pegando fogo. Estão dizendo que o Coronel Rêgo Barros vem por aí para botar tudo que é rico na cadeia. Acho difícil. Seu Vitorino só fala nisto. Está nos azeites. Sinhá Adriana me disse que êle só se aquieta quando meter-se em pau. -Não sei de nada não, Salvador, estou voltando do Santa Fé. -Está obrando lá, mestre Zé? -Servicinho de consêrto no carro. -Servicinho? Obicho está caindo de podre. Eu ouvi dizer que o Dr. Juca do Santa Rosa, o filho do homem, comprou um carro em Recife que é de primeira. -Vou andando, Salvador. -Mestre Zé, passo lá amanhã, para um bichinho. Esta história de eleição, do Coronel Rêgo Barros, não interessava ao mestre Amaro. Iria aparecer pela estrada carro bonito do Santa Rosa. Podia ser invenção de Salvador. Era 32 José lias do rêgo já noite fechada. 1852. Por êste tempo era menino, tinha o seu pai vivo, não poderia nunca imaginar que seria aquêle José Amaro de hoje. Sabia que a sua mulher Sinhá se casara com êle porque não encontrara outro. Estava ficando no caritó e aparecera êle com promessa de casamento. Fingiu que gostava dêle para não ficar môça velha, como agora ia ficando a filha. Uma môça velha. Com pouco, nos dias de quaresma, iam aparecer os engraçados para serrar caixão na sua porta, altas horas da noite, como faziam com as môças de Seu Lucindo. Serrar môça velha, caçoarem da desgraça dos outros. Não agüentaria, na sua porta não parassem com a brincadeira, que êle faria como o Capitão Gila do Itambé, que disparou um clanivote carregado de sal em cima da rapaziada. Pai de môça velha. Já ia perto de casa. Lá encontraria a mulher e a filha, tôda a desgraça de sua vida. Era preciso que tivesse mais fibra para agüentar tudo aquilo, para não lhe dar vontade de fazer uma coisa ruim. -COMADRE Adriana, o povo está falando muito do mestre José Amaro. -Falando de quê, comadre? -Estão dizendo que êle está virando lobisomem. -Não vou atrás disto. Aonde já se viu uma coisa desta? Omeu compadre José Amaro é homem de trabalho, de juízo acertado. -Estão dizendo, comadre, que aquêle amarelão dêle é que faz o mestre correr de noite como bicho danado. -Comadre, eu lhe digo uma coisa: todo êste falaço é de gente que não tem o que fazer. Conversava a velha Adriana com uma negra da cozinha do Santa Fé. Trabalhava a mulher de Vitorino na castração dos frangos de D. Amélia. Só ela por aquelas bandas tinha mão e ciência para aquêle serviço. Vivia de engenho a engenho à espera da lua nova, ou do quarto minguante, para ope fogo morto 33 rar com sucesso. Ali estava ela desde manhã, como uma cirurgiã que confiava no seu talho. Com ela não morria uma cria. Tinha boa mão, tinha fôrça de verdade para fazer as coisas. D. Amélia viera lhe falar, sòmente para lhe dizer que acabados os serviços queria lher dar duas palavras. Era a senhora de engenho mais delicada da Ribeira. Nunca ouvira uma palavra feia naquela bôca, nunca. a vira aos gritos com os outros, metida na cozinha para ouvir conversa de negras. Falavam dela, por isto, falavam do gênio esquisito, de viver calada para um canto. Era assim desde que a conhecera. Quando fôra em 77, a velha Adriana chegara, môça feita, com o seu povo morrendo de fome, no Santa Fé, e D. Amélia já era casada, e era aquilo mesmo. Era môça de prendas, de educação muito fina. Lembrava-se dela naquele mesmo carro que ainda corria pela estrada, com o seu ar de rainha, aquela beleza tão mansa, tão quieta que o povo chegara a desconfiar. Opovo estava acostumado com as senhoras de engenho que davam grito, que descompunham como a Dona Janoca do Santa Rosa. D. Amélia era assim, de natureza.. Tocava piano. Lembrava-se bem dos primeiros dias da sua chegada, com a lembrança ainda lhe doendo do sertão na pior sêca do mundo. A família estava aboletada na casa do engenho, e de lá ela ouvia D. Amélia tocando no seu piano. Tudo era bem diferente do que via hoje. Tudo era tão mais cheio de alegria. OCoronel Lula era môço bonito, com a barbicha preta, todo bem vestido. Parece que ainda escutava o som do piano nos ouvidos. Todos êles estavam na desgraça, comendo a carne que o Imperador mandara para o povo. Tudo magro como rês na retirada. D. Amélia fôra um anjo, naqueles dias. Quando ela entrava na casa do engenho, era como a providência, uma bênção de Deus. Agora era aquela velha, muito mais velha do que a idade que tinha. OCoronel era aquêle homem que ninguém entendia, metido dentro de casa, cheio de tanta soberba. Tinham aquela filha que estudara nas freiras do Recife. Era môça de mais de trinta anos, tão cavilosa, enterrada no quarto, lendo livros, com mêdo de gente. Parecia-se com Dona Olívia, aquela irmã de D. Amélia que andava 34 José lins do régo sem parar, da sala de visita para a cozinha, o dia inteiro, com a cabeça branca como de lã de algodão. A velha Adriana cosia as partes dos frangos que gritavam nas suas mãos. Passava limão no corte, e os ia deixando para um canto com as pernas amarradas para que não estrangulassem os pontos. A negra Mariana voltou a falar -Comadre, o mestre José Amaro estêve aqui trabalhando no carro, e eu tive até mêdo de ir falar com êle. Me contou o moleque que lhe levara o tabuleiro, que êle disse o diabo do Coronel e do povo da casa-grande. -Qual, comadre, é tudo figuração. Éle fala assim de todo o mundo. É um homem de muito falar. Quisera eu que o meu marido Vitorino fôsse como êle. Não estou me lastimando, não. Vitorino é homem de bom coração mas vive uma vida que dói na gente. Não tem jeito, não! É aquilo mesmo, quer chova quer faça sol. -Seu Vitorino é assim mesmo, comadre Adriana. Mas tem um coração que é um torrão de açúcar. Ouviu-se um grito que vinha lá de dentro -ó Floripes ! -É o velho chamando Floripes. Nunca vi pegadio igual. Odiabo do negro não quer outra vida. Quando toca as ave-marias, dão para rezar. Reza todo o mundo da casa. Eu é que não vou nisto. Não é que seja herege, não, comadre. É que não vou com aquela reza. Não está vendo que não acredito em reza dêste moleque safado! Calaram-se. D. Olívia chegava na cozinha, sem que visse coisa nenhuma, e voltava. -E vive esta velha, como uma carretilha de máquina, sem parar. Dá até agonia na gente. -É doença, comadre Mariana. É doença. A mulher do Dr. Joaquim Lins do Pau Amarelo deu para andar a cavalo que foi uma desgraça. Vivia em cima dum cavalo até que quebrou a perna numa queda. E morreu desta queda. Doença é o diabo. -0 velho daqui está doente, também, Só pode ser doença. Agora está com êste pegadio com o Floripes. Quando é de tarde manda tocar sino. E queimam incenso de igreja no quarto dos santos. Olhe, minha comadre, vou lhe dizer com fogo morto 35 tôda a franqueza d'alma: eu tenho até mêdo que aconteça uma desgraça aqui nesta casa. A velha Adriana acabara o serviço. -Comadre Mariana, D. Amélia quer nhora pode chamar ela? Aí apareceu D. Amélia. -Sinhá Adriana, venha até cá.-E entraram. A sala vazia cheirava a môfo. As cadeiras grandes estendidas em filas que davam para dois sofás, os quadros na parede, o espelho grande do tamanho da parede. -Sinhá Adriana, o seu marido anda por aqui botando coisa na cabeça do Lula. Lula acredita em tudo. Eu ouvi a conversa do Seu Vitorino quando êle estêve aqui pela última vez. Lula não deve se meter em política. A senhora sabe do gênio dêle. -0 que foi que Vitorino contou ao Coronel, D. Amélia? -Ouvi uma história de eleição, com o mestre José Amaro no meio. Éste José Amaro é homem muito malcriado. O meu pai dizia que o velho Amaro, pai dêle, tinha um crime de morte em Goiana. -D. Amélia, a senhora não tenha cuidado, eu vou dar côbro a isto. Vitorino não se emenda. Leva a vida neste fuxicado dos diabos. -Sinhá Adriana, leve duas galinhas para a senhora. -Não precisa não, D. Amélia. Não está vendo que não quero pagamento? -Não, Sinhá Adriana, leve as galinhas, a senhora precisa. Quando saiu da sala e chegou lá fora, no ar livre, a velha Adriana era como se tivesse fugido de uma prisão. Agora ia de volta para casa. As duas galinhas do pagamento de D. Amélia vinham quietas na cesta que trazia na cabeça. Osol estava quente, mas por debaixo das cajàzeiras a sombra era um refrigério. Vinha pensando na casa-grande de Dona Amélia. Ela não era de se impressionar com as coisas, mas sempre que voltava de lá não sabia explicar o que sentia. Que povo era aquêle que era tão diferente de todos? Nunca poderia compreender aquêle povo. Lembrava do negro velho Macário que fôra escravo do Capitão Tomás e que morrera falar comigo, a se 36 José Lins alo rêgo servido na casa. Até aquêle negro era diferente dos outros. Parou para falar com as velhas do Seu Lucindo. Gente boa, quieta, que vivia de fazer renda. -Entre, Dona Adriana. Lucinda anda doente, com uma dor, lá nela, que não pára mais. Está com a perna inchada. A velha Adriana entrou para a sala, onde estava deitada numa esteira a sua amiga doente. Parecia um cadáver, com os olhos fundos, e uma côr de terra na cara murcha. -É a Dona Adriana?-perguntou, como se não enxergasse. -Sou eu mesma, Dona Lucinda, vim lhe trazer duas galinhas para o seu resguardo. A velha quase que não pôde agradecer. As outras irmãs contavam da doença. -Não é para falar mal não, D. Adriana, mas Lucinda se queixa do mestre José Amaro. -Mas como, Dona Mariquita? -Eu lhe conto. Lucinda estava na beira da estrada, ali, no lado da aroeira grande, quando o mestre José Amaro vinha vindo da banda do Santa Fé. Lucinda disse que quando viu aquêle homem de andar de cão, sentiu um não-sei-quê nela. Pois o mestre José Amaro parou para falar com ela, coisa que êle nunca fêz. E perguntou pela saúde. E ela lhe disse: "Com as graças de Deus vou indo, mestre José Amaro!" E o mestre botou aquêles olhos amarelos em cima dela e foi lhe dizendo: "Com a graça de Deus ou com a graça do diabo, Dona Lucinda?" Lucinda disse que era como se tivesse visto o demônio na frente dela. E desde êste dia que lhe deu esta dor que não passa. -lsto é cisma, Dona Mariquinha. Não está vendo que uma criatura não tem fôrça para uma coisa desta? As duas velhas não se deram por vencidas. Para elas o mestre José Amaro botara coisa na irmã. Sinhá Adriana ainda se demorou na conversa. Depois se despediu. Estava ficando tarde e queria chegar em casa ainda com a luz do dia. Lá na estrada sentiu-se livre como se tivesse saído outra vez da sala de D. Amélia. Andou um pedaço sem encontrar ninguém no caminho, mas para perto da casa do mestre José Amaro apareceu-lhe a negra que fazia pes fogo morto 37 carias de noite. Teve intenção de não parar, mas a outra dirigiu-lhe logo a palavra. -Sinhá Adriana, fale com os pobres. Seu Vitorino agorinha passou por aqui, numa pressa desadorada. Me disse que ia pro Pilar. Tem tido notícia de seu filho, Sinhá Adriana? Teve que falar, que fingir satisfação para a negra. -A senhora já sabe, Sinhá Adriana? pois não é que o mestre José Amaro deu para correr de noite? De vez em quando encontro êle aqui pela beira do rio, todo esquisito. Não sei não, mas tem coisa dentro dêle. Não quis falar mais daquilo, achava aquela conversa um despropósito. -Sinhá Margarida, não gosto de falar nestas coisas. Gosto muito do meu compadre, a comadre Sinhá é uma santa. -Não estou dizendo nada demais. Eu vi êle, mais de uma noite, por aí, feito um leso; o que é que quer um homem assim de noite, Sinhá Adriana? -Eu vou indo, senão escurece. E saiu irritada com a cabra. Era só o que faltava, imaginar o seu compadre sôlto pela noite, como um bicho com o diabo no corpo. Lembrou-se então do seu filho Luís que o mestre José Amaro apadrinhara nas missões. Estava longe daquela vida, da desgraça do pai. Omenino era tão diferente de Vitorino, tão calmo, tão cheio de carinho para com ela. Quis que êle fôsse para a Marinha para que não sofresse com o pai que tinha. A saudade do filho apertou o coração de Sinhá Adriana. Já devia andar êle de mar afora. Escrevia de vez em quando, mas nunca mais que voltava para a casa. Fêra-se para a escola de grumetes do Rio, devia já ter o seu pôsto. Luís fugia do pai. Não era por ela não. Era pelo pai. E o andar vagaroso, com a estrada quase no escuro, ia ela pensando no seu filho querido que se fôra, que nunca mais veria. Luís sofrera muito com a vida do pai. Não era para menos. Um pai com um apelido, um pai mangado, servindo de graça para todo o mundo. Pobre do Vitorino! Ela às vêzes perdia a paciência, era bruta para com o marido. O mestre José Amaro, o seu compadre, lhe dizia : "Comadre Adriana, um homem como o seu marido dá dor de cabeça". Mas o que 3$ José lies do rêgo fazer para mudar a vida de Vitorino? Tudo que uma mulher de paciência podia fazer ela fizera. Tinha que trabalhar para sustentar a casa. Vitorino levava dias sem aparecer, sem dar notícias, correndo o mundo, dando desgôsto. Só em pensar que o filho crescesse com aquêle exemplo doía-lhe a alma. Botara o coração de lado mas mandara o menino para a Marinha. Ouvira muita censura, muito agravo por isto. Como era que se mandava um filho único para a Marinha! Chorou muito, perdeu noites, ficou velha, mas mandou o menino. Agradecia ao povo do Santa Rosa pela que fizera para a entrada de Luís na escola da Paraíba. Não se arrependeria nunca. Deus e a Virgem Maria protegessem o seu filho por êcte mundo de perdição. Lá estava o compadre José Amaro, na sua tenda. Tinha que parar para falar com o povo da casa. A pitombeira quase cobria o telheiro. Omestre quando a viu levantou-se. -Boas tardes, compadre. -De viagem, comadre Adriana? -Estou voltando do Santa Fé. Estive fazendo serviço para D. Amélia. A comadre não está? -Ela saiu com a menina, lá para a vazante do rio. Como vai a saúde? -Como a Deus é servido. -O compadre Vitorino passou aí pela porta. Me disse êle que ia com recado do Coronel Lula para o Dr. Samuel, o juiz do Pilar. -Que sina, compadre ! D. Amélia me falou numa história de eleição que Vitorino anda falando com o Coronel Lula. -Eu não sei q -zem regula menos, minha comadre, se o compadre Vitorino se o Coronel. Odiabo do velho deu agora para a mania de reza, comose tivesse virando padre. Estive lá trabalhando duas semanas, no consêrto do carro. Era bacalhau todo o dia. Me dizia o moleque que era por causa de dia de guarda. Naquela casa todo dia é dia de guarda. Ovelho está de miolo mole. Apareceram do fundo da casá a velha Sinhá e a filha. As comadres se festejaram. Marta foi para dentro e o mestre José Amaro continuou na conversa fogo -norto 39 -Comadre Adriana, eu todo dia digo aqui a minha mulher: "Aquêle Coronel Lula não anda bom do juizo". Lá eu estive duas semanas e nem uma vez êle teve a pachorra de aparecer para saber do serviço. Tem um negro Floripes que é mais do que feitor. Eu sei lá! Éste Santa Fé do Velho Capitão Tomás vai de mal a pior. A velha Sinhá levou a comadre para conversar para o interior da casa. Omestre José Amaro escutava o sussurro das vozes em conversa baixa. De repente lhe veio uma vontade de dizer o diabo àquelas mulheres. Para que aquêle falatório, um bate-bôca que não tinha fim? Omestre José Amaro dera agora para sofrer de ímpetos, de desejos violentos. A tarde chegava com a mesma tristeza de sempre. Marta saíra para tanger as galinhas, e os cachorros latiam muito de longe. Olatir dos cachorros fazia-lhe mal. Era como se fôsse um agoiro. E à bôca da noite as suas idéias ruins apertavam-lhe mais. Vinha-lhe um nó na garganta, um frio de lado, um mêdo que não sabia do que era. Mêdo de quê? Mêdo da morte não tinha, nunca tivera. Lá estava a sua filha fazendo os serviços da mãe. As galinhas fugiam, não davam atenção ao piado de Marta. Corria ela de um lado para outro, e a criação cada vez mais se espantava. Tudo aquilo foi crescendo no desespêro do mestre. Quase que abria a bôca para mandar tudo para os infernos. Refreou-se na violência que tomava conta de sua vontade. Ouviu, então, uma voz que o arrastou para a vida. Era o bicheiro Salvador. -Boa tarde, mestre Zé. Dona Sinhá hoje pegou quatro mil-réis no coelho. A banca hoje agüentou um repuxo dos diabos. Só o Major João José pegou cem mil-réis. 0 mestre José Amaro ouvia o bicheiro, como se nada. -Mestre Zé, podia chamar Nisto apareceu a mulher do -Boas tardes, Dona Sinhá, nhora pegou no coelho. -0 que, seu Salvador? -Foi sonho, comadre? se não ouvis a Dona Sinhá? seleiro com a visita. tenho uma boa notícia. A se 40 José lins do rêgo -Não foi não. Foi palpite. -Outro dia, comadre, tive um sonho para tigre e Seu Salvador neste dia não passou. -Vi o Seu Vitorino no Pilar, Sinhá Adriana. Estava fazendo um barulho medonho na porta do velho Quinca Napoleão. Aquêle Seu Vitorino não tem papas na língua. Ouvi falar que o Dr. Samuel vai fazer dêle oficial de justiça. -Deus me livre, Seu Salvador. Vitorino não é homem para estas coisas. -Por que não, Sinhá Adriana? Não é homem direito? Só tem mesmo umas besteiras que faz graça ao povo. Amanhã passo aqui para o pagamento, Dona Sinhá. E voltando-se para o mestre José Amaro -Ouvi falar, mestre Zé, que o senhor está contra o govêrno. É o que me contou o pintor Laurentino. 0 seleiro fêz cara feia para Salvador. -Venda os seus bichos, Seu Salvador, e deixe a vida dos outros. -Me desculpe, mestre. Só fiz perguntar. Laurentino estava conversando isto com o carteiro, na estação. Estava até gabando o senhor. -Eu não preciso de Laurentino para coisa nenhuma. Que vá à merda, ouviu, Seu Salvador? Voto em quem bem quiser, voto até no diabo. -Cala a tua bôca, Zeca. Isto é coisa que se diga? -Compadre, não abra a bôca para dizer uma coisa desta! -Dizer o que, comadre Adriana? Então êste negro passa aqui na minha porta para bater língua, para contar lorota e a senhora ainda acha que eu não tenho razão? -Não disse semelhante coisa, compadre. 0 bicheiro deu mais uma palavra e foi-se, alarmado. Sumiu-se na estrada. Houve um silêncio desagradável no grupo. A velha Adriana despediu-se. Já estava na estrada e ouvia a fala, aos gritos, do mestre José Amaro. -Que se danem todos. Que se metam nas profundezas do inferno. 0 que é que tinha de verdade o seu compadre? Que raiva era aquela? Nunca o vira tão amarelo, com os olhos como se fogo morto 41 fôssem de gema, de ôvo. Devia ser que a doença estivesse apertando. E Vitorino? Ficou com mêdo. Quando o marido dava para implicar com uma criatura ficava uma coisa impossível. Fôra assim com o Capitão José Medeiros, e deu no que deu. O capitão enraivecido partira para Vitorino como uma fera, só não tendo feito uma desgraça porque pegaram o homem. Agora estava com o Major Quinca Napoleão. Admirava-se que houvesse gente que desse ouvido às tolices de Vitorino. Tivera mais de uma vez de se valer do povo do Santa Rosa, para tirar Vitorino de embrulhadas. Quando êle brigara com um moleque do Engenho Recreio e quebrou a cabeça do infeliz com uma pedra, o juiz de direito botara processo para prender Vitorino. Não deu certo porque ela saiu de engenho a engenho, pedindo pelo marido. O Dr. Juiz fizera o diabo. Só porque Vitorino andava dizendo besteiras sôbre a vida dêle, fazendo aquelas graças bôbas. Já era quase noite escura quando avistou a sua casa. Viu a égua de Vitorino amarrada no pé de jucá. A luz da sala já estava acesa, e quando se chegou para o terreiro viu que tinha gente na casa. Então o que viu quase que a punha fora de si : Vitorino, todo molhado de sangue, deitado na rêde. -0 que foi isto?-gritou ela para os dois homens que falavam num canto. -Foi uma besteira do Seu Vitorino, Sinhá Adriana. ele estava na porta da loja do Major Quinca Napoleão dizendo o diabo. E um caixeiro saiu armado de um côvado para espantar êle. Aí, Seu Vitorino se fêz para o homem para tomar o côvado. E o homem sacudiu o pau na cabeça dêle. -lsto é uma miséria desta gente. Não estão vendo que Vitorino não faz mal a ninguém? -Cala a bôca, vaca velha-gritou Vitorino.-Sou homem para tôda aquela cambada. Só não matei o cachorro porque me pegaram. Vitorino Carneiro da Cunha não corre de pérapado. Os dois homens caíram na risada. Sinhá Adriana procurou o marido para ver o ferimento de perto. Era um talho pequeno sôbre o ôlho direito. 42 ,José lins do rêgo / --lsto não é nada. Quando o safado levantou o côvado, eu mandei-lhe um murro nos chifres que deu com êle no chão. Cabra mofino. -Cala esta bôca, velho bôbo. _-Quem é velho bôbo? E levantou-se com um esfôrço tremendo. Não pôde ficar de pé. Estava pálido, quis dizer qualquer coisa e arriou o corpo com uma vertigem. Sinhá Adriana correu para êle, os homens levantaram=lhe as pernas bambas para dentro da rêde. Corria um suor da cara de cêra do Capitão Vitorino Carneiro da Cunha. A mulher aflita trouxe alho para êle cheirar. Aos poucos voltava a si. Os seus olhos azuis perdiam a névoa da morte. O capitão olhou em redor, fixou na mulher a sua primeira mirada. -Sucedeu alguma coisa, minha velha? -Nada, Vitorino, você precisa tomar um cafezinho. Os dois homens se prepararam para sair. Aí o velho falou, com um timbre de voz de doente: -Diga àquele cabra safado que vou arrancar-lhe os ovos. Os homens não sorriam. Falaram com tristeza com a Sinhá Adriana. -Faz pena, coitado do Seu Vitorino. Não sei como se dá num homem dêste. Quando êles saíram, a velha Adriana lembrou-se do filho e chorou. O marido gemia na rêde. -Já vou, Vitorino. Enxugou os olhos e foi para a cozinha preparar .o café. Gemia o seu pobre Vitorino. Se Luís estivesse ali, o pai não sofreria uma desfeita daquela. Desejou que o seu filho aparecesse no Pilar, fardado, forte, e fechasse a rua como um furacão. Desejou que êle vingasse o sangue de Vitorino, do pai ofendido, batido como um cachorro. -Adriana, vem cá. Correu para perto do marido. Corria um fio de sangue de seu rosto. Era um homem branco, era um homem bom, uma criança sem juízo, e um desgraçado fazia aquilo com êle. 0 Coronel José Paulino não era seu parente? Por que deixava que fizessem aquilo com Vitorino? Não, ninguém, nin fogo morto 43 guém vingaria o seu marido surrado. Só Luís, o seu filho que era marinheiro, que era forte, que sabia brigar, poderia dar um jeito. Só Luís lavaria o seu peito da grande mágoa. Vitorino dormia como um justo. Foi buscar um lençol e cobriu o pobre marido. Era um menino de cabelos brancos. E devagar, como se fôsse ninar um filho para dormir, começou a balançar a rêde, onde o corpo grande de Vitorino Carneiro da Cunha repousava como num berço. A VELHA Sinhá não sabia mesmo o que se passava com o seu marido. Fôra ele sempre de muito gênio, de palavras duras, de poucos agrados. Agora, porém, mudara de maneira esquisita. Via -o vociferar, crescer a voz para tudo, até para os bichos, até para as árvores. Não podia ser velhice, a idade abrandava o coração dos homens. Pobre da Marta que o pai não podia ver que não viesse com palavras de magoar até as pedras. Por ela não, que era um resto de gente só esperando a hora da morte. Mas não podia se conformar com a sorte de sua filha. O que teria ela de menos que as outras? Não era uma môça feia, não era uma môça de fazer vergonha. E no entanto nunca apareceu rapaz algum que se engraçasse dela. Era triste, lá isto era. Desde pequena via aquela menina quieta para um canto e pensava que aquilo fôsse até vantagem. A sua comadre Adriana lhe chamava a atenção -Comadre, esta menina precisa ter mais vida. Não fazia questão. Môça era para viver dentro de casa, (lar-se a respeito. E Marta foi crescendo e não mudou de gênio. Botara na escola do Pilar, aprendeu a ler, tinha um bom talhe de letra, sabia fazer o seu bordado, tirar o seu molde, coser um vestido. E não havia rapaz que parasse para puxar uma conversa. Havia môças mais feias, mais sem jeito, casadas desde que se puseram em ponto de casamento. Estava com mais de trinta e agora aparecera-lhe aquêle nervo 44 josé lins do régo so, uma vontade desesperada de chorar que Coitada da filha. E depois ainda por cima olhar para ela. Vinha com gritos, com despr - )licâncias. O que sucederia à sua filha, por dera uma sina mais branda? pensava assi4 - enquanto na tenda o mestre José Amaro ba ofício era doentio. A côr de Zeca não era de do cheiro da sola, daquele viver constante p' hla mesma, no começo de casada, sofrera mW tumar com aquêle cheiro dentro de casa. se chegava para ela, sentia como se fôsse noj quando ficara grávida de Marta o quanto pãd, der agüentar a companhia de Zeca. Era o c' inhaca medonha de que não podia se separa; tumou-se. Teria que viver ali, mas custou-14) , sua vida. Dentro de casa, fazendo o almôçpe" passava pela cabeça os pensamentos que nÇ dela. Por mais que procurasse fugir deles, -, sua convivência, doendo-lhe no coração. De s parava o mestre de martelar. Tudo ficava fi paradeiro. Ouviam-se o fossar dos porcos e o b dos cavalos que passavam pela estrada. Depoi tava a castigar, e ela não se libertava dos p%, que Zeca andava com os modos de agora? P0 -, rava a sua filha? Ouvia o bom-dia dos viaj 9' primentavam o seu marido. E ouvia a respá tom áspero de sua resposta. Não lhe falava Ça as suas má-criações. Tudo devia fazer conqu -, tivesse que falar, senão se saía com gritos. IC Marta fôra à beira do rio buscar água. A casa só com o marido no trabalho, parecia-lhe 51 ás -d a sua filha prendia-a ao mundo. Só ela ainda -e gem de viver. Tudo sofrera calada, comoeecrs° reito a levantar a voz, a dar uma opinião pap2r, coisa. As vêzes tinha até inveja de sua cofiaúti4 fazendo tudo, dando ordens pela sua cabeça. y o compadre Vitorino era humano. Zeca não ti0 - não tinha alma, era aquela secura de pau, a4u`) ¡A raiva, desde que o conhecera. E depois para tudo tinha a sua opinião, de tudo sabia, só êle é que tinha razão. Marta chegou, deixou o pote na sala e veio para a cozinha. Olhou para a filha e sentiu que a pobre se acabava sem ter vivido. Estava magra, tinha os olhos como amortecidos, e a bôca com um jeito de quem sofria uma dor nas entranhas. -Estás sentindo alguma coisa, menina? -Sentindo o que, minha mãe? Estava assim, com umas maneiras ríspidas de responder. Com o pai não levantava os olhos, para Zeca que lhe dizia o diabo era um cordeiro tão manso que nem parecia gente; core ela, era no entanto como se lhe guardasse rancor. Destino, tudo do destino. Nada poderia fazer contra os desígnios de Deus. Lá de fora vinham rumôres de vozes. Era gente conversando com o seu marido. Chegou-se para ver quem era e reconheceu o negro Floripes, do Santa Fé. Ouviu a conversa -Mestre José Amaro, o meu padrinho soube de umas coisas, e ficou zangado. Êle é aquêle coração que o senhor conhece. Mas foram contar que o senhor anda falando da casa-grande. D. Amélia chegou até a chorar. -Falando de que, Seu Floripes? Sou homem de meu trabalho. Oque eu digo, não escondo de ninguém. Estou nesta terra há muitos anos e nunca tive que me rebaixar a ninguém. -Não é isto, mestre; foram dizer a D. Amélia que o senhor encheu a cabeça do moleque que lhe levava o tabuleiro a tal ponto que o bicho deu para falar de D. Neném. -Eu não sou menino, Seu Floripes, não sou Vitorino Papa-Rabo. Oque eu digo, digo em qualquer parte. Oque é que o Coronel Lula quer de mim? -Não quer nada. Eu é que vim até aqui para lhe prevenir. -Eu agradeço, mas uma coisa eu lhe digo, Seu Floripes, comigo não vai esta história de disse-que-disse. Comigo é no verdadeiro. Êste negócio de fuxico, de galinhagem de mulher, não é para homem do meu quilate. Estou na minha casa, no trabalho, e quem quiser saber o que pensa o mestre José Amaro, que me pergunte, que digo na cara. É ali na focinheira. Está ouvindo, Seu Floripes? Êste homem que está aqui não tem mêdo de careta. Não tenho mêdo nem dos gran 46 josé lins do rêgo des nem dos pequenos. Tenho uma mulher e uma filha. È tudo o que tenho. Mas quem quiser saber o que vale mestre José Amaro que se mêta com êle. Está ouvindo, Seu Floripes? -0 mestre parece que se alterou. Sou homem de religião, mestre José Amaro. -De religião coisa nenhuma. Conheço a sua sabedoria. Aí o mestre José Amaro levantou-se. Os olhos amarelos criaram uma chama de olhar de gato bravo, tinha na mão a quicé de cortar sola. Onegro Floripes não teve nem coragem de levantar-se do tamborete. -Olhe, Seu Floripes, se veio a esta casa com a intenção de me fazer mêdo, pode ir embora, pode deixar esta casa. -Mas mestre, eu não estou aqui para isto. Tremia o negro. A fúria no seleiro crescia. -Pode ir saindo, negro. Apareceu a velha Sinhá -0 que é isto, Zeca? -Não é nada não. Eu digo todo dia que ninguém pisa por cima de mim. E êste negro me chegou aqui com atrevimento. Floripes já estava de pé. -Dona Sinhá, o seu marido está impossível. Eu não disse nada. Eu só vim prevenir. -Não quero saber se disse ou se não disse. Estou lhe dizendo que vá pra puta que o pariu. E foi andando para o lado do negro. A voz do mestre era trêmula, e Floripes, quase que correndo, foi fugindo da fúria desencadeada. Lá de longe, no fim da estrada, gritou para o mestre José Amaro: -0 meu padrinho vai saber disto. 0 mestre, sentado, estava lívido, corria suor do seu rosto inchado. Tinha passado por êle um demônio. -Mulher, me dá um copo d'água. 0 canário cantava na biqueira, na mansa manhã de sol enublado. Um bando de rolinhas corricavam por cima da grama. Obode espichado por debaixo da pitombeira, quieto. Tudo quieto, tudo na paz, menos o coração do mestre José Amaro que batia com arrancos de açude arrombado. Quando a mulher apareceu com o copo d'água, êle lhe disse jogo morto 47 -Antes de sair daqui eu faço uma desgraça. -Não diga uma coisa desta, Zeca. -Eles pensam que fazem comigo o que fazem com Vitorino. Estão muito enganados. Ninguém pisa por cima de mim. Sou homem pobre mas sou homem de não fazer vergonha. Depois calou-se. A mulher voltou para dentro de casa. Cheirava o almôço no fogo. O mestre José Amaro tinha a bôca amarga. E pegando do martelo voltou a trabalhar com fúria. De longe ouvia-se o bater sêco do metro do italiano das miudezas. A velha Sinhá chegou à janela. -É o Seu Pascoal Italiano. Estou precisando comprar uns novelos de linha. Com pouco, parava na porta o mascate, montado num cavalo carregado com as suas malas de mercadoria. -Como vai, Seu José? Muita coisa barata para vender. -Bom dia; a minha mulher é que quer umas coisas. E voltou ao trabalho. Oitaliano, porém, queria falar, puxar a sua conversa. E contou a história da surra em Vitorino. Ojuiz, o Dr. Samuel, tomara as dores do pobre homem e ia fazer processo. Omestre indignou-se: -Dar num homem como aquêle é mesmo que bater em cego. 0 italiano estivera no Santa Rosa e contara que o Coronel José Paulino estava aborrecido com o fato. -Esta é muito boa! Por que não tomam conta do parente? Deixam o pobre do Vitorino sôlto pelo mundo, e quando acontece uma coisa desta é que vai ficar aborrecido. Mas êle está muito ferido, Seu Pascoal? -Não sei não senhor; falaram-me que lhe quebraram a cabeça. 0 mestre, de cabeça baixa, cortava a sola espichada no chão. Oitaliano punha embaixo da pitombeira as suas malas. -Marta, vem ver o sortimento do Seu Pascoal. A môça apareceu na janela, olhou com interêsse para tudo -Minha mãe, compre a linha para o bordado de D. Neném. -Bordado de quem? -De Dona Neném, do Santa Fé. 4$ josé Lins do rêgo .-Não admito. Filha minha não trabalha mais para aquela gente. Não faz bordado não. Marta abandonou a janela e Dona Sinhá, como se não tivesse ouvido nada, foi fazendo as suas compras. 0 italiano olhou espantado para o mestre: -Então, Seu José, já soube do novo govêrno que vem aí? -Que govêrno? -O Coronel Rêgo Barros. -Seu Pascoal, eu vou lhe dizer uma coisa. Este homem que o senhor vê aqui sentado, batendo sola, sabe o que está fazendo. E parou arrependido de ter falado. Oitaliano regateava no preço das linhas, dos botões, mas a sua atenção estava voltada para o mestre José Amaro. -0 senhor não vai votar, Seu José? -Olhe, Seu Pascoal, pode dizer aí mestre José Amaro só vota num -nio i vino. -Está falando sério, Seu José? -Mais do que sério. -Não vá atrás de brincadeira de Zeca, Seu Pascoal. -Brincadeira o quê? Estou dizendo que vou votar no Capitão Antônio Silvino. Por que não voto nêle? Porque é cangaceiro, porque anda por aí com o seu grupo atacando os ricos? Os bichões da Ribeira dão banquete a êle como governador, andam cheirando a bunda dêle. 0 italiano media a fita para Dona Sinhá, de vista baixa. Estava com mêdo da fala do mestre José Amaro. no Antônio Silvino nertur aXva o mascate. Uma vez êle ia pela mata do Rôlo quando se viu cercado. Era o bando de Antônio Silvino. Os cangaceiros mandaram que abrisse as malas e lhe tiraram todos os anéis de ouro americano. É verdade que pagaram, mas lhe fizeram tanto mêdo. OCapitão o chamou de parte para saber se não tinha encontrado tropa de soldado pelo caminho. Era um homem branco, bonito, de bigodes pretos. Gritou para o mascate, ameaçando de surra se não quisesse contar o que sabia sôbre os soldados. Quando o mestre falou em Antônio Silvino, Pascoal calou-se, foi t - ratando or tôda no Capitão Antô arte ue o ornem. fogo morto 49 de arrumar os seus trastes. A mulher do seleiro pagou-lhe srf-Oo-gnq o11alsa ob do seleiro pagou-lhe e ele arrumou-se para sair quando apareceu na estrada Josésaoti sbs7Iae sn rie5seceu na estrada José Passarinho, velho negro que vivia constantemente embria-si-iderre slrxem9Iaslarstantemente embriagado. -Bom dia, pessoal do bom Deus. E voltando-se para o mestre -Então, mestre Zé, está enchendo a barriga dêste gringo??ognizg slasb sg177scbarriga dêste gringo? Oitaliano enfureceu-se: -Cala a bôca, porco. -Porco é a tua mãe, filho de uma égua. crua. Mas Passarinho não se deu por achado: :obido -Quem me vinga é o Capitão Antônio Silvino. Estão di-ib OAAla2[ -011 1v112, oinio Silvino. Estão dizendo por aí que tu anda dando aviso à tropa. rgoil tropa. -Peste, negro miserável. -Eita, que o bicho está brabo. Oitaliano pegou num pau para correr o negro. .07gerr o *ler o negro. -Está fazendo coisa de menino, Seu Pascoal? Dando ou-rio obfIRQ Sls0SancI i Pascoal? Dando ouvido a Passarinho? 0 cavalo carregado ia deixando o terreiro e o mestre JOSC9aOti ellasrrr o s 07ie7reiro e o mestre José Amaro gritou para o mascate -Se encontrar o Capitão, diga que voto nêle. slsn ol(oto nêle. José Passarinho sentou-se no chão. Tinha os olhos verme-srn7sv aorilo ao srínirinha os olhos vermelhos, um trapo imundo como roupa, os pés comidos de frieira, s7isi7ï sb a0bi:riro5 as)és comidos de frieira. -Mestre Zé, a coisa no Pilar está pegando fogo. Seu Vito-olIV risa ogol obns,,gando fogo. Seu Vitorino já andou ontem por lá, com uma praça atrás dêle comcomo5 eisb as1ls spsigpraça atrás dêle como ordenança. Está dizendo que o Dr. Juiz quer botar o Majorso¿nM o Islod 1sup u quer botar o Major Quinca Napoleão na cadeira, por causa da porrada que deran--naieb srip sbs7-xoq stla porrada que deram na cabeça -do velho. ó velho doido, danado! Êle estava dizen-rxssib svslas 912[ ! obado ! Êle estava dizendo na porta da cadeira que cosia gente na faca. Está de pu-uq sb slaS .,sgn3 na na faca. Está de punhal, mostrando a todo mundo. 0 mestre José Amaro trabalhava silencioso. José Passa-saasq saoti .oaoi3feülencioso. José Passarinho parou de falar. Com pouco mais, dormia estirado npa obs71aas sirrr7ob -s, dormia estirado na sombra da pitombeira. Obode chegou-se para perto, cheirorro*xisd5 ol-req s7sq sae para perto, cheirou a cabeça do negro e foi andando. Pela estrada de vez enme sev sb sbs7lae s!a estrada de vez em quando passava gente que dava o seu bom-dia ao mestre. Nsk s7laenr os si:b-rrraom-dia ao mestre. Na sua frente o negro, estirado de papo para cima, roncava svn5fo7 411115 s7sq para cima, roncava. Môscas vinham pousar por cima dêle como em couro verdeb7sv 07005 1119 -como em couro verde estendido. Omestre escutava o chôro de sua filha lá parainq si sril11 soa eb de sua filha lá para 50 José Uns do rêgo dentro. Chamou pela mulher. Q do aquilo. -Tu ainda pergunta, homeir para ela sem precisão? -Eu dei pancada naquela par ti naquela leseira? A velha Sinhá não lhe deu res] mais chamou-o em voz alta -Zeca, vem comer. A tarde o mestre escutava o o bico nos estalos. Tudo era mai brando, o vento calmo, e as fôlha a brisa. Onegro Passarinho ronc na égua velha, no passo manso, da Cunha -Muito bom dia, meu compa -Por que não apeia, compadi -Estou com pressa. E a obr -Tudo no mesmo. Pode amar Nunca se vira tamanha delica padre. Ooutro chegou-se para 2 rete. Estava com a marca do fer direito inchado, com derrame ve -Pois Seu Mestre-foi falan podem com o velho. OQuinca N - mêdo de careta e mandou me agi comigo tinha vindo do sertão coi estas mãos que o compadre este chão. Ainda acertei uma tapona da Cunha acode a todo chamado migo. ODr. Samuel abriu pro, Doutor, não precisa nada disto. não precisa da lei para se impe OQuinca Napoleão já mandou Ferreira de Serrinha falar com cesso. Eu disse a Manuel Ferrei Manuel Ferreira, era homem de do que não pagava a ninguém e Êle quis falar grosso comigo. Mas comigo é ali na direita. Fui logo botando para fora tudo o que sentia. Compadre sabe que Vitorino Carneiro da Cunha não espera para falar. E disse para êle : "Manuel Ferreira, diga ao Quinca Napoleão que eu não estou roubando terra. Tenho um filho na Marinha, e tenho êste punhal para furar barriga de cabra safado". 0 mestre José Amaro ouvia o compadre sem uma palavra. Parou de trabalhar. Aquêle velho era como se fôsse uma criança grande, um menino levado dos diabos. No fundo, naquele instante, êle admirava Vitorino. Vitorino dizia tudo o que êle desejava dizer. Tudo que lhe ia na alma sôbre os grandes da terra era o que aquêle velho desbocado gritava aos quatro ventos, na cara dos poderosos. -Compadre foi muito ferido? -Coisa ligeira, botei muito sangue. A minha velha ficou com mêdo, queria me levar ao Dr. Chico de Itambé : "Olha, minha velha, se quer me matar, me mate logo. Éste Dr. Chico não me pega desprevenido". Apareceu na janela a velha Sinhá. -Bom dia, compadre Vitorino; como vai a comadre? -Bom dia, comadre Sinhá. A velha não anda muito bem não. Deu agora para chorar por causa do filho. Isto veio depois da minha briga lá no Pilar. -Deram uma surra no compadre? -Alto lá, Dona Sinhá, surra em Vitorino Carneiro da Cunha ninguém dá. Ainda não apareceu homem para esta bravata. Os olhos de Vitorino se arregalaram. Levantou-se, e com os punhos cerrados: -A senhora não sabe quem eu sou, Dona Sinhá. Sou homem que não pede para fazer, faço eu mesmo. Êstes safados que andam por aí estão enganados. E puxou o punhal: -Tenho isto para enterrar no bucho de um cachorro. Não tenho isto para limpar as unhas não. -Nada, compadre, a Sinhá não soube falar. Mulher é isto mesmo. 52 josé lins do régo José Passarinho levantou a cabeça. Era como se tivesse voltado de muito longe. Os olhos vermelhos fixaram-se no velho Vitorino. Fêz um grande esfôrço para prestar atenção no que via. -É o Capitão Vitorino? -Cala a tua bôca, negro cachaceiro. -Capitão não ofenda. Eu sei que o senhor é brabo. Brabo também eu sou. Se vem para mim de punhal eu vou de pernambucana. 0 Capitão Vitorino não deu ouvidos. Pela estrada passava naquele instante, enchendo o mundo do tilintar de suas campainhas, o cabriolé do Coronel Lula. Fizeram cumprimentos da carruagem. Omestre José Amaro não se levantou como de costume. Vitorino tirou o chapéu de pano, e o negro José Passarinho, já de pé, falou: -0 velho Lula anda agora na reza que nem penitente. Me disseram que na casa dêle até cachorro sabe padre-nosso. 0 capitão, como se o negro não estivesse presente, voltou a falar: -Éste Lula de Holanda está brincando comigo. Soube que a D. Amélia chamou a minha mulher para falar de mim. Tenho lá mêdo de Lula de Holanda? Aquilo é boi de cu branco. -Credo, compadre, o senhor também maltrata demais. -Comadre, isto é conversa para homem. Negro e mulher não têm que se meter. 0 mestre José Amaro riu-se. Onegro José Passarinho resmungou -Ó homem brabo ! Por que não vai para o bando de Antônio Silvino, capitão? -Cala a tua bôca, moleque sem-vergonha. E levantou-se com a tabica em ponto de sacudir nas costas do negro. -Cala a tua bôca, senão eu te dou um ensino. -Seu José, falou a Dona Sinhá, deixe o compadre. -Que diabo, não pode um homem de bem conversar descansado! -Pode falar a vida inteira, Seu Vitorino. fogo morto 53 --Seu Vitorino, não. Dobre a língua, já ouviu? Não sou da sua laia. José Passarinho foi andando, e quando chegou na estrada voltou-se para a tenda, e com tôdas as fôrças gritou -Papa-Rabo ! E deitou a correr. Lá de longe ainda se ouvia a gritaria do negro. "Papa-Rabo!" Omestre José Amaro olhou para o compadre e descobriu na cara dêle uma magoa. Era a primeira vez que êle sentia aquilo no velho. Estava triste o Capitão Vitorino Carneiro da Cunha. A égua batia com as patas no chão duro e as môscas que tinham dormido em cima de José Passarinho cobriam o lombo feridento da montaria do capitão. E o mestre José Amaro, para quebrar aquêle silêncio -Está mais gorda! -É, estou até pensando em negociá-la. Tenho em vista um cavalo do Seu Augusto do Oiteiro. Éle gosta muito desta égua e quer apanhá-la à fôrça. Sempre que chego lá, Seu Augusto me fala em trocar os animais. Tenho estimação pelo diabo desta égua. Não troco ela por muito cavalo de fama que anda por aí. Ela tem um baixo, compadre, que parece de sêda.-E depois, como se voltasse de um pensamento que não havia concluído -Compadre, as eleições estão ai. O Rêgo Barros é homem para botar ordem nesta nossa Paraíba. Veja que quem lhe está falando é homem que conhece política como a palma da mão. -Compadre, eu não estou pensando nestas coisas. aqui nesta tenda, e quero sair daqui para o cemitério. -Besteira. Ocompadre tem o seu voto. -0 que é um voto, meu compadre? -Um voto é uma opinião. É uma ordem que o senhor dá aos que estão de cima. Osenhor está na sua tenda e está mandando num deputado, num governador. -Compadre Vitorino, eu só quero mandar na minha família. Vivo 54 José lins do rêgo -É por isto que esta terra não vai para diante. É por isto. É porque um homem como o meu compadre José Amaro não quer dar valor ao que tem. -Não tenho nada, compadre. Marta apareceu com o pote na cabeça. -Moção, meu compadre. Moção para casar. O mestre fêz que não ouviu. Apareceu a Dona Sinhá com duas xícaras de café. -Está temperado, compadre. Vitorino agradeceu -Bom café! É da lavra? -Não, êste veio do Brejo de S. Vicente. Oaguardenteiro Alipio deu para Zeca. -Papa-Rabo !-gritou uma voz fina na estrada. Era o moleque do Santa Rosa, que vinha da estação com os jomais. Vitorino levantou-se e sacudiu o rebenque como se fôsse uma pedrada. Opau sumiu no ar como uma flecha. E mais de longe ouviu-se ainda -Papa-Rabo ! -E possa um homem de bem viver assim com esta canalha. Isto é coisa do Juca do Santa Rosa. Estão enganados com o Capitão Vitorino, meu compadre. Estão muito enganados. Bem, vou indo. 0 mestre José Amaro não insistiu para. que o compadre ficasse. Chegou-lhe de repente uma vontade incontida de ficar só, de refugiar-se nas suas conversas íntimas. E quando o velho Vitorino foi desaparecendo na estrada, ao passo tardo da bêsta arrasada, uma pena, como êle nunca tinha sentido por ninguém, enchia-lhe o coração. 0 compadre Vitorino não era, naquele minuto, o bôbo que lhe causava repugnância, era um homem que êle amava, que êle queria defender do motejo dos outros, da impiedade dos moleques, da ruindade dos homens. Era como se fôsse seu filho. Levantou-se do tamborete e andou um pouco para a beira da estrada. As flôres de um cardeiro eram como duas chamas que o vento balançava. Soprava uma ventania forte nos galhos das cajàzeiras. Era vento da tarde, o nordeste da bôca da noite. Quis sair mas ouviu a mulher chamando por êle. Era um chamado de fogo morto 55 aflição. Apressou o passo e quando chegou na sala viu a filha estendida, grunhindo como num ataque. A mãe estava com um ôlho de alho no nariz dela. E a pobre Dona Sinhá chorava como uma desenganada. Aos poucos Marta foi saindo da crise. E parou de grunhir, ficou num silêncio de muda, com o olhar vago. Levaram a môça para o quarto e a mulher foi dizendo para o seleiro -Estava lá dentro, na cozinha, quando ouvi um grito e corri para ver o que era. Quando cheguei aqui e que vi esta menina estendida, batendo com o corpo no chão como um bicho, não soube mais o que fiz. Eu bem que desconfiava de que Marta tinha qualquer coisa. Ela não me enganava. 0 mestre José Amaro não deu uma palavra. Foram depois para a mesa da janta, e êle não falava. Comia devagar, e a mulher com aquela cara de desolação -Pobre da menina. Todo dia com aquela agonia, até que deu nisto. Direitinho como a filha do Joca Marinho. É doença de môça. Eu sei como é isto. 0 mestre, no silêncio em que estava, ficou. Ouviu o chôro da filha abafado, como de um fio de água pingando no chão. Levantou-se. A noite havia chegado. Uma lua enorme, vermelha, aparecia por cima da capoeira do alto. Ali estava a sua vida, tôda a sua vida. Bem reparando, mais feliz do que êle era o seu compadre Vitorino. Não sofria assim como êle estava sofrendo, não tinha aquêle frio no coração, aquela bôca amarga, aquela vontade de desespêro, de fazer o que não sabia o que era. Passava um grupo de matutos pela porta. Ouvia o chicote tinindo, e o grito do homem comandando os animais. A mulher chegou-se para mais perto para lhe falar da filha. Aquilo lhe doia fundo. Teve ímpeto de mandar que se calasse, que o deixasse na sua dor terrível. -É isto, Zeca. A gente é culpada de tudo. -Culpada de que, mulher? -Disto que tu viste. Não deu uma palavra. Ficou quieto, numa mansidão que não era de seu feitio. Sinhá deixou-o naquela postura de homem sem ação. Teve pena do marido. Omestre seleiro, sem chapéu, assim de camisa por fora das calças como esta 56 José lins do rêgo va, foi andando pela estrada. A luz da lua ainda não clareava o escuro da cajàzeira. O vento frio que corria agradava ao mestre. Não parou, andou de rota batida uma meia hora. Ouviu gente falando para os lados da casa das velhas do Seu Lucindo. Era rumor alto de vozes e havia chôro, gritos de gente no pranto. Quis parar para saber o que era, mas a curiosidade não venceu a sua ânsia de andar, de andar o mais possível. Os pés inchados doiam nas pedras do caminho. A sua alpercata batia forte no silêncio da noite. Por debaixo da aroeira gigante parou um pouco. Ali vinham almas penadas pedir a misericórdia dos vivos. Almas penadas pedindo missa. Não acreditava em coisa alguma. Diziam que o Capitão Tomás chorava como negro cativo nas noites de escuro. Era tudo mentira. Quem chorava de verdade era a sua filha .Marta. E aquêle pensamento foi como uma cutucada de vara de ferrão no seu lombo. Foi andando para os lados da beira do rio. Ia pelo corredor que o velho José Paulino fizera para o gado descer da catinga para o bebedouro. A imagem do velho cresceu na sua memória. Lembrava-se do dia, na casa do engenho, quando êle consertava polias de máquina de algodão, dos gritos que o velho lhe dera. No outro dia não voltou mais para trabalhar para aquêle homem. Lá embaixo era o rio. Desceu mais, não queria que o vissem assim como estava. Tomariam por doido. E quanto mais andava mais tinha vontade. E foi assim que se viu com um tipo bem perto dêle parado. Quis correr para que não o visse, mas não o fêz, chegou-se mais para perto. -Boa noite. -Boa noite. É o mestre José Amaro? -As suas ordens. -Não é nada não, mestre, mas estou aqui a mando do Capitão Antônio Silvino. Obando está acoitado na Fazendinha, e o capitão me mandou por aqui para saber da tropa do Tenente Maurício. Falaram que os macacos passaram o dia de ontem no Santa Rosa. 0 mestre estremeceu com a palavra do homem. Onome de Antônio Silvino exercia sôbre êle um poder mágico. Era o seu vingador, a sua fôrça indomável, acima de todos, fa f ogo morto 57 zendo mêdo aos grandes. Quando o homem parou de falar, êle reconheceu o aguardenteiro Alípio. -É você, Alípio? -Sou eu mesmo, mestre Zé. Eu gosto do capitão. Não vou para o bando dêle por causa da minha mãe que ainda tem filha para casar. E os dois foram andando para o refúgio de um pé de juá que era como uma camarinha no meio da noite. -Alípio, para lhe falar a verdade, eu não sei nada a respeito da tropa do Tenente Maurício. Soube que êle teve um bate-bôca danado com o Dr. Quinta. do Engenho Novo, por causa do Capitão Antônio Silvino. Da estada dêle no Santa Rosa, para lhe falar com tôda a franqueza, eu não sei de nada. -Pois é isto, mestre Zé, estou procurando ver se acho uma notícia dos macacos. E se despediu do seleiro. Aquêle encontro encheu o vazio que atormentava o mestre. Havia um homem no mundo que ele podia ajudar. A lua deitava-se pelo mundo. Era um mar de leite por cima das coisas. Omestre sabia que o Tenente Maurício era homem de verdade. Jurara matar o capitão e agora não parava com os seus soldados, dando batida por tôda a parte. Êle porém era do capitão. Êle faria tudo para que o cangaceiro do povo resistisse ao tenente do govêrno. Parou um pouco no corredor que as ingàzeiras ramadas escureciam. Depois subiu para a estrada. E não sabia como dera de cara com o bicheiro Salvador. -Boa noite, mestre Zé Amaro. Tomando fresco? -É verdade, estirando as pernas. -Estou voltando do Pilar. Otelegrama com o bicho só chegou agora. Dizem que o Capitão Antônio Silvino cortou os fios da estrada. E o serviço se atrasou. OTenente Maurício está no Pilar com um tropão. Ohomem está com carta branca do govêrno. Não respeita grande nenhum. ODr. Quinta do Engenho Novo andou aos gritos com êle e só não foi prêso por causa do Seu Augusto do Oiteiro que correu para o engenho do tio e acomodou o tenente. 0 mestre José Amaro ouviu calado a conversa do bicheiro. 58 José Lins do rêgo -Então, adeus, mestre. ODr. Juta do Santa Rosa pegou duzentos mil-réis na borboleta. A Dona Adriana tinha sonhado com o Capitão Antônio Silvino e jogou no tigre. Eu jogava no veado: ninguém pega êle no andar, mestre.-E se foi. Se pudesse voltar para prevenir Alípio da história da tropa no Pilar! Ainda fêz tenção de voltar para a beira do rio. Já devia ser bem tarde e havia deixado a filha doente com a mulher acabrunhada. Era a sua mulher Sinhá a única culpada. Que podia êle fazer com uma filha que nada tinha dêle, que era um outro ser, sem coragem para vencer todos os mêdos? Êle não tinha mêdo de ninguém. Marchava devagar. As suas alpercatas batiam alto no calcanhar. Estava só naquele mundo, sem uma pessoa, sem um ente vivo. Viu a luz da casa das velhas do Seu Lucindo como um farol vermelho na luz branca da lua. Aproximou-se mais e ouviu chôro de gente. Oque seria aquilo? Pensou em entrar no atalho que dava para a casa. E estava pensando em procurar saber o que podia ser aquêle chôro, quando um canto de reza subiu ao ar. Era quarto de defunto. Entrou no atalho e se foi chegando para a casa que se escondia atrás de um juàzeiro enorme. Só podia haver muita gente dentro da casa para dar aquêle volume enorme de canto de morte. E quando êle se chegou na janela e botou a cabeça para olhar o povo rezando, um grito estourou como uma bomba. -É êle, é o lobisomem. Correu gente, mulheres gritaram. -É o mestre José Amaro, gente, estava na porta. -É o mestre Zé Amaro, povo bêsta. Pararam de rezar. Estendida na esteira estava a velha Lucinda amortalhada. Olhavam para êle as mulheres apavoradas. Não pôde ficar por mais tempo por ali. Ohomem que acomodara as mulheres veio falar com o mestre. -Estão com mêdo do senhor. -De mim? -É verdade. Êste povo é bêsta mesmo. E já lá de fora, o homem falou mais: falava um homem que fogo morto 59 -É que está correndo que anda sôlto um lobisomem. Muita gente já viu o bicho. Viram o senhor nestes trajes, e correram com um mêdo danado. Mulher é bicho mofino mesmo. De longe da casa, voltou outra vez a ouvir o canto triste. E sem poder explicar, começou o mestre a pensar no lobisomem. Apalpou o rosto, olhou para as unhas. O que tinha êle para fazer mêdo às mulheres? Viu luz acesa na sua casa. Sinhá estava com a filha, dando fôrça de vida àquela criatura que era mais do que morta. Encontrou a mulher esperando por êle. -Tu está fazendo coisa de doido, Zeca? Com êste tempo frio, sair de casa dêste jeito? Não lhe deu resposta e foi direito para a sua rêde. A sola nova que viera de Itabaiana cheirava com intensidade, enchia a casa inteira. Não pôde dormir. Tudo ouvia, tudo sentia como uma agonia de morte. Por que aquelas mulheres correram dêle? De fato, chegara à janela de repente, de surprêsa, e elas tomaram susto. Lembrava de ter visto há um mês atrás a velha Lucinda e até lhe falara. Viu-a morta, estendida na esteira, na mortalha branca. Não tinha mêdo da morte. Bem que podia ter voltado para o rio e contado a Alípio da estada do Tenente Maurício no Pilar. Ouvia bem o ressonar fraco da filha no quarto de junto. Sinhá não dormira ainda. Sentia que havia gente acordada dentro de casa. Não era êle sòzinho que imaginava na vida. A mulher também estaria àquela hora pensando na doença da filha. A lua entrava-lhe pelas telhas-vãs, enchia o chão de manchas brancas que se moviam. As mulheres correram dêle. Ouviu na estrada o vozerio de muita gente. E devagar abriu a janela. Era uma tropa de polícia: seria a tropa do Tenente Maurício? Encheram a estrada com o barulho das alpercatas, com a conversa em voz alta. Lembrou-se do Capitão Antônio Silvino a duas léguas dali. E teve receio de um encontro com o tenente. Ainda ouvia as vozes no silêncio da noite quando a sua mulher o chamou -Zeca, não posso dormir. Vou fazer um chá de malva, tu queres também? Quis ficar calado, mas respondeu: -Não, não quero nada. 60 José lins do régo Todo o mistério que o abafava se sumira com a voz da mulher, ali do outro lado da parede de taipa. Na cozinha Sinhá mexia nas panelas. Tudo daria para poder se ver livre de sua casa. -Zeca, tu soubeste que Sinhá Lucinda morreu? -Passei por lá e tinha gente fazendo quarto à defunta. -Devia ter ido para lá, mas deu êste negócio em Marta. Calaram-se. Éle não queria ouvir voz de ninguém. Queria ser só neste mundo que não lhe dava alegria. Agora percebia-se bem a voz da cantoria que o vento trazia. Aquêles diabos tinham corrido com mêdo dêle. Por que tinham mêdo dêle? A sua mulher teria também mêdo dêle? Estaria assim tão monstruoso que espantasse o povo? Acendeu a luz do candeeiro e foi procurar um espelho que tinha na mala. Olhou-se bem. Viu os seus olhos inchados, de pálpebras como de peixe, a barba grande. -0 que foi, Zeca? -Nada, tinha aqui o diabo de uma barata roendo um pedaço de sola. Apagou a luz e mergulhou num_ pavor que nunca tivera. Estaria, de fato, em ponto de atemorizar o povo? Não era possível. Éle, o mestre José Amaro, homem de sua casa, de respeito, com fama na bôca da canalha. Os galos já cantavam no poleiro. Passava gente para a feira de S. Miguel. Era a madrugada que chegava para a noite indormida do mestre José Amaro. Abriu a porta, e ficou de pé, por debaixo da pitombeira. Os cargueiros trepados nos seus animais olhavam para o mestre. Muitos davam um bom-dia em voz baixa, como se tivessem mêdo de acordar o povo da casa. Omestre José Amaro não olhava para coisa nenhuma. Havia dentro dêle uma noite soturna. Os porcos fossavam no chiqueiro, e o bode batia as patas no chão. Névoas cobriam as cajàzeiras e começavam a cantar os passarinhos. Aurora por tôda a parte. No céu rubro, nas árvores orvalhadas, no chão úmido. Onde estaria o Capitão Antônio Silvino? Para onde teria ido o Tenente Maurício? -Zeca, vem tomar um cafezinho. Culpada de tudo era Sinhá, sua mulher. jogo morto 61 I 6 A TROPA pegara Pascoal Italiano e fôra com êle a um banho de facão. Otenente tinha sabido que o mascate fazia serviço de espia para o bandido e dera com êle na cadeia do Espírito Santo. Otenente estava disposto a pegar o cangaceiro de qualquer jeito. Onegro Salvador fôra prêso também para interrogatório e contaram que saíra da cadeia com as mãos inchadas de bolos. Omestre José Amaro ia sabendo destas coisas com ódio violento contra a tropa. Enquanto isto, correra a notícia de um encontro de Antônio Silvino no Ingá de Bacamarte com a fôrça da polícia. Aquela notícia aliviara o povo da várzea das batidas do tenente. José Amaro continuava desesperado. Já não era por causa da filha, que desde aquêle dia do ataque melhorara muito. A sua mulher Sinhá estava contente como criança. De tudo se esquecera, para só falar na saúde da filha que milagrosamente parecia outra. Atribuíra à promessa que fizera a S. Severino dos Ramos. Era mais um milagre do padroeiro dos pobres. Mas a cara do marido era mais triste, mais amarelos os seus olhos, mais inchadas as pernas. Que doença seria aquela de Zeca? Devia ser mal do coração. Assim morrera o seu pai, de barriga grande, sem ar, com o corpo que parecia uma saca de lã. Uma tarde, porém, a velha Sinhá estava no rio batendo roupa e lá estava também uma mulher da catinga que ela não conhecia. Era uma cabra ainda nova, de feições muito bonitas. No princípio estiveram caladas mas 'aos poucos a mulher começou a falar à vontade. Ela era do Riachão e filha de Marcolino Viegas. Opai estava prêso por causa duma briga na feira do Sapé. Tinham feito uma desgraça num homem e botaram para cima dêle. -Lá em cima chegou notícia de que está aparecendo lobisomem por aqui. Minha mãe até me disse: "Menina, volta 62 José lins do rêgo cedo, toma cuidado com o escuro". Éste povo tem cada besteira... Também falam da caipora que pegou um sujeito na estrada, um tal de Pepé, caçador de lambu. Tudo mentira dêste povo. A velha Sinhá ia concordando, enquanto batia nas pedras as suas peças de roupa. A cabra mostrava a carne morena das coxas descobertas, os seios duros que rompiam do cabeção de algodãozinho. -E estão dizendo que é um tal de mestre José Amaro que deu para virar bicho... -lsto é mentira, menina-falou a velha Sinhá, num tom de voz angustiada.-lsto é mentira desta canalha da Ribeira. -Lá em cima chegou a notícia, e até dizem também que êste homem tem uma filha que êle faz coisa com ela. -Faz o que, menina? A velha sentiu uma nuvem nos olhos. Parou de bater roupa, sentou-se na pedra, e com a voz mansa, como de uma doente de morte, foi dizendo para a companheira -Menina, tudo isto é mentira. Êste homem é o meu marido. A môça baixou a cabeça, ferida de vergonha. -Me desculpe, minha senhora. E continuaram em silêncio no serviço. A água do rio corria quase que num fio, os juncos cobriam o leito de um verde-escuro. Ovento zunia nos juncos que caíam para um canto como um partido de cana. Ouvia-se a cantoria de um homem mais para o lado do Santa Fé. Era Passarinho, no serviço de uma vazante, no trabalho que para êle era um fim de mundo. A cantoria era triste, como de quarto de defunto. Onegro largava a alma na beira do rio: Quem matou meu passarinho É judeu, não é cristão, Meu passarinho tão manso Que comia em minha mão. A voz do cachaceiro tocara os corações das mulheres. A velha Sinhá batia com fôrça na pedra branca. A môça deifogo morto 63 xava cair os seios do cabeção desabotoado. Não podia falar. José Passarinho gemia na toada Quando eu vim da minha terra Muita gente me chorou E a danada de uma velha Muita praga me rogou. -Tem até sentimento a cantoria dêle-disse a môça. -Coitado de Seu José, que vida êle tem-respondeu-lhe Dona Sinhá. E depois, como querendo corrigir-se -Pode ser até mais feliz que muita gente. O sol já ia quebrando. A môça estendera os seus panos para enxugar. Brilhavam os encarnados, os azuis, os amarelos, pelos juncos, pelas cabreiras, estendidos como uma festa. Havia uma dor tremenda no coração da velha que batia furiosamente os seus panos. Não olhava para a môça que, deitada na areia, escondia o rosto do sol. Era um corpo sadio, uma energia de carnes rijas. José Passarinho cantava porque era feliz, porque o mundo para êle não tinha mágoa para lhe dar. Bebia e cantava. E o seu marido, e a vida, a cara, os arrancos, as esquisitices do seu marido? Por que inventava o povo uma coisa daquela? Até de sua filha, da sua pobre Marta, inventavam uma desgraça daquela. Já tinha acabado de bater os seus panos. Podia estendê-los por ali mesmo como fazia sempre. Mas teve vergonha de ficar junto daquela môça. Era como se fôsse culpada de uma crime, de um ato mau. Arrumou a roupa molhada e fêz a trouxa. A môça levantou-se para ajudá-la. -A senhora me perdoe, eu não sabia. José Passarinho, quando a viu com o reu para ela. -Dona Sinhá, eu levo. -Não precisa, não, Seu José. -Eu levo, não senhora, eu levo. E o negro tomou a trouxa e saiu na frente, com os pés cambados, o corpo banzeiro. No fundo, ela bem que queria pêso na cabeça cor 64 josé U;w do rêgo ter aquêle pêso na cabeça. A roupa molhada era como chumbo. Andaram um pedaço calados, até que Passarinho falou -Sabe, Dona Sinhá, o negro Salvador está de mãos estouradas. Foram dizer ao tenente que êle vendia bicho para o Capitão Antônio Silvino. Quero ver agora é a cara daquele negro farofeiro. Já estavam na porta de casa. Lá estava o mestre José Amaro que nem levantou a cabeça para olhar quem chegara. Parecia entretido num serviço caprichado. -Boa tarde, mestre Zé. Trabalho muito? Olhou para Passarinho que havia botado a trouxa no chão, e sem responder continuou no serviço. -Já soube da desgraça que a tropa anda fazendo por aí, Seu Mestre? Ficou calado. Passarinho conheceu que não estava para muitos amigos e foi lá para dentro a chamado da mulher do seleiro. -Não precisa, Dona Sinhá. -Ora, Seu José, fazendo cerimônia. Era um prato de feijão com batata-doce. Passarinho passou-o nos peitos, e de seu canto ouvia o bater do martelo do mestre. Sem dúvida êle estava nos seus azeites. Passarinho sabia que o povo falava do seleiro. Por tôda a parte corria aquela história de lobisomem, aquela fama de andar êle correndo de noite para beber sangue de gente. Passarinho não tinha cabeça para medir as coisas. Éle via o mestre com aquela cara aborrecida, e tinha mêdo. Sim, mêdo de chegar-se para perto. Dona Sinhá conversava com a filha em voz baixa. Ouvira também falarem mal da môça da casa. A língua do povo não tinha tamanho. Parou um cavaleiro na porta. Era o velho Vitorino que não se apeou. Ia de rota batida para o Oiteiro a chamado do primo Augusto. Estava furioso com o Tenente Maurício. -Passei ontem um telegrama ao chefe de polícia. Não admito violência, isto aqui não é eu-de-mãe-joana. -Deram mesmo no italiano, compadre? -Vi o homem que faz pena, meu compadre. Polícia de bandidos. É por isto que o povo está com o Capitão Antônio Silvino. É, mas êste chefe de polícia vai conhecer a minha fôrça. fogo morto 65 Gastei quatro mil-réis num telegrama danado. Opovo desta terra não é cachorro vadio. Bem, compadre, Seu Augusto está esperando por mim. E eu sei o que é. Esta gente fala, fala do Capitão Vitorino, mas termina indo atrás dêle. OAugusto está fazendo uma obra na casa-grande. Eu, como o compadre sabe, entendo de obras. Garanto que êle quer o meu voto. Oprimo Augusto é homem progressista. Tal qual o pai. Lembrança à comadre. E foi-se. Mas antes de dobrar na estrada voltou-se para o seleiro -Já soube do encontro do Capitão Antônio Silvino com a tropa no Ingá? Morreu muita gente. Eu quero ver é êste Tenente Maurício correr da bala. Sumiu-se e lá para dentro de casa José Passarinho levantava a voz numa cantiga. Oseleiro não escutava o negro. OCapitão Antônio Silvino voltava a tomar conta de seus pensamentos. Admirava a vida errante daquele homem, dando tiroteios, protegendo os pobres, tomando dos ricos. Ëste era o homem que vivia na sua cabeça. Éste era o seu herói. Era já de tarde e sombras pesadas caíam sôbre as coisas. Um boi urrava de muito longe. Era o gado do velho Lucindo que comia na corda. Tôda a tarde, quando o velho descia com as suas reses para o bebedouro, era aquilo mesmo. Ouvia a voz de sua mulher falando baixinho. Não podia mais suportar aquêles cochichos. Tudo parecia que era uma trama contra êle. Teve vontade de gritar. A voz do negro, na cozinha, enchia a tarde de uma tristeza que tocava no coração do mestre José Amaro. Quis gritar para que parassem com aquela lamúria, mas se conteve. Não o irritava, era como se fôsse uma mão amiga pela sua cabeça, numa carícia que nunca sentira. Ovelho seu pai era duro, e a sua mãe quase que não se lembrava dela. 0 negro Passarinho quando não bebia dava para cantar. Era por isto que pegara aquêle apelido. Agora o que cantava era uma história triste Filho que faz isto ao pai Bem merece ser queimado, 66 josé lins do rêgo Por sete carros de lenha E por mim bem atiçados. Filho que faz isto ao pai Bem merece ser degolado, Por sete fôlhas de navalhas E por mim bem afiadas. Era a história de D. Carlos e Dona Branca, a filha do rei. Passarinho sabia de tudo. Vai D. Branca para ser enforcada. Mas o namorado salva a coitada da fúria do pai. Vestido de frade, D. Carlos de Monteval arrebata Dona Branca para os seus palácios Tende mão, minha justiça Minha justiça real; Esta princesa que vêdes Meus palácios vai gozar. Doía no mestre a história do negro. Era êle que estava quilo, era a sua fúria, o seu desespêro que se parecia com a crueldade do rei. Agora estava cantando a mandado de sua mulher. Quis levantar-se para gritar, para obrigar que todos se calassem e não pôde. Os olhos do mestre José Amaro estavam molhados de lágrimas. Dona Branca chorava aos pés do pai. Ofilho que tinha na barriga era de D. Carlos de Monteval. Uma rôla-cascavel arrulhava à bôca da noite como um suspiro. A estrada escura e o negro na sua cozinha machucando a sua alma. Por fim criou coragem -Sinhá, manda êste negro se calar. A mulher já estava tangendo as galinhas para Marta falou bem alto para que êle ouvisse -Seu José, papai não gosta de cantoria. Era para que o ofendesse, era para que doesse na sua carne aquela história de que não gostava de cantoria. E êle gostava. Cantasse aquêle canário o dia inteiro que lhe agradava aos ouvidos. Não gostava era dos cantos da igreja, dos benditos que Marta sabia. A voz de Sinhá chamava a criação para dormir. Uma guiné pulava de lado, corria para a estra fogo morto 67 na o poleiro. cia, arrancando como se quisesse voar, a velha, com um punhado de vassourinhas, batia na chão, e chiava, chamando as galinhas para o poleiro. 0 negro Passarinho apareceu com os olhos vermelhos, para lhe falar: -Mestre Zé, estou com tenção de lhe encomendar um par de aparagata. Osenhor faz? Não lhe deu ouvido. Continuou no seu refúgio, na sua gruta de pedra, com o escuro da noite, com o frio da noite no coração. -Mestre Zé-insistiu o negro. Aí acordou. Era como se tivesse visto pela primeira vez o negro, como uma criatura estranha que tivesse surgido para lhe falar. -0 que é que você quer, Passarinho? -É um par de aparagata. Daquela dos cangaceiros. Não lhe disse nada e levantou-se para botar para dentro da casa os seus petrechos de trabalho. -José Passarinho, onde foi que você aprendeu esta história que estava cantando? -Com um cego de Itambé, mestre Zé. Andei com êste homem feito guia um tempão. Depois me pus homem e êle não me quis mais. -Ah! Já sei, era aquêle cego de nascença que mataram para roubar, no Oratório? Era um homem malcriado cheio de novidades. -Não era mau, mestre Zé. Meu pai me deu a êle, quando eu tinha sete anos. Eu digo ao senhor, foi homem borre que me ensinou muita coisa. A gente aprende muita coisa, mestre, mas só enxada é que dá feijão e farinha. Dei para beber, mestre Zé, para me ver livre duma negra que o senhor conheceu, aquela Luzia do Santa Rosa. Pararam de falar. A velha Sinhá já estava dentro de casa e conversava outra vez com a filha. Passarinho se despediu e ganhou a estrada. Agora um vento frio soprava do sul, vento que agitava as cajàzeiras, que sussurrava nas fôlhas miúdas da pitombeira. Podia ser sinal de chuva. p mestre Amaro ficou com a história de Passarinho. 68 josé lins do régo Nunca pensara que aquêle negro imundo, de cara de cachaceiro, tivesse tanta coisa dentro de si, aquela história, aquêles amôres, aquêle D. Carlos, aquela D. Branca. Tilintaram as campainhas do cabriolé do Coronel Lula. As luzes das lâmpadas do carro se aproximaram. Parou a carruagem na sua porta. Pedro Boleeiro veio para falar. Tinha se partido a correia do varal, logo que saíra de casa. Omestre José Amaro, com o candeeiro na mão, foi para fora. Viu a família do senhor de engenho, e deu um boa-noite respeitoso. -É o mestre José Amaro? falou o Coronel. -Sou eu mesmo, Coronel. -Estamos com pressa para a novena. As mulheres nos assentos não se mexiam. Omestre com o boleeiro fizeram a emenda. Osenhor de engenho tossia no sereno da noite. -Bote o ficou no pescoço, disseram lá de dentro. 0 boleeiro já estava no seu canto e o Coronel Lula deu o seu obrigado ao mestre. 0 cabriolé tilintou outra vez na estrada. A luz branca perdia-se pelos matos. Quando o mestre José Amaro voltou para a casa, a mulher lhe perguntou se a D. Amélia passara no carro, pois corria que andava muito doente. -Zeca, estão falando no casamento de D. Neném com o Dr. Luís Viana. -Não perguntei por isto. -Credo, ninguém pode falar venha feito um bicho. Pouco depois o seleiro saiu de casa. E a mulher ficou com o pensamento na môça do rio. Nunca podia imaginar que o povo estivesse fazendo de seu marido um lobisomem. Era, sem dúvida, por causa daquele gênio azucrinado de Zeca, por causa de sua côr, do amarelo dos seus olhos. Disseram o mesmo, por muito tempo, do pobre Neco Paca que era um homem de tão bom coração. Sòmente porque êle andava de noite, com mêdo do sol, que lhe fazia mal à saúde. Zeca dera agora para fazer aquêles passeios à noite. Era homem de manias. Quando procurava fazer uma coisa, tinha que fazer mesmo. com êste homem que não fogo morto 69 E depois, o que havia de mais na vida dêle para fazer mêdo ao povo? Oque não podia ela suportar era que lhe falassem de sua filha. E do jeito que falavam era mesmo para matar um ente de desgôsto. Podia ser que fôsse cavilação da môça. Pobre Marta, que já lhe ia enchendo a vida de alegria com as melhoras, com a saúde que lhe voltava. Vinha uma língua miserável e inventava uma desgraça, com infâmia. Zeca gostava de sair de noite, de passar horas esquecidas, andando a pé pelos esquisitos, pelos lugares desertos. E o povo inventava a história do lobisomem. Quando era menina ouvia muito falar nestas histórias. Havia gente que tinha visto, que contava coisas dêstes bichos criados pelo demônio. A sua mãe falava de fatos terríveis passados lá para as bandas do Maravalha. Um homem corria de noite atrás de sangue humano para matar uma sêde que era infernal. E como não encontrava pessoa viva, chupava os animais, matava os cavalos, ia deixando tudo virado com a sua passagem. A sua mãe acreditava nêles. Quando latíamos cachorros, nas noites de escuro, ela se benzia, rezava uma ave-maria para que Nossa Senhora a defendesse de se encontrar com o malvado. Isto se dava com os homens que perdiam o sangue, que ficavam assim com a côr de seu marido. Era que o demônio soltava as suas feras no mundo, dava podêres de animal selvagem aos homens que eram seus escravos. Opovo temia os amarelos, os que pegavam doenças como as de Zeca e de Neco Paca. Aquilo era amarelão do fígado que se curava com jurubeba. E por cima de tudo dera o seleiro para se perder pelos campos, para vagabundear pela estrada, pelos caminhos ermos. Era já tarde e o seu marido não voltava. Quando foi quase que de madrugada, ouviu vozes na porta de casa. Era Zeca com outro homem. Quis fingir que estava dormindo, mas o marido veio chamá-la. -Sinhá, o aguardenteiro Alípio está aí. Vai matar duas galinhas e preparar para êle levar para o Capitão Antônio Silvino. A velha Sinhá tomou um susto com a ordem do marido. -E tu viste o homem, Zeca? 70 José lins do rêgo -Não, estão acoitados lá em cima na catinga. E diz Alípio que os homens estão mortos de fome. A velha Sinhá saiu para o poleiro atrás das galinhas. Océu escuro, com estrêlas brilhando, e lá para as bandas da catinga a madrugada começava a abrir-se nas barras que tomavam côr. Fazia frio. A criação fêz rebuliço. Osilêncio do mundo quebrava-se com a gritaria das galinhas da velha Sinhá. 0 mestre José Amaro, de portas trancadas, escutava o amigo Alípio contando o cêrco do Ingá. Ocapitão estava na casa dum amigo quando sentiu que havia tropa por perto. Éle era terrível para êstes pressentimentos. -É reza que êle tem, mestre Zé, é reza, e da forte. Pois bem, os cangaceiros estavam na terreiro da fazenda. Ocapitão chamou os meninos e disse: "Vem macaco aí por perto. Vocês se deitam naqueles lajeados do cercado. Quando gritar, façam fogo de uma vez só. E depois caiam na mataria da catinga. Eu estou no espojeiro da imburana grande". E foi o que se deu. Ocapitão viu a tropa na direção da casagrande e gritou. Foi um disparo só. Morreu macaco como môsca. E o cêrco que o Tenente Maurício tinha preparado foi uma desgraça. Cocada está ferido no braço, mas foi coisa ligeira. E deram uma carreira do Ingá até aqui. -E o capitão, como saiu da casa? -É o que ninguém sabe. Os homens, quando chegaram lá em cima, êle já não estava. Quando a velha chegou com as galinhas torradas já era quase de manhã. A cara de Alípio era de homem que não tinha mêdo. Omestre José Amaro, com as pálpebras ainda mais inchadas pela noite de insônia, parecia um monstro. A inchação dava-lhe aspecto sinistro. A sua mulher temia com o pavor das notícias do Capitão Antônio Silvino. Marta, já de pé, perguntou-lhe o que queria dizer aquilo tudo. -É que o Seu Alípio está com os aguardenteiros na catinga com mêdo do fiscal, e veio aqui comprar comida para os .homens. -Botaste farinha, Sinhá? -Está tudo no saco de Seu Alípio. fogo morto 71 X Ohomem se foi, e na casa do mestre José Amaro ficou o terror na sua mulher, e uma sinistra alegria no coração do seleiro. Ele matava galinha e dava para o Capitão Antônio Silvino que mandava em tôda a cambada de senhores de engenho. Cazuza Trombone, de Maçangana, mudara-se para a cidade com mêdo dêle. Ovelho José Paulino dera um banquete ao Capitão Antônio Silvino. Disseram até que a filha do grande servira a mesa, como se fôsse ama dos cangaceiros. Sinhá torrara as duas frangas para o homem que êle mais admirava neste mundo. Era dia de feira em S. Miguel e pela estrada começava a passar gente para as vendagens. Passou o cego Torquato e parou na porta para pedir esmola. Gostava, sempre que o cego passava pela sua porta, de puxar conversa com êle. Omestre José Amaro naquele dia queria falar. Nunca se vira na sua cara uma satisfação igual. -Então, Seu Torquato, como vai a vida? -Que vida, mestre. Que vida pode ter um pobre cego! Ando por êste mundo contando os dias. Se não fôsse o amor de Deus e a caridade dos homens, já me tinha acabado, Seu Mestre. -Qual, Seu Torquato, o senhor ainda tem a sua família. -Uma mãe entrevada, Seu Mestre, um irmão quase cego como eu. -E o povo de Gurinhém, Seu Torquato? Estão dizendo que a feira de lá está se acabando. -É mêdo da tropa, Seu Mestre, é mêdo da tropa. Opovo arrepunou com o tenente. É um dar sem. conta. Ohomem é brabo mesmo. Acredite o senhor que até o Padre Antônio já sofreu uma desfeita. Opobre do padre dá tudo aos necessitados. Foram dizer ao tenente que o padre andava com conversa com o homem. Ora, o Padre Antônio não é criatura para esconder o que faz. Contou tudo. Estivera com o bando, conversara com o capitão, e foi por aí afora. Otenente deu o mal dentro e disse o diabo para o reverendo. E ouviu o diabo. OPadre Antônio é manso assim, como se vê, mas na hora ninguém faz dêle o que quer. Gritou para o tenente, o tenente gritou para êle. Eu só sei é que êle tomou o trem 72 José lins do rêgo no Pilar, e foi à cidade i lar As fôlhas da Paraíba deram. Eu ouvi no P lar um sujeito lendo uma crítica do jornal. Opadre é duro. Otenente está fazendo o diabo. É por isto que o povo está correndo da feira. Surra de tropa não é brincadeira. -Eu quero ver esta valentia é com o capitão. No Ingá foi aquilo que se viu. -Eu não sei de nada não, Seu Mestre. Sou um pobre cego, vivo do coração dos outros. Uma coisa porém eu digo Este capitão nunca me fêz mal. Uma vez eu vinha, com o meu guia, na estrada nova. Era na bôca da noite. Voltava do Sapé e, quase chegando no Maraú, me senti cercado de gente. Omeu guia me disse baixinho: "É cangaceiro, Seu Torquato". E era mesmo. Me deram dinheiro. Nunca tive tanto dinheiro na mão. OCapitão Antônio Silvino me chamou de parte para saber o que se falava dêle na feira do Sapé. Eu disse tudo. Falei de Cazuza Trombone que estava com muitas praças dentro de casa. E de Simplício Coelho que contava goga na loja, dizendo a Deus e ao mundo que na mesa dêle cangaceiro não se sentava. Ah ! contei. Este Simplício Coelho uma vez eu estava sentado na calçada dêle, tocando a minha viola, e mandou um caixeiro dizer para o pobre cego sair. Bicho malvado. -Foi por isto que o capitão fêz aquela desgraça na loja quando atacou o Sapé? -Eu não sei por que foi. Agora, Seu Mestre, o senhor acha direito tratar um pobre cego como cachorro? Apareceu a velha Sinhá com uma coité de farinha e o guia abriu o saco. -Deus vos pague, Deus vos dê o santo reino da glória. -A família vai boa, Seu Torquato? -Como Deus manda, minha senhora. Bem, tenho que ir. E foi-se. A manhã cobria tudo de sol novo. As trepadeiras do cercado, muito azuis, pareciam desabrochadas naquele instante. A estrada em movimento constante. Omestre José Amaro estava agitado. Ainda não se sentara um instante. Com pouco mais passavam as raparigas do Pilar que iam fazer a vida na feira de S. Miguel. Levavam as chinelas na mão e os cabelos espelhando na banha. jogo morto 73 -Lá se vão aquelas imundas. -Bate na bôca, mulher, bate na bôca. Tu tens uma filha. Marta saíra de pote na cabeça para a beira do rio. -Já reparaste, Zeca, como a menina está melhorando? O seleiro não disse nada. Foi ver o cortiço que parecia em ponto de tirar. -0 bicho deve estar gordo. Há mais de ano que não pego nêle. Não havia dormido um instante e parecia muito descansado de seu. -Zeca, tu não pregaste olhos, esta noite. Por que não vai tirar uma soneca? -Vai cuidar das tuas obrigações. Me deixa, mulher. A velha voltou para dentro da casa. Ocanário cantava como um desesperado. 0 mestre botou a banca na porta., e foi se sentar para o trabalho. Estava como nunca estivera de contente. Os cabras tinham enchido a barriga com galinha do seu terreiro. Ocabriolé do Coronel Lula passou vazio para o Pilar. Pedro Boleeiro parou um minuto para falar. Ia para a estação, trazer um doutor para ver D. Amélia. Estava doente há dias, de dor de cólica. Omestre levantou-se para olhar o carro. -Olhe, Seu Pedro, esta história de o senhor fazer fôrça aí na rédea dá nisto. Ocorreame da brida está se partindo. Éstes cavalos não têm fôrça para as manobras que o senhor faz. -Não é não, mestre, é material ordinário. -Que material ordinário que nada, isto é relaxamento, e do bom. 0 boleeiro riu-se e se foi. Tilintavam as campainhas da carruagem do Coronel Lula de Holanda Chacon na estrada cheia de gente do Pilar. Opovo cortava caminho para deixá-la passas. Omestre pensou na velha doente e amorteceu a sua alegria. D. Amélia, não havia quem não pensasse nela e não visse os tempos do Capitão Tomás, as festas do Santa Fé, os dias 'de mocidade do engenho da várzea. Era pequeno, mas dava para um homem viver, e dar grandeza a sua família. Cinqüenta escravos lavravam as terras do Santa Fé. 74 José lins do rêpo Tinha uma fortuna em negros, o Capitão Tomás. Agora era aquilo que se via, um engenho de duzentos pés, moendo cana, puxado a bêsta. Tôda a alegria do seleiro se pondo como um sol em dia de chuva. Todo êle enroscava-se outra vez, fechava-se em sombras. E a cara dura, os olhos inchados; a tristeza íntima, eram outra vez o mestre José Amaro. Por que D. Amélia pudera transtorná-lo daquele jeito? A filha voltava da beira do rio naquele seu passo de velha. Teve ímpeto de sacudir-lhe aquêle martelo, de quebrar-lhe o corpo em pedaços. Batia sola, não lhe aparecesse ninguém para tratar com êle. Passou o Padre José João, e tirou-lhe o chapéu. Ia para a missa de S. Miguel. Era bom padre, mas quando se metia na política, sem ter fôrça para isto, os chefes faziam dêle o que queriam. E o mascate Pascoal surgiu na estrada, silencioso, sem o batuque do metro. Levantou-se para vê-lo de perto. Queria ver aquêle infeliz que se metera em facão. -Bom dia, Seu Pascoal. Não quer dar uma parada? 0 italiano espantou-se daquela gentileza do seleiro. Nunca lhe fizera semelhante coisa. -Não posso, mestre José. Tenho ainda que parar no Santa Rosa e preciso chegar cedo em S. Miguel. -Então, Seu Pascoal, o que houve com o senhor e o tenente? -Tudo uma miséria, mestre José. Um comerciante de Sapé, para se ver livre de mim, me denunciou ao tenente. -Apanhou muito, Seu Pascoal? 0 italiano quis mudar de conversa e o mestre José Amaro insistindo. -Pegaram também o negro Salvador. -É verdade, mestre. Éles não têm pena. Passavam cargueiros de farinha, os comerciantes do Pilar com as caixas de fazenda e miudezas. E o barbeiro Henrique no quartão ruço. Era homem de muito falar. Parou então para conversar com o mestre, enquanto o italiano se despedia. -Éste bicho gemeu no facão. menino novo. -E o tenente por onde anda, Seu Henrique? Eu soube que chorava como fogo morto 75 -Me disseram que a tropa dêle subiu para as bandas do Ingá: Um sujeito que estava em minha casa me disse que viu a fôrça do Tenente Maurício na estação de Itabaiana. 0 Capitão Antônio Silvino que abra o ôlho. A coisa está apertando. Isto agora não é como no tempo do Major Jesuíno. -Pois Seu Henrique, ainda acredito na cabeça do homem. Ele sabe de buraco que tatu não conhece. -É, mas o tenente jurou pegar o homem. Depois saiu, esquipando, de estrada abaixo. Obarbeiro Henrique pararia no Santa Fé, no Santa Rosa, antes de chegar na sua tenda de S. Miguel. José Amaro não gostava muito dos seus modos. Homem sério não tinha que andar alcovitando a ninguém. Diziam que o Dr. Juca do Santa Rosa servira-se dêle para negócio de mulher. Mas a verdade era que todos o procuravam. A fôrça tomara o trem para o sertão. E o Capitão Antônio Silvino ali em cima, a menos de uma légua. Se Alípio aparecesse, levaria uma boa notícia. Já estava sentado. Odia começava a esquentar quando apareceu o velho Vitorino numa burra escura.. -Muito bom dia, meu compadre. -Bom dia. Montaria nova? -Nada. Isto é do Coronel Anísio do Recreio. Cheguei lá ontem de madrugada, depois duma viagem puxada, e a minha égua não agüentou. E o homem me ofereceu êste animal para acabar a viagem. Fiquei com uma pena danada de deixar a égua por lá. Mas era o jeito. Tinha que tratar com o Dr. Samuel de um assunto muito sério. E êle estava de viagem para Goiana. Cheguei a tempo. Odiabo desta burra me machucou todo. Tem uma pisada de pedra. -É animal de cangalha, compadre? -Não é não. Um cabra do Pilar me disse que esta burra pertenceu a um cigano. A bicha nas mãos do cigano andava de baixo, tinha passos de animal fino. OCoronel Anísio comprou por um dinheirão. E é esta desgraça que está aí. Depois Vitorino mudou de assunto. A coisa da eleição ia pegando fogo. ODr. Samuel havia recebido um telegrama do Coronel Rêgo Barros. Ohomem vinha para a Paraíba com o 14, o batalhão de mais fama do Brasil. ODr. Santa 76 josé lins do régo Cruz do Monteiro já tinha para mais de mil homens no cangaço. -Eu disse ao Dr. Samuel: "Se é para brigar, conte comigo". Isto de eleição para matar boi e fazer festa não é comigo. Gosto de eleição com faca, com tiro, com cheiro de pólvora. Já dei muita surra em cabra safado. Os passarinhos cantavam nas cajàzeiras, os porcos fossavam, o bode berrava alto, enquanto o Capitão Vitorino falava para o compadre que não dava uma palavra. -Olhe, meu compadre José Amaro, no tempo da monarquia eu fui a uma eleição do Itambé, e lá dentro da igreja quebrei uma uma. Era môço neste tempo e meu chefe era o Dr. Joaquim Lins. Lutei muito, mas os liberais correram. Neste tempo, quando havia homem duro, era só me mandar chamar. Agora estou velho, esta história de República é esta leseira que se vê. Eleição aqui no Pilar é de acôrdo. Agora, não. ODr. Samuel está com vontade de virar isto de papo para o ar. Êle me mandou chamar. E eu lhe disse: "Dr. Samuel, eu não quero entrar nesta encrenca. Porque quando Vitorino Carneiro da Cunha se mete numa encrenca vai até os confins". Ohomem me agrada, tem disposição para a luta. -Compadre, me diga uma coisa: êste Dr. Samuel não é filho do Dr. Belarmino de Goiana? -É êle mesmo. É gente de João Alfredo. -E o compadre acredita que êle vá brigar com êste povo da Várzea? É gente da mesma laia. -Por que, meu compadre? Eu não sou primo desta canalha? Eu não sou do sangue desta cambada? Vitorino Carneiro da Cunha teve primo presidente da Província, é branco de ôlho azul, e vota contra José Paulino. Ocompadre não conhece êste Dr. Samuel. Apareceu a velha Sinhá para conversar. Queria saber da comadre. -Vai bem, comadre Sinhá. A velha está furiosa com esta história da eleição. Diz ela que o povo do Santa Rosa está danado comigo. Acho graça nisto. Sou homem livre. Ela ouviu do Juca umas coisas a meu respeito. Me disse a velha que queriam me dar o lugar de subdelegado de S. Miguel fogo morto 77 para que eu mudasse de atitude. Ora, minha comadre, Vitorino Carneiro da Cunha não se vende. Não sou homem mercadoria de feira. OJuca pensa que faz de mim o que fêz do Manuel Ferreira de Serrinha. Um homem do meu calibre, quando pende para um lugar, vai com o corpo todo. Passou o cabriolé tilintando. Ia só com o Coronel Lula, de prêto, que tirou o chapéu. Ovelho Vitorino continuou -Está com a mulher muito doente. Estava lá o Dr. Maciel da Paraíba e disse que era mal de operação. Em mim é que um desgraçado dêste não mete a mão. Vá cortar carne do diabo, e não a minha. -Mas D. Amélia melhorou, compadre. -É, escapou. OLula de Holanda está com mêdo de entrar na dança. Veio falar ao Dr. Samuel em amizade com o José Paulino. Aquilo é mofino que só galinha. Opai foi um homem de cabelo na venta, macho de verdade. Em 48 andou sôlto nas matas de Alagoas, brigando com fôrça do Império. E êle é aquilo que se vê, com luxo de gata parida. Tenho lá mêdo de José Paulino, compadre? Não tive mêdo do velho Joaquim Lins de Itambé, que era homem de chefia de verdade! É o que lhe digo, comadre, a minha velha vive comigo há mais de trinta anos e não sabe o homem que tem. Mulher é assim mesmo. Apareceu na estrada o José Passarinho que já vinha àquela hora de passo incerto. -Viva o Capitão Vitorino!-gritou êle aproximando-se da tenda. -Cala a tua bôca, moleque infeliz. Deixa os homens sérios conversar. -Capitão está brabo? Onegro não quer brigar, capitão. Eu não sou o caixeiro do Quinca Napoleão. Vitorino quis levantar-se para sacudir a tabica rinho. Omestre José Amaro acomodou-o -Não dê ouvido, compadre. -Capitão, me dá um cigarro. -Veja você, compadre José Amaro, que êste negro quer levar a vida bebendo da manhã à noite. em Passa 78 José lins do régo -Não diga uma coisa desta, Seu Capitão. Ainda hoje não engoli um quarto de cachaça. Eu passei ali pela venda de Salu, e êle me disse: "Passarinho, toma esta caninha para lavar a bôca". Só fiz lavar a bôca, e o capitão está aí dizendo que estou bêbado. Capitão, me dá um cigarrinho. -Não lhe dou nenhum, moleque sujo. -Pois capitão, eu não conto o que o sargento do Pilar estava dizendo do senhor. -Dizendo o quê? Não tenho mêdo de sargento. -Pois eu vi êle falando que na primeira ocasião tomaria o punhal que o senhor tem. -De mim? Ainda não nasceu êste. Este punhal que está aqui, moleque ordinário, pode sair, mas é para enfiar na barriga dum cabra safado. -E o capitão fura mesmo? Aí Vitorino levantou-se, não atendeu aos rogos do compadre. Foi caminhando para o lado de Passarinho. Onegro já estava no outro lado da estrada, aos gritos: -Puxa o punhal, Papa-Rabo! Oseleiro levantou a voz: -Suma-se, moleque. A velha Sinhá chegara outra vez à janela: -Seu José, não tire brincadeira com o compadre. -Deixa êste cachorro comigo, comadre; negro foi feito para estrume, eu mato êste cachorro. Aí Passarinho procurou correr e não podia. OCapitão Vitorino estava de punhal desembainhado. A velha Sinhá correu e abraçou-se com êle. -Meu compadre, pelo Salvador do Mundo, não faça uma coisa desta. Vitorino tremia-se todo. Os olhos azuis fuzilavam. Onegro veio banzeiro, não deixava de gritar: -Papa-Rabo. 0 seleiro havia marchado para a estrada e empurrava José Passarinho para fora. -Suma-se. -Não me empurre, mestre Zé. Eu não fiz nada. Ovelho quer se desgraçar comigo. Eu mato êste velho. fogo morto 79 Parara gente na estrada para ver o barulho. Vitorino berrava, com desespêro -Solta o negro, deixa êle que eu lhe tiro a catinga de uma vez. Comadre, negro só mesmo no chicote. Um homem branco como eu não se rebaixa a trocar desafôro com uma desgraça desta. Passarinho, levado pelo mestre, caminhou para as cajàzeiras. Um cargueiro chamou-o. E se foram, às gaitadas. -Compadre, fique para o almôço-convidou Dona Sinhá. -Eu fico. OAugusto do Oiteiro vai ficar danado. Está me esperando lá para o almôço. Nisto apareceu na porta o pintor Laurentino que descia para S. Miguel. Parou e puxou logo conversa. -Estão dizendo que o Dr. Samuel está de briga com o padre. Foi por causa dum filho do juiz que está de namôro com a sobrinha do vigário. -É mentira-falou Vitorino. É mentira. -Não ofenda, Seu Vitorino. -Dobre a língua: Capitão Vitorino. Paguei patente. -Está certo, capitão. Mas eu não sou homem de mentira. Omestre Amaro, que não se mostrava satisfeito com a che gada do pintor, entrou na conversa. -Seu Laurentino, aqui nesta minha casa intrigas. -Mestre Zé, eu estou sòmente contando. -Contando ou não. Oque eu lhe digo é que nesta casa não pegam os mexericos do Pilar. Que se danem todos. Um lugar que tem um ladrão de terra como Quinca Napoleão como chefe, não é terra. -Está ofendendo muito, mestre Zé. Está ofendendo muito. -0 que eu digo aqui digo em tôda a parte. -É um ladrão, pode dizer, compadre, é um ladrão. Laurentino sentiu-se atacado, furiosamente, por tôda parte. -Não vim aqui para estrada e vim conversar senhor, mestre Zé. não se vive de brigar com ninguém. Passei pela com o mestre Zé. Não fiz mal ao $Q josé fins do rêgo .-Não quero saber de prosa de cabra-respondeu Vitorino -Na minha porta não pára. 0 seleiro fixou os olhos amarelos em Laurentino e falou com a voz mansa, de raiva trancada -Seu Laurentino, eu sei que o senhor é homem de bom proceder, de seu ofício, e etc. De tudo isto eu sei. Pois que se fique pra lá. Viva no seu Pilar e deixe o pobre mestre José Amaro no seu canto. -Está certo, mestre Zé. Eu vou saindo. -Já podia ter saído-resmungou Vitorino. -Está certo, Seu Vitorino. -Dobre a língua. -Capitão. -E não me faz favor. -Ah, eu ia até me esquecendo. OSargento Damião estava até à procura do capitão. -De mim? -Do senhor mesmo. Éle disse que queria quebrar a ponta do seu punhal. -Do punhal de Vitorino Carneiro da Cunha? -Parece que é. Vitorino só tem o senhor. -Capitão, já lhe disse. -0 sargento pega o senhor, capitão. Éle quando puxa um foguinho fica terrível. -Não me mete mêdo ; vá dizer a êste mata-cachorro que eu agüento. Sou homem, cabra. Sou homem. Laurentino já estava na estrada e falou em voz alta -Oh, capitão, e esta burra? Cadê a rabo dela, capitão? Quem papou o rabo da burra, capitão? Vitorino ergueu-se, violentamente -Vai perguntar à tua mãe quem papou o rabo dela. Laurentino sorria. A fúria do velho não o molestava. De muito longe escutava-se a voz de Passarinho no canto. A velha Sinhá apareceu para chamar o marido para o almôço. Havia sol no terreiro do mestre José Amaro, brilhando nas fôlhas da pitombeira, inflamando as flôres do cardeiro. Um vem-vem lá de cima era como falasse. Quem viria? Oque êle anunciava? fogo morto 81 -0 diabo dêste pássaro parece gente-falou o mestre. -0 bicho adivinha. Pensava no Capitão Antônio Silvino. A tropa no Ingá e êle no mesmo descanso, comendo galinha. Ohomem tinha cabeça. Depois do almôço, o Capitão Vitorino foi-se, e o mestre voltou outra vez a pensar no mundo. Lá para dentro não se ouvia voz de gente. Sòmente de quando em vez a mulher pigarreava. Era o cachimbo que dava aquela tosse aborrecida. A filha estaria no trabalho de agulha. Era domingo, mas trabalhava o seleiro. Alípio lhe encomendara meia dúzia de alpercatas. Era trabalho para o bando. Deixou tudo de lado para o serviço que fazia com tôda a sua alma. E estava assim absorvido, quando lhe apareceu a mulher para conversar. -Zeca, tu não tem mêdo de estar de conversa com Alípio? -Mêdo? Ora muito bem, o que foi que fiz de mais? Vem em minha casa um homem e me pede para comprar duas galinhas. Vendo as galinhas. E por isto vou apanhar? Ora mulher, vai cuidar dos teus serviços. -Zeca, tu és homem e tu sabe o que está fazendo. Éste tenente está fazendo judiarias dos diabos. -Deixa o tenente, o dia dêle chega. Quando voltou para a cozinha o mestre retornou à vida que o alimentava, aos homens que precisavam dos seus serviços. Agora não estava consertando os arreios de um velho doido, não estava fazendo sela para um camumbembe qualquer. Trabalhava para o grupo de Antônio Silvino. Cortava solas para cabras que já sabiam morrer no rifle, para gente que tinha sangue de macho. Não era um pobre seleiro de beira de estrada, era mais que um oficial de bagaceira de engenho. OCapitão Antônio Silvino saberia de seu nome. Sem dúvida que Alípio lhe diria: "Capitão, o mestre José Amaro trabalha para nós. É homem de confiança". Que fôssem para o inferno os grandes da terra. Para êle só havia uma grandeza no mundo era a -grandeza o homem que erma o governo, o ornem ni, ,2 enfrentava qua ro Esta os, 'ava dor de cabeça ladós"ue urava cercos, que 82 José Lins do rêgo inhá po er par perigos A quicé chiava na sola branda. Faria alpercatas fortes para romper a terra dura das catingas, os espinheiros, as pedras, o barro quente. Queria que Alípio aparecesse para conversar sôbre os homens, para se encher das notícias que eram as grandes coisas que mais lhe tocavam. Se um dia visse o Capitão Antônio Silvino seria um homem feliz. A sua mulher viera falar em mêdo. Não tinha mêdo, não deixaria de fazer o que fazia agora para o bando por preço nenhum. Cazuza Trombone tinha dinheiro, era homem da política e estava fugido, com o engenho abandonado por causa de um recado do Capitão Antônio Silvino. A filha do Coronel José Paulino servira a mesa para os cangaceiros, como se fôsse uma negra, uma criada. Cantava o canário da biqueira, acompanhando a alegria terrível do mestre José Amaro, no seu trabalho de domingo. A mulher gritava lá de dentro para que parasse. Era dia de guarda. Deus queria lá saber de pobres! Éle, José Amaro, não acreditava em Deus, em conversa de santo. Diziam que o Capitão Antônio Silvino não dava em padre, não bulia nas coisas da Igreja porque fôra pedido de sua mãe. Éle não queria saber de nada disto. A mulher lhe falava de castigo. Não havia maior castigo que a filha que tinha. Batia as brochas nas alpercatas com uma fúria de desespêro. A tarde já vinha chegando e não quis ficar na porta para não ver passar o povo que voltava da feira. Deitou-se na sua rêde, fechou a porta da frente. E estêve assim um tempão. Mais tarde ouviu vozes no terreiro. Era Sinhá falando com gente de fora. Chegou-se para ver quem era e não reconheceu à primeira vista. -Boa tarde, mestre Zé. Estou aqui a mando de Alípio que seguiu para Santa Rita. Éle me disse: "Irineu, vai na casa do mestre e pede uma encomenda que êle tem". -Já sei o que é. Pode entrar, Seu Irineu. -Mestre, eu não sou aqui da Ribeira. Tenho passado por aqui com Alípio nos comboios. É o seguinte, o senhor já sabe de tudo. Ogrupo está precisando de algum mantimento de bôca. Lá pra cima não tem nada. Ocapitão mandou êste dinheiro para o senhor comprar uma manta de carne, e uma fogo morto 83 porção de cigarros e farinha. Eu venho buscar na têrça-feira. Era só isto, mestre. -Pode vir na têrça. Quando o homem saiu, o mestre ficou alarmado. Como poderia comprar aquela carne e aquela quantidade de cigarros, sem dar na vista? A noite já vinha chegando e Sinhá o chamou para a janta. Não deu uma palavra. Dentro de casa não pôde ficar. Ouviu a cantoria de José Passarinho que só aquela hora voltava da feira. Não podia se servir daquele negro para coisa nenhuma. Não conhecia ninguém que lhe pudesse ajudar. E mesmo não queria ajuda de ninguém. Otrabalho era dêle. Tinha no bôlso a nota de cem mil-réis, bem nova, estalando. Era dinheiro do Capitão Antônio Silvino. Teria que se mexer. Na têrça-feira o portador estava na sua porta para levar as mercadorias. Foi quando lhe veio na cabeça a idéia. Diria a Salu que os aguardenteiros corridos dos fiscais tinham lhe pedido para comprar aquêle mantimento, pois êles viviam na catinga, fora das estradas reais. E como se tivesse tirado um pêso de chumbo dos ombros o mestre José Amaro saiu para ver a noite, para sentir-se só na noite que era de lua cheia. A estrada branqueada pelo luar cheirava a cajá maduro. As moitas de cabreiras tinham ramas de algodão pelos galhos espinhentos. Havia passado comboio de lá para a estação. A noite dava vida ao coração do mestre. Ali êle se sentia numa intimidade fácil com as coisas. Andou para as bandas do Santa Rosa. Pisou nas terras do velho que odiava. Viu os partidos de cana gemendo na ventania, o mar de cana madura com os pendões floridos. Era tôda a riqueza do velho, era o seu mundo que êle tocava. Quantas vêzes não tivera vontade de sacudir fogo naquela grandeza. Era besteira. Outra vez as terras dariam aquêles mesmos partidos, o massapê encheria a barriga do ricaço. Tinha até raiva de olhar aquelas coisas. O Coronel Lula fazia plantas de camumbembe, não tinha fôrça de furar a terra com ganância, com mão de homem de fôlego. Agora não tinha mais raiva dos partidos do Santa Rosa. Êle trabalhava para um homem que era maior que o Coronel José Paulino, que era dono de todos os partidos, 84 josé lias do rêgo senhor de todos os senhores de engenho. Oque o Capitão Antônio Silvino queria, fazia como era de seu gôsto. Meteu a mão no bôlso e sentiu a nota nova, o papel duro, a riqueza do seu homem. Deixou a estrada porque ouviu que vinha gente falando. Escondeu-se atrás duma cabreira para não ser visto. Era um grupo de homens levando um defunto numa rêde. Devia ter sido alguma morte de briga. Desceu mais para a beira do rio e foi andando, despreocupado. A lua clareava tudo como se fôsse de dia. Agora tinha um motivo para os restos de seus dias. Pouco se importava que a filha fôsse um fracasso, que a mulher não lhe desse coisa alguma. Parou um inst"e vara respirar, sorver o a ' ária ue vií,-,, dac 'rvnres_ das e q.iàzeiras co er as e frutos. Cheirava o á, cheirava a terra sue ele nunca plantara. ora o so _ __ _erra_ lhe era distante. Viu a várzea lavoura. olhava as vazan es, osnunca re coberta parara que- -u3o-a uiló era o homem. aia que o h, a terra aria u o. -ó_ ág depois de velho era que pu era compreender aquela beleza de uma n o-1 é--a - sem ã agressivi a e a uz quente. anhava-lhe de ... carne adentro. Sentia solidão. Oque êle ,queria era viver s'_ Tudo o que o igava a casa, à vi sua casa; e oía, era como uma facada que lhe entrava no corpo. Porque não tivera um filho, porque não fôra como seu pai, capaz de matar, de ser um homem de coragem, de espírito pronto. Omestre Amaro viu uma luz na beira do rio. Seria na certa Margarida, na pescaria. Parou mais tempo por debaixo do marizeiro grande. Por debaixo dêle dormiam os aguardenteiros que fugiam para o sertão. Os galhos enormes, à luz da lua, moviam-se, serenos, com uma majestade de rei. Havia cinza, restos de fogo de pousadas antigas. 0 mestre José Amaro pensou no Capitão Antônio Silvino, mas quem lhe chegava à cabeça, numa insistência que o surpreendeu, foi a imagem do velho Vitorino, o seu compadre, perseguido pelos homens, atormentado pelos moleques. Lembrou-se dêle, e quando procurava fugir daquela imagem do fogo morto 85 compadre infeliz, não sabia como, sentiu que o queria mais que a todos os seus conhecidos. Afinal Vitorino sempre lhe parecera um pobre desgraçado, um traste inútil. E por que aquêle seu pegadio com o velho, por que de repente lhe viera aquêle pensamento? Vira a fúria de sua cólera, a fôrça com que puxava a arma para furar o negro bêbado. Era um homem, era mais homem do que êle, que nunca pudera ser mais que aquêle seleiro da beira da estrada, com uma filha velha, com uma mulher que lhe tinha ódio, com mêdo de fazer o que lhe viesse à cabeça. Parou assim uma meia hora. Do outro lado do rio viu um grupo de homens que conversavam baixo. Escondeu-se mais para dentro da capoeira. De onde estava não poderia nunca ser visto. A negra Margarida atendeu ao chamado de uma pessoa do grupo. Pôde, então, o mestre verificar que era uma tropa. Eram soldados de alguma fôrça que andava atrás do homem. Depois que a negra voltou para dentro do rio, o grupo retornou, subiu para as bandas da estrada de ferro. E aquêle safado do Henrique havia lhe dito que o Tenente Maurício seguira para o sertão. Lá em cima estaria o capitão no descanso sem saber de nada. Omestre José Amaro alarmou-se. Nunca sentira aquilo que estava sentindo. Quis correr, e o seu coração batia como martelo. Era um baticum que lhe tomava o fôlego. Ocapitão a uma légua de distância da tropa do tenente. Se êle subisse para a catinga iria encontrar os homens dormindo. Com a lua como estava, o rastejador iria em cima do bando desprevenido. Não teve fôrça para levantar-se do chão molhado de orvalho em que se deitara. As pernas inchadas eram como se fôssem um molambo. Sentiu uma coisa fria na ponta dos pés, uma dor que lhe quebrava o corpo em dois. Quis gritar e teve mêdo de atrair a fôrça. Curvou-se para agüentar o ímpeto da dor terrível. A cabeça encostada na terra; mordia a terra, mordia a terra que êle nunca amara. Os dentes se enterravam no chão, no barro que dava a cana do Coronel José Paulino. Lá longe, latia, gemia aos uivos um cachorro. Com pouco mais, tudo ficou como de noite profunda. Só sentiu que lhe voltava a luz dos olhos com o calor na cara. Havia gente, por perto, falando. Era de um mundo 86 José lins do rêgo de mil léguas distantes. As vozes foram se chegando, já estavam ali perto dêle, bem junto da terra aonde se estendera como na maior cama do mundo. Ouviu bem nítida a voz da sua mulher. Já estava deitado numa rêde. Já se sentia carregado. Pararam na porta de sua casa. Osol queimava no seu rosto. A garganta ardia-lhe, os pés pareciam de chumbo, a cabeça quebrando-se de dor. Aquêle murmúrio que ouvia o incomodava. Ouvia bem a sua mulher falando. Agora sabia de tudo, estava outra vez senhor de sua vida. -Zeca, tiveste um passamento, na beira do rio. Tudo lhe voltou de súbito, com uma rapidez de relâmpago. Tôda a vida retomava a sua consciência. -E o Tenente Maurício? -0 que tem que ver o tenente? Outra vez teve vontade de abandonar-se, de entregar-se à escuridão que o cobrira da cabeça aos pés. -E o tenente? -Tu ainda estás fora de si. Dorme, Zeca. E deu para êle beber um chá de canela. A mezinha caiu-lhe no estômago como fogo. Fechou os olhos e apalpou a rêde, como se quisesse tornar conhecimento do lugar onde estava. Com pouco mais, o mestre José Amaro abriu os olhos, e chamou pela mulher. -Tem gente em casa, Sinhá? -Não, o povo já se foi. Dorme, Zeca. -Sinhá, quase que morri. Aonde me acharam? -Eu estava como doida em casa porque tu não chegava. Não tinha pegado no sono, quando apareceu aqui o velho Lucindo dizendo que tu estava morto debaixo dum pé de cabreira. Botei-me pra lá, e já havia um povão. Foi o diabo, meu negro, tu estava como um defunto, com a cara estendida na terra como bicho. -Nem sei como foi. Me veio uma dor que parecia uma furada no coração. Estive como morto. José Passarinho, na cozinha, sentava-se no chão como um cachorro. A casa calada, só mesmo o canário da biqueira cantava. Passarinho procurou falar com a velha Sinhá. -0 que é, Seu José? Estou muito ocupada hoje. fogo morto 87 -É, Dona Sinhá, que o Alípio mandou um recado para o mestre e êle assim doente, não sei como vai ser. -Vou falar com Zeca. A velha ficou com mêdo, devia ser negócio com o Capitão Antônio Silvino. Como era que o Seu Alípio ia botar José Passarinho numa história desta? Só coisa de doido. Na rêde, estendido, com os olhos muito abertos, a cara inchada, o amarelo da pele como cêra, estava o mestre, absorto, distante de tudo. Quando Passarinho chegou, lhe falando do recado do Alípio, quis saltar da rêde, e não pôde. Gritou pela mulher: -Sinhá, procura no meu bôlso se está aí uma nota. A velha apareceu com os cem mil-réis estalando de novo. -Guarda. Alípio mandava saber do mestre pela encomenda das alpercatas. Estava precisando da coisa para aquela noite sem falta. Omestre José Amaro deixou o negro sair para falar com a mulher. -Sinhá, tu tem que ir à venda de Salu comprar uma manta de carne-de-ceará, e uma saca de farinha. Diz que é para um comboio de aguardenteiros que está escondido na catinga. E como se tivesse feito um esfôrço terrível para falar, caiu numa espécie de madorna. Lá para fora José Passarinho cantava baixinho õ lê lê vira a moenda õ lê lê moenda virou, Quem não tem uma camisa, Pra que quer um palitô ? Ocaixeiro bebe na venda, Opatrão no Varadô, Eu estava em Itabaiana Quando a boiada passou. õ lê lê vira a moenda õ lê lê moenda virou. Aos ouvidos do mestre tudo aquilo chegava de uma distância de outra terra. Fechou os olhos, e a dor do corpo era 88 josé lins do rêgo uma só. Para onde se mexia era como se se quebrasse um osso, se se partisse um músculo. Teria que servir ao capitão. -Sinhá tu tens que ir à venda de Salu. Leva Passarinho para trazer as coisas. Éle dá duas viagens. Pela estrada tilintou o carro do Coronel sua porta. Escutou a voz do boleeiro. -Oi de casa. -Boa tarde, Seu Pedro. -O mestre não está, Dona Sinhá? -Está de cama, Seu Pedro. -É que o Coronel mandou um recado para êle. -Digo a êle, Seu Pedro. Outra vez as campainhas do cabriolé morna. Passarinho continuava Lula. Parou na soaram na tarde õ lê lê vira a moenda õ lê lê moenda virou. A velha Sinhá chegou ao quarto para ver o marido. Dormia de bôca aberta, com os olhos semicerrados. Foi procurar um lençol para cobri-lo. A filha Marta, naquele dia, voltava a ficar outra vez com a agonia desesperada. E ali, em frente do marido, que ela temia como a um duro senhor, sentiu-se mais forte, mais dona de sua vida. Zeca abriu os olhos, olhou para ela como se quisesse esmagá-la, com uma raiva de demônio. Deu um grito, e correu para a cozinha. Vira na cara do marido a cara do diabo. -D. ADRIANA, a senhora não acredita porque não quer. Encontraram deitado no chão com a bôca cheia de terra. -Nada, Margarida, tudo é invenção do povo. -lnvenção, D. Adriana? Eu que mais duma vez tenho visto o homem, sôlto por aí afora, sem destino. Fazendo o fogo morto 89 quê? Só queria que a senhora me dissesse o que quer o mestre José Amaro lá para as bandas do rio, vagando como alma penada. -Margarida, o meu compadre é homem de muito capricho, de muito gênio. Oque êle faz qualquer um faria. Trabalha o dia inteiro, e quando é de noite vai dar uma caminhada para espichar as pernas. A negra Margarida parara na porta de Vitorino, para dar a notícia do jeito com que o velho Lucindo encontrara o mestre José Amaro. Estava alterada, com a voz de quem tivesse sofrido um choque violento. -E eu que me encontrei com êle, por mais de uma vez. Podia hoje estar morta, D. Adriana. -Não sucedia nada, Sinhá Margarida. Tudo é invenção do povo. Com pouco mais vão ver como está o compadre. A negra baixara a cabeça sem nada mais dizer. E saiu com o jereré ainda molhado, sujo de lôdo. Quando ela desapareceu a velha Adriana quis fugir daquela idéia do seu compadre transformado em bicho danado e não pôde. Há dias que Vitorino se fora para as bandas do Itambé, e não dava noticia. Soubera por um cargueiro de Goiana que estava no engenho Gameleira, de parentes de Pernambuco. Procurou pensar em Vitorino e não conseguiu. Era no seu compadre que pensava. Viu-se na situação da comadre Sinhá, e teve pena dela. Quando o povo pegava um cristão para uma coisa desta, não largava mais. Pobre do seu compadre que não teria mais descanso! Seria tôda a vida, até a morte, o lobisomem, o temor de todo o mundo, o monstro que saía de noite para desgraçar os viventes. Nunca que lhe passasse pela cabeça semelhante coisa. Era mulher sem educação, sem sabedoria dos livros, mas sabia que tudo aquilo era tolice, mêdo bêsta do povo. Precisava arrumar as coisas da casa e ir procurar os seus amigos para saber o que de fato se passara com o compadre. Capaz de estar muito doente. E assim fêz. Quando foi ao cair do sol, botou-se para a casa do mestre José Amaro. Estava uma tarde de muito sol, mas as sombras das cajàzeiras amansavam o calor do dia. Levaria aquêle frango pedrês. Podia ser que a comadre estivesse desprevenida de 90 José lies do régo criação nova para doente. E foi andando, de estrada acima, com o pensamento virado para a história da negra Margarida. Mais para diante viu um grupo na estrada que dava para a casa do velho Lucindo. Eram trabalhadores, com rêdes às costas. Sem dúvida iriam para os serviços da estrada. Ovelho Lucindo conversava com os homens. Ao ver a Sinhá Adriana o velho foi ao seu encontro. -Boa tarde, Sinhá Adriana. Vai de viagem? -Boa tarde, Seu Lucindo. Não viajo não. Vou dar uma conversa com a comadre Sinhá. Soube que o compadre teve um passamento. -É verdade, fui eu mesmo que encontrei o mestre como morto. Que cara, Sinhá Adriana. Éle estava com os dentes trincados, com a bôca tôda melada de terra. Pensei que estivesse acabado. Tanto que nem toquei nêle. Fui chamar a velha, e o povo todo que fui encontrando. Coitado do mestre José Amaro! Opovo fala dêle, conta o diabo. As minhas irmãs não gostam nem de falar no nome do mestre. Não sei não, Sinhá Adriana. Sou homem velho, estou nesta idade e nunca vi uma criatura assim como o mestre. É um gênio terrível, é um falar duro com todo o mundo. -Qual, Seu Lucindo, o compadre é homem de bem. Só tem mesmo aquêle falaço. -É, Sinhá Adriana, o povo quando malda tem coisa. Os homens conversavam alto, por debaixo de pé de juá. Depois um dêles veio falar com o Seu Lucindo. -Meu velho, nós queremos um poiso, uma dormida. Os companheiros aqui estão secos por uma janta. -Meu senhor, não tenho comida para tanta, um pobre velho sem roça, vivo do meu animal, valo. -Nós pagamos. -Não quero pagamento. É que, tirnento para tanta gente? Depois que os homens saíram o lha Adriana -lsto é gente do sertão. Não quero negócio com sertanejo. Quando saem de casa são mesmo que formiga. Mas, como fogo morto 91 gente. Sou do meu ca aonde vou descobrir man velho Lucindo falou à ve- lhe dizia, Sinhá Adriana, o mestre José Amaro está fazendo mêdo ao povo. A negra Margarida tem visto êle sôlto, pela noite, desarvorado como um demente. Oque é que quer um homem, assim, nas caladas da noite? Para falar a verdade, eu digo à senhora, não acredito nesta história de lobisomem. Também diziam isto mesmo do pobre Neco Paca. E eu conheci o finado Neco. Era homem de coração de môça. Só andava de noite porque não podia com a luz do sol. Agora com o mestre José Amaro é outra coisa. Para lhe falar com tôda a franqueza, não tenho o que dizer dêle não. É homem de sua casa, do seu ofício, da sua família. Odiabo é aquêle falar. Então não há homem que preste para o mestre, Sinhá Adriana? A senhora é da amizade dêle, é seu compadre, pode dizer que não falo a verdade. -É do gênio, Seu Lucindo. -Não sei não, Sinhá Adriana. Ouvi dizer que o Coronel Lula de Holanda anda furioso com o mestre Pode ser até intriga. Foi o negro Floripes que conversou com a minha irmã. Disse o negro Floripes que o Coronel vai pedir a casa ao mestre. É pena. Conheci o pai do mestre. Era eu menino quando êle chegou de Goiana para Ribeira. Era homem respeitado. Tinha uma morte nas costas. Não era de falar assim como o filho. Será possível, Sinhá Adriana, que não exista um homem bom para o mestre José Amaro? -Que há, há, Seu Lucindo. Omeu compadre só faz falar. É o que lhe digo. Opovo tem mêdo dêle, sem razão. -Pode ser. A velha Adriana se despediu, mandou lembranças para a família e ganhou á estrada. Ovelho ainda lhe queria falar. -Sinhá Adriana, tenho uma criação para a senhora tratar. Quando é possível? -Na primeira lua, Seu Lucindo. Vinha do Pilar a boiada da feira de Itabaiana. Na frente o guia Cabrinha tocava uma gaita de taboca, numa tristeza de cortar coração. Atrás vinham as reses que desciam para a matança da Paraíba. A boiada encheu a estrada, a gritaria dos tangerinos abafava o tropel que levantava poeira. Deixou que o gado descesse e seguiu a sua viagem. A gaita do negro 92 José lins do rêgo lhe trazia coisas do seu tempo passado, dos dias de menina do sertãof Quando o velho Lucindo falou dos sertanejos que desciam como formigas era como se falasse da sua gente que chegara morrendo de fome no Santa Fé, na sêca terrível que matara tudo, que fizera de seu povo uma porção de pedintes. A gaita triste de Cabrinha era todo o seu sertão e que nunca mais revira, que nunca mais poderia rever. Entristeceu-se com a dolência da música. Na estrada empoeirada cheiravam as cajazeiras, cantavam pelos arvoredos os pássaros de tôdas as nações. Levava o frango pedrês para o resguardo do seu compadre. Já estava bem perto da casa do mestre. Via o pé de pitombeira crescer na vista, e êle não estava na porta como era de seu costume. Quis passar, quis não entrar como se estivesse com mêdo. Mas lá estava a sua comadre no chiqueiro dos porcos. Aproximou-se dela, e não sabia explicar o que havia na sua cara. Era uma tristeza funda, uma mágoa grande. -Comadre, boa tarde. -Boa tarde, comadre Adriana. Passei o dia todo pensando na senhora. E os seus olhos se encheram de lágrimas. A outra chegouse mais perto e num tom de consôlo -É como Deus quer, minha comadre. É como Deus quer. Não adianta a gente dar parte de fraca. Depois foram para o interior da casa. E a velha Adriana. chegou na porta do quarto para falar com o compadre -Boa tarde, meu compadre. 0 mestre José Amaro abriu os olhos, fixou-os demoradamente na Sinhá Adriana, e com a sua voz cansada pediu para que ela se chegasse mais para perto. Tinha os braços como se estivessem esquecidos, dormentes, os olhos mais amarelos ainda. -Não é nada, compadre. Isto foi um vento ruim. Com mais dois dias está o senhor batendo sola. 0 mestre José Amaro sorriu e fechou os olhos, cansado, sem fôrça para levantar a voz. Lá dentro a sua mulher se abriu com a visita. fogo morto 93, -piá duas noites que nào durmo, comadre. A menina deu outra vez para a tristura e a doença de Zeca é uma coisa que hão sei o que é. Avalio que êle deu agora para sair de noitQ, como um maluco, com esta friagem da tarde e, trasanteontem, me chegou o seu Lucindo com a notícia da morte do Zeca. Estava morto numa touceira de cabreira na beira do xìo. Encontrei o homem quase que defunto. E o p que acudiu! E o falaço do Povão Zeca como lobisomem, É povo. Eu sei que estão falando de menina também. uma desgraça. Estão falando da -E falando o que, minha comadre? Que povo infeliz. AI as lágrimas correram dos olhos da velha Sinhá. Quis Se conter e não teve fôrça um soluço estrangulado foi um grit% no silêncio da casa, A comadre não deu uma palavra. Dei -ou que passasse o restante doloroso. -Minha comadre, muito sofre uma mãe com uma filha, Com uma doença de cama_ Mas êste sofrer não é nada compar -do com o meu. Veja, comadre, a pobre Marta com esta agonia, com êste desespera. Parece que a pobre está tirando um castigo de Deus. E agora apareceu essa coisa em Zeca. A '%madre sabe o que o Aovo anda dizendo. Eu fico até com dorkonha de botar a cabeça fora de casa. Outro dia na beira No uma menina Zend do Riachão sem me conhecer foi me dio tudo. f ica Isto passa, comadre; logo chegará o dia em que Marta r--5 boa, e o compadre não terá mais nada. Na porta de trás Jose Passarinho botou a cabeça. Quer alguma coisa, Seu José? Não quero nada não Dona Sinhá. Só queria saber da sauge do mestre. ' ,-Vai melhor, graças --D. Sinhá, levei o s a Deus. aco de farinha e a manta de carne para Alípio. Êle já sabia da doença do mestre. E me disse que vinha aqui amanhã, Omestre não pode falar não? --Entre, Seu José, vá lá dentro. n depois que Passarinho saiu, D. Sinhá continuou um --Eu não tenho com quem me abrir. Vivo nesta casa sem -L criatura que rne rpnsole. 94 José lins do rêgo No quarto, Marta gemia baixo. _É assim o dia todo. Já pensei até em levar para a Sinhá Donata fazer reza. Não acredito na coisa. E para que bulir com esta gente? comadre. Eu também vivo assim, dentro de casa. C um de nós tem seu calvári O meu s Vitparar , e a vida de rt°rino, comoum judeu errante, sem , falando de uns, falando de outros, numa vagabundagem que não pára. Calaram-se um instante. Ouvia-se o sussurro da conversa do mestre com José Passarinho. -Comadre, eu quero lhe contar uma coisa. A voz de Dona Sinhá era trêmula, num tom de rnêdo profundo. -Comadre, estou com mêdo do Zeca. Aí parou, baixou a vista como se tivesse falta grave, e falasse para justificar-se. -Estou com medo dele. A Sinhá Adriana aproximou-se da amiga para fôrça, ânimo para que pudesse falar. -Mêdo de que, comadre? -Eu nem sei o que lhe diga. Tenho uma diz que Zeca não é como os outros homens. -Não diga isto, comadre Sinhá, não diga isto. -Estou falando porque preciso tirar isto de dentro de mim. Eu quero que isto desapareça de uma vez, suma-se da minha mente. A senhora não avalia o meu sofrimento. É esta filha doente, é êste marido. As lágrimas brotaram-lhe outra vez dos olhos- A amiga não encontrou palavra de consôlo. A velha Adriana não tinha coragem de falar. Oque poderia dizer à sua amiga, aquela que era madrinha de seu filho Luís, a pessoa que mais lhe merecia, a boa comadre Sinhá, de gênio tão macio, tão dada com todos? -Comadre, isto é nervoso, é cisma. Mas as palavras não tinhàm fôrça, eram palavras de consôlo. de segrêdo, cometido uma dar-lhe coisa que me fogo morto 95 A mulher do seleiro viu a comadre sumir-se na estrada. Ocanário da biqueira cantava forte, e as rolinhas cobriam o terreiro, pinicando o chão duro. Ela ouvia bem a rêde de Zeca cantando nos armadores. Ficou um pouco sem olhar para coisa alguma. José Passarinho cantava com tôda a sua alma. Queria agradar ao mundo. Vejo uma barca vagando Nas ondas verdes do mar. Ainda era cedo para agasalhar as galinhas. Ovento brando agitava a pitombeira. Viera para aquela casa com a morte do pai do marido. As outras irmãs tinham tomado rumo diferente. Seria de Zeca tudo que o velho Amaro deixara. Não queria pensar no passado. Para que se voltava para o tempo distante, para os dias que se perderam, para a vida que era tôda morta? Lá dentro estavam os seus tormentos. Olhava assim absorta para a estrada, para os altos verdes, e não via coisa alguma. Fôra-se a sua amiga Adriana. Só a ela confiava as mágoas que lhe enchiam o coração. Ouviu, então, o tilintar do cabriolé que ia para o Pilar. A carruagem passou com os cavalos às carreiras. Nem teve tempo para ver os passageiros. Reparou que o boleeiro nem se virara para o lado de sua casa. Sempre que o Coronel Lula passava pela sua porta, tirava o chapéu. Agora a carruagem cortou a estrada como um raio, com uma pressa que não era natural. Saiu para agasalhar as galinhas e apareceu-lhe o caçador Manuel de Úrsula, com a espingarda nas costas e o bornal cheio de arribaçãs. -Estão chegando as bichinhas, Dona Sinhá. Éste ano está escasso, mas quando apertar mais a sêca, vai dar muito. E o mestre, Dona Sinhá, como vai? ube na bodega do Salu que o _Coronel _Lula ia pedir a casa do mes re. Poio negro Floripes que{ apareceu com esta história. -Não sei de nada não, Seu anuel. Zeca não teve conhecimento dêste negócio. Só pode ser invenção de Floripes. Aqui nós estamos há quanto tempo, e nunca apareceu notícia de queixa de Zeca com o senhor de engenho. 9$ José Lins do rêgo -É capaz de ser novidade dêste negro. Éle também anda falando do mestre, botando para cima dêle êste negocio de lobisomem. Aí a velha Sinhá mostrou a cara de mágoa que não podia esconder. Ohomem sentiu que a tinha ofendido. -A senhora não leve a mal. Eu só falo nestas coisas porque estou do lado do mestre. A gente é pobre, mas precisando de dar uma ajuda, dá. Sou morador do Engenho Velho desde os tempos dos meus avós. Piso aquela. terra desde que me entendo de gente. Pois bem, outro dia me apareceu um feitor com cara de poucos amigos para me falar em pagamento de fôro. Eu disse ao homem: "Meu negro, de riqueza eu só tenho êstes meninos. Se quiser levar um, pode levar". Obicho olhou para mim e viu que eu não pagava nada. E se foi. Diga ao mestre que precisando é só me chamar. Vou deixar para a senhora umas bichinhas para o jantar. Quando o homem desapareceu a velha Sinhá compreendeu a passagem do cabriolé. Lembrou-se do recado que viera da casa-grande para o seu marido. OCoronel Lula mandara chamar Zeca para conversar. Não havia dúvida que era o negócio de Floripes. Aquela era a sua casa, aquelas as suas flôres, tudo aquilo ela tinha como coisa de sua existência. Veio-lhe um amor desesperado por tudo. Mirou demoradamente a cêrca que fizera com as baionetas, o chiqueiro dos porcos, as roseiras que plantara. Tudo viera de suas mãos. Poderia perder tudo aquilo? Zeca dormia na rêde, com a bôca aberta. Não quis olhar para o marido naquele estado. Ficou com mêdo de olhar aquela cara deformada. Mas precisava fazer alguma coisa. Seria verdade o que Floripes espalhara? A noite começava a dar sinais de sua vinda. Morcegos cruzavam o céu. Dariam mais tarde em cima dos jenipapos maduros. A filha, no quarto, não dava sinal de vida. Era como se estivesse só no mundo, cercada pelo silêncio do mundo. As galinhas se aquietavam no poleiro, e o bode começou a berrar. Lembrou-se que não tinha deixado água no caco do animal. Foi procurar uma caneca d'água na cozinha. Tudo estava numa escuridão de breu. Acendeu a lamparina fogo morto 99 nne, sem saber como, veio-lhe uma vontade aguda de gritar, de gemer, de chorar alto. A luz clareou a cozinha. Então, apareceu-lhe a cara enorme de Zeca no corredor, a cara como de um bicho. Largou a candeia no chão e correu para fora. -Sinhá, o que tu tens, mulher? Sou eu. Voltou a si, trêmula, com vergonha. -É que eu te vi deitado e pensei que fôsse uma pessoa estranha dentro da casa. -lsto não é visagem para mulher velha. Olha, ouvi a passagem do cabriolé. E me lembrei de que o homem me mandou um recado para falar comigo. Oque diabo quererá comigo o velho? Eu estou maldado em safadeza do negro Floripes. É capaz de ter enchido a cabeça do maluco e o bêsta pensa que me fêz mêdo. Estou doente mas ainda tenho fôrça para arrancar as tripas de cabras ordinários. Falava trincando os dentes como se a mulher fôsse culpada de qualquer coisa. -Te aquieta, Zeca. Passou por aí o Seu Manuel de Úrsula e até deixou umas arribaçãs para nós. -Se fôr coisa daquele negro, eu te juro que faço uma desgraça! Estou perto da morte, mas levo um infeliz comigo. A voz baixou de tom e a lamparina de querosene iluminava os olhos amarelos, a barba suja, os cabelos grandes do mestre José Amaro enfurecido. Sentou-se num caixão. A mulher ofereceu-lhe uma xícara de café. Não podia falar. 0 esfôrço que fizera consumira-lhe as energias. Marta apareceu e foi sentar-se no batente da cozinha. A família reunida num silêncio de morte. Omestre foi se levantando devagar. Com pouco mais a sua rêde rangia nos armadores. José Passarinho apareceu para pedir um prato de pirão. Um enxame de mosquitos rodeava a lamparina que fumaçava. -0 pavio está sêco, Dona Sinhá. Onegro hoje está com fome de sertanejo. -Seu José, eu já vou dar. A môça levantou-se com uma fúria medonha. E gritou -Miseráveis, pensam que me matam, pensam que mijam em cima de mim? 100 José lira do rêgo 0 mestre chegou para ver o que era. Quase não podia falar. -0 que é que tens, menina? -Menina, menina, menina, eu sou menina, menina, menina, onde está a menina? E correu para fora de casa. A velha Sinhá abraçou-se com ela que dava risadas, que gritava cada vez mais. -Seu José, me acuda aqui. Passarinho correu para perto da môça. E o mestre José Amaro, com um pedaço de sola na mão, chegou para perto da filha e começou a sová-la sem piedade. Gritava a velha Sinhá -Pára, homem de Deus, pára pelas Chagas de Nosso Senhor. E êle forte, com os olhos esbugalhados -Deixe, mulher, que eu mato esta ira. Marta, no chão, chorava como uma menina. Omestre Amaro caíra para um canto, ofegante. Passarinho pegara o mestre e o foi levando quase que desmaiado para o quarto. 0 soluçar de Marta descia e subia como um canto de carro de boi. -Homem infeliz-gritou a velha. 0 cabriolé encheu outra vez a noite com as suas campainhas. Tudo parara na casa do mestre José Amaro. Sentado na rêde o seleiro parecia atacado de uma ânsia de morte. O coração batia-lhe como na noite do ataque, tinha a bôca aberta, e o zumbido de cigarra nos ouvidos. Aos poucos, porém, a vista clareou, e êle pôde sentir que reagia contra a crise. Deitou-se, enfiou a cabeça no lençol de madapolão, e sem saber como, sem poder se conter, de seus olhos amarelos começaram a correr lágrimas de dor, de ânsia pelos seus. Depois ouviu bem o que a mulher dizia na cozinha -Pai malvado. Quis levantar-se para falar com Sinhá. Sabia que tudo aquilo que a filha tinha só se curava mesmo com surra, com pancada forte. Era assim que o Manuel Feitosa do Catolé curava uma filha que sofria daqueles repentes de loucura. -Pai malvado. fogo morto 101 Pouco a pouco recobrava a energia. Pela janela que estava aberta via a lua grande, vermelha, como um ôlho gigante que o espiasse. Ovento frio da noite fustigava a pitombeira. Levantou-se com grande esfôrço, e chegou até a porta da rua. José Passarinho se fôra. Estava só com a velha e a filha entre os braços. Quando o viu, pensou que ela viesse se atirar contra êle. -Zeca, tu não tem coração. Teve vontade de falar e não pôde. Outra vez as lágrimas correram de seus olhos. Virou a cara para o corredor para que a velha não o visse naquele estado. Era a doença que o consumia, que lhe devorava a coragem de homem. Na parede, a sua sombra era como de um monstro, as pernas enormes, tremendo com a oscilação da lamparina, com as pernas pesadas, com o corpo doído, o mestre José Amaro caminhou para a mulher. Havia nêle um desejo vago de ternura, um sentimento que nunca estivera na sua vontade. Era fraco, perdera qualquer coisa de seu tempo, uma moleza envolvera-o da cabeça aos pés. A luz da lua já cobria os galhos do jenipapeiro, e latiam os cachorros de muito longe. Outra vez Marta começou a dar risadas medonhas. -Menina-gritou lá de dentro-menina, mija em cima de mim. Pai e mãe se olharam num entendimento de tôda a alma. A filha estava perdida. A velha parecia ferida de morte, lívida, trêmula -Zeca, ela endoidou. Agora, como que desperto de um sono profundo, o mestre voltou-se para a mulher -Vai buscar a sola.. -Para que, meu Deus? Tu mata a tua filha. -Tu não estás vendo que é para o bem dela, mulher?E se foi êle mesmo procurar o pedaço de sola na sala. Marta aos gritos -Menina, menina. 0 mestre apareceu na porta do quarto e a mulher estava de pé, em frente dêle. -Tu não dá mais nela. Eu não deixo. 102 José lins do rêgo 0 mestre olhou-a como se tôdas as suas fôrças tivessem voltado, arrastou a mulher da porta, e caminhou para a cama de Marta. A sola cantava no couro da filha. A velha Sinhá saiu para fora gritando -Não mate a menina, Zeca, não mate a menina. Mas, voltando a si, retornou para casa e foi encontrar o marido, em pé, como sem consciência, e a filha calada. A casa na paz dos mortos. Procurou ver Marta, e não teve coragem. Zeca, de pé, tinha os olhos arregalados fixos num ponto só. A luz da candeia bulia com o vento. E os morcegos chiavam no jenipapeiro. Omarido agora andava para o seu lado, vinha para a porta da cozinha, com a sola na mão. Era um bicho, era o diabo que marchava para cima dela. E outra vez a velha Sinhá correu para o quintal, para a proteção dos arvoredos brancos pela lua. E lá ela viu Zeca olhar para os quatro cantos, e depois voltar para dentro de casa. Os cachorros uivavam para as bandas da casa do velho Lucindo. Estava com mêdo da sua casa. Em poucos minutos viu-se uma infeliz, uma mulher sem coragem, sem fôrça, um trapo. Teve vergonha de seu mêdo. E entrou em casa que era sua, que tanto amara, na recordação da tarde, quando o Seu Manuel lhe falara da história de Floripes. Era uma mulher velha e parecia uma môça sem juizo. Rosnava a filha no sono profundo, Zeca chamou-a. -Sinhá? -Já vou. Tinha mêdo, um pavor como nunca sentira de coisa nenhuma. Fêz o que era possível, e apareceu na porta do quarto. -0 que é que tu queres? Então a velha Sinhá viu o que nunca vira em sua vida Zeca num pranto de menino apanhado. O soluço rouco do marido era um partir de coração. Parada, ficou olhando para aquilo, enternecida. Êle não podia falar. Só tinha os olhos para exprimirem a dor profunda. Por fim, num esfôrço medonho: -Sinhá, ela está doida. Não pôde chegar-se para perto do marido. Aquêle cheiro de sola, aquela inhaca dos princípios do casamento encheu a fogo morto 103 casa inteira. Um nojo terrível tomou conta dela. Era como se estivesse pegada a um defunto fedendo. E começou a engulhar com uma violência que não podia conter. Os soluços do marido, a cara horrorosa, as lágrimas, tudo para ela tinha um cheiro que matava. Fugiu para a cozinha. Cantavam os galos no poleiro como se fôsse de madrugada. O estômago doía-lhe muito forte, os vômitos amargavam-lhe na bôca. De muito longe, talvez de um outro mundo, ela ouvia como se fôsse uma mentira que o vento lhe trouxesse, aquêle bendito que a filha de seu Santo cantava na igreja: Bendita sejais Ó Maria amada! E a boa hora Em que fôstes gerada. MARTA ficara naquele estado. Falava-se da sua doença como de um mistério. O povo não visitava a casa do mestre que só agora pudera levantar-se da moléstia. O cego Torquato ensinara as purgas de batata, e, aos poucos, fôra voltando à normalidade. Naquela manhã êle acordara com vontade de bater sola, de andar um pouca. Océu azul, muito azul, e a verdura da mata, o canto dos passarinhos pareceram ao seleiro coisas novas do mundo. A vida quase que se escapara do seu corpo entorpecido. Desde aquela noite da surra em Marta que não pudera mais levantar-se. Oremédio do cego agira como milagre. Na segunda purga sentira-se capaz de governar os membros perros. A bôca amargava como fel, a língua grossa, e por tôdas as partes do corpo uma dolência de quebranto. Não tinha fôrça nem para olhar as coisas. A vista turva, e um calor de febre com calafrios, com suores, não cedia, de manhã à noite. Depois que começou com as purgas tudo se fôra. E na manhã que êle olhava da rêde, pela janela aberta, o mestre Amaro via a vida, via a terra donde estivera tão longe, tão 104 José lias do régo distante. Quis parar nas coisas do passado e a memória era fraca. Só via, só sentia aquela manhã fresca, com a ventania mexendo nas fôlhas da pitombeira. Ouviu a voz da mulher na cozinha, ouviu a voz de Marta falando sem parar, e tudo estava para lá do horizonte, para uma distância que êle não tinha capacidade de dominar. 0 canário côr de gema de ôvo trinava na biqueira, naquele mesmo lugar onde ficava sempre. E pela voz do pássaro, pelo canto que lhe amaciara os ouvidos na vida passada, a vida presente foi chegando para o mestre. Sabia que não morria mais. Pôs-se de pé. E uma tonteira nublou-lhe a vista. Era como se vacilasse da cabeça aos pés. Mas reagiu, teve coragem para espantar a fraqueza das pernas duras e venceu. Quis andar pelo quarto, chegar até a janela. E o vento lhe trouxe para a bôca, para as narinas, o cheiro dos cajás maduros derramados no chão. Os bogaris cheiravam. Nunca sentira com tanta intensidade aquêle perfume, aquela doçura de perfume que lhe dava vontade de sorver como bebida. A ba ande, os cabelos enormes cobrindo-lhe as orelhas davam as - - feições deformadas do mestre um aspecto de bicho, de monstro. ele não sabia de nada. Olhava para tudo, comia tudo com os olhos famintos. E sem que tivesse reparado, surgiu-lie na porta de casa o seu amigo Alípio. Pareceu-lhe uma aparição, um sonho, uma visagem. -Bom dia, mestre José. -É você, Alípio?-falou com a voz fria, quase morta. -Soube da sua doença pelo negro Passarinho. Mas vejo que já está de pé. O mestre fêz um esfôrço sôbre-humano para falar. -É verdade, estive vai-não-vai. Doenças de todos os diabos ! Foi o cego Torquato quem me ensinou uma purga. E só hoje me pus de pé. -Estive no sertão, mestre José. Fui levar uma aguardente do Coronel Feliciano do Angico, uma mercadoria vinda de Pernambuco de contrabando. Entregamos a bicha em Fagundes. -E o capitão? fogo morto 105 -Mestre, êle anda por longe. A última vez que peguei o bando foi lá em cima, no tabuleiro. Por sinal que o homem ficou satisfeito com o seu serviço. Os meninos gostaram das aparagatas. Falei a êle do tal do Laurentino que anda de pegadio com a fôrça do Tenente Maurício. E o capitão me disse que tinha um cipó-de-boi para amansar nas costas do semvergonha. 0 vento sacudia os cabelos brancos do mestre. A barba longa e o olhar absorto davam-lhe uma semelhança com os santos que corriam o sertão, com os monges da terra. Alípio continuava a falar. -Êste tenente tem um faro de rapôsa. Mas o capitão dá conta dêle. Estão dizendo que o govêrno tem setenta contos para quem pegar o capitão. Marta gritava desesperadamente. E ria-se, ria-se às gargalhadas. -Ê doença, mestre José? 0 seleiro balançou a cabeça, afirmando. -É a pior doença dêste mundo. Eu me lembro dum filho de um tio de meu pai que era assim. Quando chegava a lua o homem gritava como um desenganado. Parecia um cachorro doido. E Alípio, assunto. -Mestre, estou com vontade de me passar para o bando. Esta vida de espia não é para um homem como eu. As vêzes, fico imaginando: "Minha mãe vai chorar muito". Ela sabe que eu tenho vontade. Ela tem mêdo. Mãe quando quer mandar assim num filho não há quem possa. Mas eu vou. Êste negócio de contrabando de cachaça não me agrada. Trabalhar para um senhor de engenho, como o de Angico, não dá consôlo. Eu quero é rifle. Isto sim, que enche o peito da gente. 0 mestre deixou que Alípio falasse. Estava longe, tinha a mente virada para outro mundo. -É, Alípio-foi falando, com a voz trôpega-é bem melhor fazer a coisa de uma vez. Êste Laurentino termina desgraçando a vida da gente. Você vai embora e eu fico aqui. vendo a tristeza do mestre, mudou logo de 106 José lins do rêgo Tenho esta mulher velha e esta filha doente. Êste infeliz que não se mêta para o meu lado. Passou pela estrada o carreiro Miguel do Santa Rosa. Veio conversar, perguntar pela saúde do mestre. -Estou quase bom, Seu Miguel. Pode dizer não vou embora. A voz do seleiro era mais áspera. -É, mestre Zé, tinha corrido de sua morte. Eu estava no engenho quando vieram dizer ao Dr. Juca que o senhor se passara. ODr. Juca até disse: "Êste José Amaro era homem direito". -Agradeço, Seu Miguel, agradeço, mas o Dr. Juca ainda desta vez não me paga o meu caixão. 0 pobre homem abriu os olhos, espantado com o repente do mestre. Parou um instante, olhou para Alípio, e disse -Bem, eu vou-me embora. Só desejo é a-sua saúde, Seu Mestre. E se foi. -Êste cachorro pára na minha porta para sai contando que me viu assim, que me viu assado. Seu Alípi , você é que faz bem. Se faça no rifle. Um grito de Marta estrondou. Ficaram calados. Alípio tinha a cabeça curvada, e a cara do mestre era sinistra, cara de monstro. Só os cabelos brancos, cobrindo os olhos, pareciam de gente. -Vou saindo, mestre, se precisar de mim me mande dizer. Otenente subiu para o Ingá. Na feira de Itabaiana vou ter notícias do capitão. E montou no cavalo com as ancoretas vazias. -Mestre, cuidado com Passarinho. 0 seleiro sentiu-se cansado de tanto falar. Foi outra vez para a rêde, e espichou o corpo. Já era outro homem. Acabara-se aquêle zumbido das ouças. A visita de Alípio fôra-lhe um tônico. No outro dia o mestre José Amaro sentiu-se muito melhor. Tanto melhor que pensou em ir ao Santa Fé, falar com o senhor de engenho. Mais de uma vez lhe bateram na porta com recado do Coronel Lula. Botou a tenda para fora, no que desta fogo morto 107 lugar de sempre, e uma vontade inevitável de trabalhar o tomara inteiramente. Aquela sela do sujeito de Gurinhém estava quase pronta. Pouco faltava para completar o seu serviço. Olhou para ela, no cavalete, e como há muito não lhe acontecia, gostou da obra. Trabalhava com capricho, fazia as suas coisas com todo amor, sem pressa de chegar, com desejo de acabamento fino. Lá estava a sua obra, precisando sòmente de retoques para ficar pronta. Tinha perdido o entusiasmo pelo ofício, mas naquela manhã uma coisa lhe dizia que ainda era o mestre José Amaro dos velhos tempos Oseu pai nunca perdera o gôsto pelo trabalho, o amor pelo ofício. Falava da sela que fizera para o Imperador, da prata dos arreios, dos estribos de metal fino, com aquêle orgulho que êle nunca tivera. Agora olhava para a sela do camumbembe e gostava do trabalho, revia-se na peça bem cuidada que preparara. A manhã era de sol quente, vinha um mormaço de terra sêca que soprava com violência. Fôlhas sêcas voavam nos redemoinhos, na estrada subia poeira em nuvens. Tudo aquilo aquecia o entusiasmo do mestre. Pegou no martelo para amaciar a sola dura com o tempo, pelo abandono de seus dias de doença. O pêso do instrumento era como se fôsse de quilos. Pegou-o com fôrça, e na casa do mestre estrondou o primeiro golpe como um tiro sêco, no silêncio. As mãos perras foram-se aos poucos voltando ao que eram. E o ritmo do trabalho deu outra vez à tenda a sua velha fisionomia. Omestre batia forte, cortava rápido, gemia nos instantes em que mais se concentrava. E a vida era a mesma. Já agora o martelo era mais leve. Uma coisa curiosa: não pensava mais na filha. A doença de Marta libertara-o daqueles pensamentos tristes, de sua irritação contra ela. Desde que a sentiu perdida, era como se a tivesse como morta, deixara de existir para êle como uma criatura. Não mais lhe doíam os gemidos, os choros, as gargalhadas da filha. Omestre queria trabalhar naquela manhã de setembro, com a ventania cortando com um bafo quente. Seu pensamento estava entregue à obra que seria um primor. Era de sua obra, daquilo que êle tirara das tiras de sola, que formava com a quicé, com as suas agulhas, com 108 José lins do rêgo as suas mãos. E assim estêve até a passagem do trem. Ouviu o apito da máquina, o rumor do bicho na linha. E sem que tivesse procurado, a imagem do Capitão Antônio Silvino apareceu na sua cabeça. Lembrava-se de Alípio que ontem estivera lhe dando notícias do homem. Aquêle apito de trem fizera pensar no Tenente Maurício. Éste podia levar a sua gente para onde quisesse, correr de Itabaiana para o Ingá, em duas horas. Podia dispor da ligeireza do trem, enquanto o outro vencia sempre escondido, marchando no escuro. Alípio lhe falara na safadeza de Laurentino. Não podia compreender como um homem pobre fazia aquilo. Ocapitão não perseguia a pobreza, não ofendia às môças solteiras, não matava inocentes. E por que Laurentino se punha do lado do tenente? Era ruindade do cabra. Alípio queria entrar para o bando. Tinha uma mãe que chorava por êle. Dera conselho para que seguisse a sua vontade. Teria feito mal? Afinal de contas êle servia aquela mãe, a família. Fizera mal. Deixasse que o homem tomasse o seu destino, mas que o fizesse com as suas próprias pernas. Alípio era homem que não nascera para viver em cima duma carga, como um pobre almocreve. Era homem para luta, tinha fogo no sangue. Se fôsse para cangaceiro era porque nada podia parar o seu desejo. O capitão precisava de homem que fôsse como êle, duro, sério, capaz de matar, sabendo dos outros cantos do Estado como ninguém. O negro Passarinho na vazante cantava. Aquêle negro parecia outra criatura. Há mais de um mês que não bebia, e dera para trabalhar. Era o espanto de todo o mundo. Oque teria acontecido com Passarinho? Ali vinha êle perguntar pela saúde, comer o seu prato de feijão, e falar do Capitão Antônio Silvino. Saberia êle que aquêle saco de farinha, que aquela manta de carne, que aquêles cartuchos de cigarros seriam para o bando? Havia lhe dito que era para o comboio de aguardenteiros de Alípio. Omestre alarmou-se com o pensar naquilo. Onegro beberia uma cachaça e daria com a língua nos dentes. Por isto Alípio lhe chamara a atenção para êle. Vivia Passarinho cantando o dia inteiro. Ocego Torquato há muito que não lhe aparecia. Desde o domingo em que lhe ensinara o remédio, que desaparecera. Aquêle fogo morto 109 cego sabia da coisa, porque sem que lhe tivesse falado em nada, tocara no Capitão Antônio Silvino, dando a entender que estava dono dos segredos de Alípio. E passando de um pensamento para outro, o mestre lembrou-se dos recados do Coronel Lula. No outro dia se botaria para a casa-grande para saber o que pretendia o velho. Mas o que quereria dêle aquêle maluco? Lembrou-se de Floripes, lembrou-se das ameaças do espolêta do senhor do engenho e comecou a compor uma situação perigosa entre êle e o coronel. Não era homem para agüentar gritos de ninguém. Sinhá batia a carne-deceará no pilão. E as palavras da filha chegavam como chuva de janeiro, num rompante danado, e passavam de repente. Não lhe doíam mais nos ouvidos os gritos de Marta. Doia mais a palavra mansa de Sinhá, aquêle falar de sêda que parecia cortá-lo como a sua quicé afiada. A velha fugia dêle, não o procurava mais para lhe falar, para trocar idéias sôbre Marta. Andava com o propósito de mandar a filha para a Tamarineira, no Recife. Ouviu a conversa com a comadre Adriana. Sinhá tinha mêdo do hospital dos doidos, tinha dó de mandar a filha para sofrer no meio dos outros. Todos achavam que era o único jeito, e a velha só pensava nisto. Quando falava com êle era como se tratasse com um inimigo. Nunca mais o olhara de frente, nunca mais ouvira de sua bôca aquêle "Zeca !" Ela era a culpada de tudo. E quando pensava nestas coisas surgiu na estrada o seu compadre Vitorino. Vinha na égua magra, com a cabeça ao tempo, tôda raspada. Saltou para uma conversa e estava vestido como um doutor, de fraque cinzento, com uma fita verde e amarela na lapela. Omestre José Amaro olhou espantado para a vestimenta esquisita. -Estou chegando, compadre, do Itambé. ODr. Eduardo tinha um réu para defender e me mandou chamar no Gameleira para ajudá-lo. Lourenço, o meu primo desembargador, me disse: "Olhe, Vitorino, você para ir à barra do tribunal do júri precisa dêsse fraque". E me deu êste. É roupa feita do Mascarenhas, de Recife. Botei o bicho. Então o primo Raul me chamou para um canto para dizer que eu precisava cortar os cabelos. Odesgraçado do barbeiro da Lapa tos110 José Lins do rêgo quiou-me a cabeleira, o jeito que tive foi de raspar tudo. Raul passou-me a navalha na cabeça. Me disseram que era moda no Recife para advogado. Quando cheguei no Itambé o júri já tinha se acabado. ODr. Eduardo ficou muito triste, mas me deu duas causas para defender no Pilar. Êle mesmo me disse: "Vitorino, você fala melhor que Manuel Ferreira". Eu disse a êle: "Não é vantagem. OManuel Ferreira é mais burro que o Dr. Pedro de Miriri". Pois é isto, meu compadre, estou com estas vestes de doutor. Querendo os meus serviços é só mandar me chamar. ODr. Samuel me prometeu umas causas. Oque eu posso lhe dizer é : papel de Manuel Ferreira, eu não faço. -Está muito bem, compadre. A égua está magra. -Não quer comer. Lá no Gameleira estêve sôlta no pasto, um tempão. OLourenço falou-me em trocá-la por um alazão. Não quis não. A gente pega estima por um bicho dêste como a filho. E por falar em filho, a sua menina endoideceu mesmo, compadre? O-mestre franziu a testa, mas falou -É, compadre, está por aí desorientada. -Conheço um remédio para isto que é de fato. É raiz de mulungu. Vi um filho do Chico Targino, furioso, que andava sacudindo pedras, ficar bom. Anda hoje na feira fazendo barba dos outros. -É, acredito, compadre Vitorino. -E por falar em doido, eu soube que o Lula de Holanda anda capaz de correr. Me contou o Padre José João que o tal Floripes meteu-se até a vestir paramento num têrço do Lula. Nunca vi cabra mais atrevido do que êste. -Compadre, esta fita aí, o que quer dizer? -Não sabe? É a divisa do Coronel Rêgo Barros. Verde e amarelo, meu compadre. Foi assim com Dantas Barreto e aqui vai ser assim. A gritaria de Marta interrompeu a conversa. Pararam um pouco. -Está precisando de mulungu. Garanto que parava com tudo isto. Compadre, soube da sua doença em viagem. Um aguardenteiro, um tal de Alípio, me contou em Itambé. Mas fogo morto 111 no Maravalha, uma das meninas estava dizendo que o povo andava falando do meu compadre -De mim? . -Sim, do meu compadre mesmo. -Falando o que, meu compadre? -Besteira do povo. Eu disse a Cíntia : "Só admiro que uma môça como você, que estêve na escola, me venha falar uma coisa desta". -Mas falando de que, meu compadre? -Me disse ela: "Então, Seu Vitorino, é verdade que o velho José Amaro está virando lobisomem?" 0 mestre fechou a cara, torceu a bôca com uma fúria terrível. -Esta vaca devia cuidar do pai, que é um pai-de-chiqueiro. -Não precisa se zangar, meu compadre, faça como eu. Os cabras morrem de inveja, mas -Vitorino Carneiro da Cunha não a confiãngá m Oseleiro calou-se, o bode chegou-se para perto de Vitorino e começou a lamber-lhe as mãos. As abas do fraque caíram no chão, a fita da lapela mexia com o vento. A cara grande de Vitorino, com a cabeça raspada, parecia de cômico envelhecido, de palhaço cansado. Oseleiro parara de trabalhar, e a filha soltou uma gargalhada estridente. Batia o pilão na cozinha. Vitorino olhou fundo para o compadre e continuou -Lá no Itambé estão falando muito no General Dantas Barreto. É homem de fôrça e governador de verdade. Com êle não forma esta história de senhor de engenho. Brincou com êle, o pau come. E isto é que é direito. Com o Coronel Rêgo Barros, a Paraíba endireita. Um Quinca Napoleão, passador de dinheiro falso, vai para a cadeia. Cabra de Engenho Novo não caga prosa, não canta de galo, com as costas quentes. A voz de Passarinho chegava até à conversa animada de Vitorino. -Negro sujo. Com pouco vai aparecer por aqui com lorotas. Eu já disse: Com Vitorino Carneiro da Cunha não brincam mais. Passo a tabica. 112 José lins dorêgo 0 mestre José Amaro o ouvia calado, como se estivesse distante. Vitorino suava debaixo da casimira espêssa. -Sou homem de opinião, meu compadre. Lá no Santa Rosa, o Juca me falou: "Primo Vitorino, por que você forma na oposição?" "Por quê? Ora, Seu Juca, o senhor alisou os bancos da Academia e tem pergunta de Manuel Ferreira. Vou às umas com o Coronel para acabar com os governos podres". Obicho riu-se. Eu queria era que José Paulino me falasse. Aí eu tinha para êle uma resposta das boas. Oirmão Lourenço caiu em Itambé, e está manso que nem um cordeiro. De que lhe serve ser desembargador? Não tem mais fôrça para fazer um inspetor de quarteirão. 0 Dantas é governador macho, meu compadre, Eu só quero ver é aqui, quando o Coronel começar a cortar as asas dos grandes. E êle tem que tomar conta, nem que corra sangue. A voz de Vitorino parecia que tinha a contestá-la um adversário fogoso. -Voto no Coronel para dar um ensino nesta cambada. Quero Quinca Napoleão na cadeia e José Paulino pagando impôsto. Ouvia-se o cantar de carros de boi, chorando, de muito longe. Oseleiro voltou ao trabalho enquanto o compadre falava. Ocalor forte era como se não existisse para Vitorino. Falava com ênfase, com uma energia de raiva. -Podem fazer tudo. Perseguição política não do meu caminho. E como o compadre não abrisse a bôca para uma palavra, êle insistiu sôbre o assunto que irritara o mestre -Fazem o diabo para me dobrar. Olhe, meu compadre, o que estão fazenda com o senhor eu sei muito bem o que é. Ocompadre tem o seu voto livre, é homem de sua casa, não vive em bagaceira de ninguém. E inventam esta história de lobisomem. -Compadre Vitorino, não vamos tratar disto. -Está com mêdo, compadre José Amaro? -Não é mêdo, não tenho mêdo. Oque eu não quero é ouvir mais esta história. me arreda fogo morto 113 Vitorino calou-se um instante. A égua batia com as patas no chão duro. Lá para dentro da casa a velha Sinhá falava alto. -A comadre, hoje, está nos azeites. M er é isto_mesmo. Deixëi` á minhá_ em casa numá pe t á dos diabos. - 0 mestre José Amaro era como se não ouvisse nada. Ocompadre sentado no tamborete não conseguia nada dêle. Tinha a cara fechada, e olhava para a sola que trabalhava, fugindo de fixar Vitorino. Levaram assim uns dois minutos. Mas Vitorino não se dava por vencido -Compadre, eu só lhe contei porque sou amigo. Mas já que ofendi, não está aqui quem falou. -Não estou ofendido, compadre Vitorino. Eu sei que tudo isto é invenção do cachorro do Laurentino. Vitorino havia vencido. Oseleiro desabafava: -Mas êstes cabras estão muito emanados. Um homem como êu não mo rP d . oa -pta , ão tenho náda na vilã, éstóu com p _ sepultura, mim cima d_e mestré ose maro náo pisam nãoL Tôda a cara gorda de Vitorino resplandecia. -Pode dizer, meu compadre José Amaro, pode dizer. É o que faço. Ocabrá a 1P RP balancar vara o meu lado leva no toitiço. E voú_cóm -L - á -ó descer -ádó na primeira ocasiao. OT mestre como que se sentiu num passo ex -Tr ' -ãlsó lou-se outra vez. Os carros do Santa Rosa chiavam na sua porta, os dez carros do Coronel José Paulino, carregados de açúcar, levando a riqueza do homem para a estação. O carreiro Miguel tirou o chapéu de palha para a saudação de respeito. Vinha um moleque trepado nas sacas. -Papa-Rabo !-gritou lá de cima. Vitorino levantou-se de supetão, e as abas do fraque voaram na carreira. Ia de tabica para o moleque. O carreiro Miguel já havia gritado para o menino. Ovelho chegou-se para perto do homem e lhe disse, num tom agressivo -Ponha têrmo a isto, senão eu quebro a cabeça dêste safado. O carreiro, com um grande sorriso bom na bôca, acomodou o Capitão Vitorino. 114 José lies do rêgo -Seu Vitorino... -Capitão Vitorino, e não é favor. -Capitão, o senhor me desculpe. Quando chegar no engenho vou dar parte do moleque ao Coronel. -Que parte, que coisa nenhuma. Isto é coisa de Juca. Isto é safadeza daquele atrevido. Todo dia manda êstes moleques para me insultar. Os outros carreiros caíram na risada. -O primeiro cachorro que aparecer com gaiatice eu quebro os chifres. A tabica vibrava na mão de Vitorino como um florete. O carreiro se despediu, e os carros começaram a cantar outra vez. A poeira enchia a estrada e corria suor de sua cara gorda. Ogemer dos carros cobria-lhe a voz angustiada -Miseráveis. Mato um desgraçado dêstes. 0 seleiro viu o compadre ofegante e teve pena. Vivia com raiva daquele falar impertinente do amigo, mas, de súbito, sentiu-se na ira do outro, na sua mágoa. -É isso mesmo, compadre, um homem de respeito não pode viver nesta terra. Calaram-se os dois, e apareceu, vindo da direção do Pilar, o cego Torquato. Trazia um guia novo, um menino amarelo, de cabelo longo, e de olhar fundo de fome. -Muito bons dias para todos os devotos. Quem é que está com o mestre José Amaro? -Sou eu, Torquato. -É o Capitão Vitorino Carneiro da Cunha. Que a vida lhe seja longa, meu capitão. Há muito tempo que não tinha a honra de conversar com o meu branco. Todo aquêle falar de respeito curava Vitorino do aborrecimento de há pouco. -Está chegando de onde, Seu Torquato? -Venho de Itabaiana, capitão. Estive lá dois dias sem poder voltar, por causa da doença no meu guia Antônio. Deixei o bichinho com bexiga, na casa de caridade. -Está dando bexiga em Itabaiana? -Capitão, eu não sei. Omenino caiu em Maracaípe, com febre e dores no corpo. No outro dia estava com o corpo que fogo morto 115 era uma bôlha só. Correram dêle com mêdo. E fui eu assim, cego, que tive de ir tateando até encontrar uma alma de Deus que me levou para a casa de caridade. -Na Gravató está dando bexiga? -Capitão, eu não sei. E o mestre Zé, como vai a saúde? -Melhor, Seu Torquato, as purgas de batata me levantaram da rêde. -Mestre Zé, eu queria um particular. Oseleiro levantou-se e saiu com o cego. -Eu me retiro-falou Vitorino, com o ar ofendido. -Não é preciso, capitão, é só para dar duas palavras ao mestre. Osenhor me desculpe. E saíram para um lado da casa. Oguia olhava espantado para os trajes do capitão. Tinha os olhos compridos, a bôca murcha como de velho. Vitorino sentiu-se mal com aquela curiosidade insistente -Não sou bicho não, menino. 0 pobre assustou-se com as palavras. Quis responder e não pôde. Ocapitão falava: -Não vou com esta história de cochichos.. Vou-me embora. E levantou-se para o lado da pitombeira onde estava amarrada a égua. Omenino olhava para o fraque cinzento, e todo o seu mêdo se transformou num ataque de riso. Vitorino voltou-se para êle, furioso. -Por que está rinchando, seu .merda?, Vieram chegando séleiro e o cego. -Compadre, já se vai? -Sou demais, meu compadre José Amaro, sou demais aqui nesta casa. Vitorino Carneiro da Cunha não é homem para receber uma desfeita e ficar calado. -Que desfeita, meu compadre? -Ainda acha pouco? -Capitão, não machuque assim a um pobre cego. Quem sou eu para desfeitar o Capitão Vitorino Carneiro da Cunha? Vitorino estava cedendo, mas quando olhou para o guia, o menino caiu na risada outra vez. Veio-lhe, então, uma fúria de relâmpago 116 José lies do rêgo -Êste cachorro está aí a mangar de mim. -Quem, capitão? -Êste amarelo. -Severino, o que é que tu estás fazendo? E o cego botou-se para o guia, com os braços no ar, procurando-o para castigá-lo. Omestre José Amaro metera-se no meio para acalmar. -Não é nada, Seu Torquato, o menino não está acostumado com o compadre. -Severino-gritou o cego-êste é o Capitão Vitorino Carneiro da Cunha, homem branco, homem de tratamento. Pede perdão a êle, Severino. -Não é preciso, Seu Torquato. Agora uma coisa eu digo eu não sou bicho, o meu compadre José Amaro está muito enganado. Se acostumar comigo, por quê? -Compadre está levando tudo para o mal. Vamos se sentar, compadre. -Não posso, os fazer. E montou na égua magra. De cima do animal, que saltou com o pêso, falou para os outros: -Não sou demais em parte nenhuma. Tinha um sorriso amargo na bôca. Oenorme fraque cobria a anca descarnada do animal. A fita verde-amarela voava ao vento. E picando a égua com as esporas deixou a casa do mestre, gesticulando com violência, e com uma tabicada forte no ar sumiu na curva. Omestre José Amaro estêve calado um instante, mas o cego Torquato começou outra vez a falar: -0 Capitão Vitorino se zangou sem razão, mestre Zé. Gosto daquele velho. É homem de bom coração, mas eu não podia falar na frente dêle. OCapitão Antônio Silvino me mandou tratar de um negócio importante e eu tinha que fazer como fiz. Agora êste amarelo é que me paga. Severino, tu és guia de homem sério. Esta tu me paga. 0 menino tremia. -Eu não fiz nada, Seu Torquato. Ohomem é que estava zangado. senhores têm segrêdo e eu tenho o que fogo morto 117 I -Tu precisa de um ensino. -Nada, Seu Torquato. -Precisa, mestre. Gente que trabalhar comigo tem que respeitar os outros. Uma coisa eu lhe digo, Seu Mestre, o capitão anda apertado com o Tenente Maurício. Eu passo aqui na segunda-feira. Eu quero saber de tudo direito para contar a um Tiago que vende queijo na feira. Quando o cego se foi, começou o mestre a pensar no recado do capitão. Era para êle uma honra que nunca tivera, aquela de saber-se da confiança do homem que realmente admirava. Sem dúvida que Alípio falara de seu nome, dos pequenos trabalhos que fizera. Muito podia fazer. Os gritos da filha não o arredavam de seu pensamento. OO çápitão queria que ele ajudasse os espias para o cerco que pretendia botar no tenente. que pu`udësse;-com a sua ajuda, ele teria. Odiao era aquêle Laurentino. Teria que ter todo o cuidado com o pintor. Estava, assim, com a cabeça entregue aos seus planos, que nem ouvia a gritaria de Marta. Batia forte na sola. Ocompadre Vitorino saíra zangado. Pobre homem, que não sabia avaliar as coisas. Deus o livrasse de ver o velho metido nos seus segredos. A manhã se fôra. Depois do almôço lembrou-se do Santa Fé. E antes do sol esfriar saiu para conversar com o Coronel. Já tinha sido chamado mais de duas vêzes e a doença não o deixara ir. Ovelho deveria estar furioso com a demora. Pela estrada, as sombras das cajàzeiras davam-lhe um agasalho de copiá. Encontrou na entrada do corredor três meninos nus. Quando o viram, fugiram para dentro do mato, aos gritos. Mais para longe o cachorro do velho Lucindo correu em cima dêle ladrando. Pegou de uma pedra para espantá-lo. Botou a cabeça na janela uma das moças, e logo que deparou com os olhos na sua pessoa, fugiu para dentro de casa. Já ia longe e o cachorro latia ainda. Parou um pouco para descansar. 0 diabo do seu coração batia forte, com a caminhada que fizera. Estava um caco. Dava dois passos e ficava ofegante como uma gata velha. Ficou assim parado um instante.. Ouviu vozes que se aproximavam. E na curva apareceram uns meninos com uma mulher. Logo 118 José lins do rêgo que o avistaram, ouviu bem um grito de espanto: "É êle !" E todos correram para cima do barranco. A mulher ficou apalermada, como uma bêsta olhando para êle. Nem deu boatarde e seguiu viagem com o espírito prevenido. Que queria dizer tudo aquilo? Foi quando se lembrou da conversa do compadre. Lobisomem. Estremeceu com o pensamento. Era como se lhe gritassem ao ouvido: Assassino! Lobisomem. Estavam com mêdo dêle. Os cardeiros da beira da estrada tinham enormes frutos encarnados que os pássaros furavam com ganância. Lobisomem. Pura invenção de Laurentino. Todos agora o tomariam por um bicho, inventariam histórias com o seu nome. Teve vontade de voltar para casa. Teve mêdo de encontrar-se com outra pessoa que corresse dêle, que lhe batesse janela na cara. Sabia que a sua mulher fugira, correra dêle, naquela noite. E agora eram os meninos. Brincavam com Vitorino, buliam com o velho, eram cruéis com o pobre. Mas dêle fugiam. Éle fazia os meninos correrem com pavor. Oseleiro apalpou o rosto intumescido, sentiu nas mãos grossas a carne inchada do rosto. Olhou as mãos, as unhas sujas. Que diabo andava por dentro dêle para provocar pavor, encher o povo de mêdo? Ligou o ataque daquela noite àquelas invenções. Tudo fôra safadeza de Laurentino. Um rumor de cavalo esquipando deu-lhe vontade de se esconder atrás duma moita. Não teve tempo. Era o Coronel José Paulino no cavalo ruço. Tirou-lhe o chapéu-do-chile e nem teve tempo de corresponder ao boa-tarde do grande. Com pouco avistou o bueiro do Santa Fé. Estava desolado, sem mesmo saber o que pudesse dizer ao Coronel Lula. Na porta da casagrande viu o senhor de engenho, de roupa de casimira, todo vestido como se estivesse para sair. Estava cansado, e por isto parou um pouco no paredão do engenho para ter mais ânimo de se chegar para o velho. E sem que fôsse visto, reparou na barba branca, no todo espigado, no olhar vago do Coronel Lula de Holanda. Osol batia mesmo em cima dos números escritos no frontão: 1850. Na sua cabeça só mesmoaquela história de lobisomem parava. Lobisomem. OCoronel virou-se para o lado do engenho e o seleiro criou coragem e chegou-se para a porta da casa-grande. fogo morto 119 -Muito boa tarde, Coronel Lula. 0 velho baixou os olhos vidrados para cima dêle, procurando reconhecê-lo. -Hein, é o Sr. José Amaro, hein? -Sim, sinhô, Coronel, sou eu mesmo. Sem saber o que fazer ficou o mestre, um instante, parado, com o velho a olhar para êle fixamente. Depois, a voz do homem explodiu como uma fúria: -Hein? Não disse que não vinha aqui, Amaro? -Não disse tal, Coronel. -ó Floripes, ó Floripes-gritou o velho. A doida D. Olívia botou a cabeça na porta e voltou imediatamente. Omestre sentiu o sangue ferver-lhe nas veias. Estava estarrecido, com uma vontade desesperada de falar. -ó Floripes ! -0 Coronel está mal informado. Eu não disse a ninguém que não vinha aqui. Apareceu Floripes, e quando viu o mestre recuou. Os olhos amarelos do seleiro gravaram-se nêle, como duas verrumas. -Não foi, Floripes, o Sr. José Amaro não lhe disse, hein, que não vinha ao meu chamado? 0 negro não falou. -Não lhe disse, hein? -Disse, meu padrinho! -E mentira dêsse negro' safado. Floripes correu para dentro de casa gritando: -Ele me mata, meu padrinho. 0 velho Lula olhou para o mestre José Amaro. A cara gorda, enorme, do seleiro estava ali a dois passos dêle. -Quem é que manda neste engenho, hein, mestre José Amaro? De quem é esta terra, hein, mestre José Amaro? -0 senhor sabe melhor do que eu, Coronel. A voz do mestre saía-lhe da bôca dura como pedra. Apareceu D. Amélia, com a sua carinha redonda, com o ar de espanto. -0 que é isto; Lula? E quando viu o mestre José Amaro desviou a vista. hein, Seu José 120 josé lies do rêgo -Lula, toma cuidado. -Hein, mestre José Amaro, eu mandei chamá-lo para saber de coisas que o senhor anda dizendo, hein? -Coronel, eu não sei de nada. Vivo na minha casa, do meu trabalho. -Quem manda nesta terra, hein, mestre Amaro? -Quem manda é o senhor do engenho. -Mando eu, hein, mestre José Amaro? -Lula, fala mais baixo. 0 sol iluminava as barbas brancas do velho. Ele tinha naquele momento um tamanho de gigante, em cima dos batentes de pedra. Lá embaixo estava o mestre José Amaro que falara de sua filha, a D. Neném. -Coronel, eu não sou homem de leva-e-traz. Moro neste seu engenho desde o tempo do Capitão Tomás e nunca dei desgôsto. -ó Floripes. -Meu padrinho, êle me mata. -Hein, mestre José Amaro, quem manda neste engenho? -Coronel, eu já disse. Uma raiva de tudo foi se apoderando do seleiro. Já não podia agüentar mais aquelas perguntas bôbas. -Coronel, afinal o que é que o senhor manda? -Hein, Amélia, veja o que êle está dizendo. D. Olívia botou a cabeça na porta, olhou para todos e sumiu-se. -Hein, Amélia, eu não posso falar no meu engenho. Pois eu mando, mestre José Amaro. Pois eu mando. -Coronel, o senhor não deve ir atrás das intrigas daquele negro. Eu sou homem de respeito. -Hein, mestre José Amaro, o seu pai matou em Goiana, não é verdade, hein, mestre José Amaro? Eu não quero assassino no meu engenho. Não é, Amélia? Pode procurar outro engenho, mestre José Amaro. Hein, mestre José Amaro, ouviu? Procure outro engenho. Aquilo foi como uma bofetada na cara. Omestre deu dois passos para trás, estava com os olhos esbugalhados, com um nó na garganta. E quando pôde falar, não via ninguém na fogo morto 121 sua frente, via só a luz do sol faiscar na parede branca da casa. -Não sou cachorro, Coronel Lula. Não sou cachorro. E fêz menção de subir os batentes. O velho gritou lá de cima -Hein, não ponha os pés nesta casa. D. Amélia apareceu do lado de fora -Mestre José Amaro, o senhor não se atreva a tocar no meu marido. Aquela figura de mulher, que o mestre sempre se acostumara a admirar, abrandou-lhe a cólera. -D. Amélia, eu não quero ofender a ninguém. Vim aqui a chamado. Levantei-me da cama para isto. E chego aqui e o Coronel me trata dêsse jeito. -Já lhe disse, mestre José Amaro, procure outro engenho. Quem manda, aqui, hein, mestre José Amaro? 0 mestre baixou a cabeça. As barbas brancas do velho brilhavam ao sol. -Bem. Mande-me as ordens. E foi se retirando. Na ponte do engenho parou para falar com Pedro Boleeiro. -lsto é encrenca do negro. Eu também qualquer dia deixo isto. -É mas êste negro me paga, Seu Pedro. -0 melhor, mestre, é não dar importância. -Não dar importância, Seu Pedro? Então um senhor de engenho me bota para fora como a cachorro e o senhor acha que não tem importância? Estou nas últimas, mas uma coisa eu garanto; êste negro não fica palitando os dentes. Lá isto não fica não. Omestre José Amaro não é homem para ser afrontado dêste jeito. Eu sei que o velho está de miolo mole. Se não fôsse D. Amélia, êle tinha ouvido umas boas. Afinal de contas, a gente tem mesmo que respeitar. OCapitão Tomás foi amigo de meu pai. Se não fôsse êle eu pegava êste negro aqui mesmo. Êle correu para debaixo da cama do padrinho. -0 negro é ruim mesmo, mestre. Êle tanto fêz que D. 122 José lins do rêgo Amélia botou para fora a cozinheira. Onegro vive na reza, num mexerico dos diabos. -É isto, Seu Pedro, eu pego êle. E caminhou para a estrada. A tarde começava a esfriar, o vento açoitava as cajàzeiras. Omestre José Amaro não tinha tomado pé ainda. Tudo fôra tão rápido que não pudera medir as circunstâncias. Aos poucos, porém, examinou a situação. Fora botado para fora da-anta Fé. Viu então que era uma injustiça; terrível aquela ^.q -u -e lhe faziam. Surgiu-lhe " pela frente um comboio de aguardente. Pensou em Alípio e era êle mesmo quem comandava a tropa. -Boa tarde, mestre; passei por sua casa e D. Sinhá me disse que o senhor estava por aqui. 0 mestre contou tudo o que se passara. A voz cavada, os olhos mortiços, eram de um homem arrasado. -Pois mestre José, eu lhe digo uma coisa: não saia. Êste velho vai ver a fôrça do capitão. Não saia. Estou chegando do Ingá. A cama do Tenente Maurício está preparada. Mande êste_ veLlio à mera. 0 mestre To-sé Amaro falou do recado do cego Torquato. -É verdade. Tiago me contou. E como que querendo levantar o ânimo do amigo -Não saia da terra não. Ocapitão garante. Vou com o comboio para cima e na volta eu paro na sua casa. E despediu-se. A burrama desceu para o rio, e o mestre Amaro sentiu-se só, muito só, ali na estrada que as sombras da tarde escureciam. Por debaixo das cajàzeiras frondosas, com o frio do vento, pensou na conversa com o velho Lula. Não pgdia- ,çó npreender auP tivesse sido . i ogadO para_ fora__ dó .a.nta Fé. Aquela casa que tinha sido do seu ai onde nasera, onde apren e o leio, seria _autr òmntq-grque um enégro mexeriaueir.Q fizera. nma intríg -L. É asua mulher, e a filha doente? Como encontraria um lugar como aquêle para viver o resto dos seus dias? Um silêncio de bôca de noite amaciava as coisas. A estrada parecia deserta, só os cachorros latiam. Ouviram-se um tiro sêco e o latido de um perdigueiro. Seria Manuel de Úrsula, nas suas caçadas de preá. Mais adiante encontrou-o. fogo morto 123 beber sangue, matar inocentes, correr como bicho danado. E sem saber explicar, o mestre José Amaro examinou-se com pavor. Oque havia no seu corpo, nos seus gestos, na sua vida? A filha endoidecera. Mas isto nada tinha que ver com a invenção do povo. Êle não saía de casa, nunca fizera mal a ninguém. E por que seria o monstro que alarmava o povo? A noite escura chiava nos insetos; ladrava um cachorro do Seu Lucindo. Sinhá e a comadre conversavam, E a filha no falatório, na gargalhada, no sofrimento pior dêste mundo. Omestre não encontrava apoio para fugir da preocupação. Entrou outra vez para o quarto, e não tinha paz, não estava seguro de nada. As ameaças do Coronel Lula, a raiva a Floripes, tudo se diluíra com aquêle pavor que lhe enchia o coração. Tinha mêdo e não sabia de que era. Êle fazia correr menino na estrada. Era o lobisomem do povo, um filho do diabo, encantando-se nas moitas escuras. Nunca um pensamento lhe doera tanto. Latia aquêle cachorro como se estivesse acuando um bicho. Aquela hora as mulheres rezariam, estariam com a idéia no lobisomem que imaginavam com as unhas grandes, a cabeça comprida de lôbo, a forma de monstro em desadôro. Corria um vento que lhe esfriava os pés. Por que seria êle para a crença do povo aquêle pavor, aquêle bicho? Oque fizera para merecer isto? 0 coração batia-lhe muito forte. Não. No outro dia teria que fazer qualquer coisa para acabar com aquela história. Lauren ino e Floripes pag ri m_ Eram êleswos_.cri.adQres _dá_quela miséria: -À fi -h nó o_utró _diá_ sairia para o Recife. Ã sua casa f çãria mâ s só, mais cheia de ris _assim ámavái_ a çása. E sé osse em ora e procurasse outra -terrá pára acabar ós seus dias? OCoronel lhe pedira a casa. Era um bom pretexto para fugir do povo que lhe queria mal, que o via como uma desgraça, uma criatura do diabo. Estaria tudo resolvido. Omestre José Amaro encontraria um engenho no Itambé, uma terra que o acolhesse, um povo que o amasse. Encontraria, não havia dúvida. Mas o diabo era aquêle recado do cego Torquato. Um pedido do Capitão Antônio Silvino para êle. Ali-, pio lhe dissera com tôda a sua alma : "Mestre não saia desta terra". Sem dúvida todos do bando precisavam dêl_e ,= - -,a,_ 126 José lins do rêgo que á sua .casa ficava num ponto de_ assagem de primeira orem Ali era a passagem para todos os canos. capitão precisava de um homem de confiança para lhe dar as notícias. Ali Alipio e o cego Torquato iriam saber do movimento da tropa. E não havia quem desconfiasse de nada. Só Sinhá sabia. Tinha receio de sua mulher. Era sua inimiga. Por quê? Oque fizera para aquêle ódio terrível de Sinhá? Desde aquela noite da surra em Marta que ela ficara daquele jeito, sem falar em casa, de cara fechada, cuidando das coisas como uma criada. Sinhá sabia da sua ligação com o capitão. Contaria alguma coisa à amiga Adriana? Seria perigoso. A sua comadre andava de casa em casa, e podia largar uma palavra e tudo estaria perdido. Sinhá teria fôrça para calar-se? Conversavam muito no quarto dos fundos. Só, muito só, em sua vida. Levantou-se da rêde e chegou até fora de casa. A noite era de muita escuridão. Só as estrêlas se viam no céu, e tudo mais, de um pretume só. Quis sair um pouco, e foi descendo pela estrada na direção à casa do velho Lucindo. Aquela hora não passaria ninguém, não seria visto. Andou assim uns cinco minutos. Por debaixo das cajàzeiras os vaga-lumes corriam faiscando, como estrêlas andantes. Lobisomem. Tudo lhe voltara, tôda a angústia lhe esfriava o peito ofegante. Apalpou-se. Fechou as mãos e sentiu as juntas duras, os dedos grossos. Povo bêsta. Mas foi andando mais para longe. Ocachorro latia agora como se estivesse a dois passos de seus ouvidos. Viu que havia luz acesa na casa do velho Lucindo. Não o veriam ali onde estava. Deixara em casa a mulher se preparando para a viagem. Todo o mundo falaria no caso de sua filha. E imaginariam, na certa, um absurdo qualquer. Povo bêsta. Aquêle Laurentino, aquêle Floripes largariam a língua por aí afora, na invenção. Êle daria cabo dos dois miseráveis. Teve receio de seguir mais para a frente. Devia haver qualquer coisa fora do comum na casa do velho Lucindo para estarem de luz acesa assim. Não quis se aproximar de lá, mas o cachorro chegou a seus pés com uma violência danada. Pegou de uma pedra para fazê-lo correr e o bicho investiu em cima, com fúria. Não podia correr, não havia outro jeito senão enfrenta-lo, e com um pedaço de pau fogo morto 127 malhou o animal na cabeça. Obicho grunhiu, e saiu numa carreira desesperada para o terreiro da casa. Nisto viu gente correndo para onde estava. Procurou esconder-se e não pôde. Devia ser um dos filhos do velho Lucindo, que gritou com uma voz de susto -Quem está ai? -É de paz. -Quem é? -Sou eu, o mestre José Amaro. Houve um silêncio. Ohomem parou. Omestre não como sair. -0 diabo do cachorro veio -Éle não morde, mestre. -Sei lá! -Não morde não. -Vou andando, boa noite. -Mestre, o senhor já soube? Omeu pai chegou agorinha de Itabaiana. OTenente Maurício pegou o cego Torquato, e está com êle na cadeia. A fôrça está no Mogeiro fazendo o diabo. -É mesmo? Não quis continuar. A história da prisão do cego aterrou-o. Retirou-se na escuridão. Ocachorro começava a latir outra vez. Uma rapôsa, com os olhos em chamas, atravessou-se em sua frente, quase ao alcance de sua mão. Aproximou-se com rapidez de casa. Ocego na cadeia; haveria descoberto alguma coisa? Alípio não sabia de nada. E quando entrou em casa havia um rebuliço medonho. A filha tinha corrido de estrada afora, de camisão, e se não fôra José Passarinho teria ganho as matas. Dava gritos medonhos e batia nas paredes do quarto como uma fera. A sua mulher chorava, e a comadre Adriana veio lhe falar. -Está furiosa, compadre. Parece que adivinhou alguma coisa da viagem. E quando a gente viu, foi ela correndo para a estrada. Onegro Passarinho estava deitado na pitombeira e correu atrás dela. Foi quando eu e a comadre nos grudamos com a bichinha. Nunca vi tanta fôrça. E agora está assim. Tenho mêdo que quebre a cabeça. Tomara que amanhe128 José lias do rêgo sabia em cima de mim com vontade. ça para podermos fazer alguma coisa. Nós vamos amanhã, no trem das nove. O mestre não dava uma palavra. Ouvia o soluçar da mulher, e as pancadas terríveis da filha nas paredes. Oque lhe importava naquele instante era o cego Torquato na cadeia. O tenente saberia de todos os planos e viria em cima dêle, de Alípio, de Tiago. OCapitão Antônio Silvino correria perigo. -Compadre-voltou a velha Adriana-,o senhor não pode sair para esta viagem. ODr. Samuel deu uma carta para o Dr. Loureiro, mas a gente não conhece ninguém na cidade. A comadre pensou em chamar o filho do Seu Lucindo. Orapaz deu uma desculpa. Se Vitorino estivesse em casa, êle ia com a gente. -Eu vou, comadre. Estou doente, mas obrigação é obrigação. Retirou-se para o seu quarto. E o cego na cadeia não o deixava. Aquêle tenente tinha artimanhas do diabo. Onegro Salvador deixara de vender bicho, o italiano mudara de estrada por causa dêle. Agora pegara o cego. Não podia ficar estirado na rêde. Obarulho da casa, a desgraça de Marta pareciam-lhe de longe. Alípio subira com o comboio na maior inocência. A noite ia alta. Onegro José Passarinho roncava como um porco. Não era possível que êle não se importasse com a filha doente, com o sofrimento da mulher. Era por isto que o povo corria, fugia de sua presença. Por que era aquêle pai sem coração, aquêle marido desnaturado? Ali estava a comadre Adriana, casada com um maluco, e no entanto, ainda tinha fôrça para vir ajudá-los na desgraça. Era, de fato, um homem perdido, sem amor às coisas, sem amor ao ofício, à mulher, à filha. No outro dia faria o maior sacrifício de sua vida. Tinha a obrigação de levar a filha para o hospital. Quando foi de madrugada apareceu Vitorino. Tinha sabido da notícia em viagem. E ali estava para ajudar os compadres. A mulher deu-lhe notícia do plano de levar a môça para o Recife. Precisavam de um homem para acompanhá-las, pois o mestre naquele estado de doença não poderia sair. A madrugada cobria tudo de luz macia. A casa do mestre José Amaro recebia os primeiros raios de sol, com os bogaris, as fogo morto 129 roseiras em floração, os galos cantando. Omestre deitado na rêde não tivera coragem para falar com o compadre. Vitorino conversava na cozinha com a mulher -É isto, minha velha, tu vives a me censurar por causa de minhas viagens. Pois estou de engenho apalavrado para arrendar. Onegócio foi assim: OJosé Jardim brigou com um genro e mandou me chamar. Lá chegando, êle me disse: "Vitorino, nós somos parentes, você é um homem sério. Tenho aí êste engenho que estava nas mãos do meu genro José César, para arrendamento. Lembrei-me de você". E eu lhe disse logo: "Primo José, para lhe falar com tôda a franqueza, não nasci para isto. Se tivesse alisado os bancos da academia hoje seria um advogado assim como o Dr. Eduardo. Não quero o seu engenho não". A mulher o ouvia calada, e êle sem parar -Todos por aí falam de mim, mas na hora só se lembram do Vitorino. Marta começara outra vez a bater nas paredes: -Eu bem disse ao compadre que fôsse com ela ao mulungu. Vocês vão ao Recife mesmo? -0 compadre não pode. -Eu levo. Vou com muito gôsto. Outro dia aqui nesta casa fui desconsiderado pelo compadre José Amaro. Mas Vitorino Carneiro da Cunha sabe ser amigo. Otrem hoje sobe com Belmiro de condutor. A gente compra passagem para Timbaúba e vai até o Recife. Esta menina precisa tomar um jeito. Lá na cidade tenho boas amizades. OEufrásio, genro do Lourenço, vive a me oferecer a casa dêle todo o dia. Chegou a hora de servir-me. Amigo é para isto. E saiu para conversar com o compadre. Encontrou-o deitado na rêde com o escuro do quarto. -Compadre Vitorino, pode abrir a janela. A luz da madrugada mostrava a cara de bicho do seleiro. Estava como nunca estivera. Vitorino fixou-o, como se quisesse reconhecê-lo. -Está muito abatido, compadre. -É, compadre, é isto que o senhor vê. 130 José lins do rêgo -Não quer dizer nada. Homem é para agüentar estas reviravoltas. Muito mais infeliz do que o senhor é o José Paulino que perdeu ontem a filha Mercês, de parto. É o homem mais rico desta terra e que jeito deu na filha? Passei ontem pelo Santa Rosa e tive pena do primo. Está um cadáver. Não é mais homem não. Em política, estou contra êle. Vitorino Carneiro da Cunha não vai com esta história de senhor de engenho querer fazer de terra como o Pilar, bagaceira. José Paulino é homem de bem, mas não se compreende que deixe um Quinca Napoleão na Casa da Câmara. Ontem tive pena do primo com a morte da menina. Veio medico da Paraíba e foi até pior, matou logo. Parou um cavalo na porta. Vitorino levantou-se para ver quem era. -É um aguardenteiro, compadre. 0 seleiro levantou-se para encontrar-se com Alípio. -Bom dia para todos. Mestre, eu queria que o senhor me visse a cilha dêste animal. Lá fora, Alípio, em voz de segrêdo, foi contando. Ocapitão o encontrara com o comboio em Mata de Vara e queria saber da notícia certa da tropa. Um espia lhe dissera que o tenente arribara para o Ingá, mas êle não estava dando confiança à notícia. Voltara em cima dos pés, andara a noite tôda para chegar no Pilar com a madrugada. Mas no engenho da Fazendinha batera de testa com a fôrça. Ocapitão não sabia de nada. Éle não queria voltar para não dar na vista. E não havia ninguém que pudesse fazer o serviço. Se o tenente descobrisse, iria encontrar o bando desprevenido. Vitorino apareceu para olhar o serviço do consêrto. -Está no contrabando, rapaz? -É, estava num comboio mas me mandaram de volta para o Angico Torto. -É a vida que o meu primo Feliciano da Cunha quer. 0 mestre José Amaro falou da saúde da filha, da viagem para o Recife. -Se não fôsse a bondade do compadre Vitorino, eu mesmo é quem tinha de ir à cidade. Mas no estado em que estou ia morrer por aí. fogo morto 131 A velha Sinhá apareceu na sala. Olhou para Alípio e não reconheceu. -Bom dia, Dona Sinhá. E quando reparou no homem ficou -Tem café na mesa. Foram se sentar. Marta ria-se, gritava. Oaguardenteiro com a preocupação parecia ausente de tudo. Depois que se serviram Alípio retirou-se. OCapitão Vitorino ficou em silêncio, por um instante. A manhã faiscava com um sol que parecia de meio-dia. Ocapitão chegou até a pitombeira e olhou para o mundo, viu a sua égua amarrada no pau do chiqueiro -Meu compadre, vou soltá-la na vazante. Quando voltar do Recife deve estar de rêgo aberto. E desceu com o animal para a beira do rio. Sem o compadre o mestre José Amaro ficou com o Capitão Antônio Silvino na cabeça. Já não era mais o pai que se julgara desnaturado, o marido cruel. Todo êle se voltava para o perigo de que Alipio lhe dera notícia. Mata de Vara distava uma légua da Fazendinha. Aquela hora já podia ter se dado o tiroteio. Ocapitão desprevenido seria morto pelo tenente, pela fôrça de bandidos. Não podia ficar parado. Saiu para a frente da casa. Passou às carreiras, num cavalo desembestado, o negro José Guedes do Santa Rita. Devia levar algum recado de urgência para, àquela hora, correr tanto. Seria notícia do encontro da tropa com o bando? A filha dentro de casa gritando num desespêro terrível. Não pensava mais na filha. Foi quando veio vindo para o seu terreiro o negro José Passarinho. Lembrou-se do conselho de Alípio, mas uma coisa dizia que aquêle negro podia prestar um serviço àquela hora. -Bom dia, mestre Zé, vim a chamado de Dona Sinhá. Fui falar com os filhos de Seu Lucindo para levar a môça para a estação. Estou achando ruim, mestre. A môça tem uma fôrça de homem. Joca de Seu Lucindo ficou de aparceer. Êle até me disse que tinha encontrado o senhor na estrada. Joca fala de todo o mundo. Até êle me disse que a fôrça deu um tiroteio na beira da Estrada Nova. 0 mestre estremeceu com a notícia. 132 José lins do rêgo espantada. -Tiroteio aonde, Seu José? -Na Estrada Nova. Êle é quem sabe. -E morreu gente? -Que eu saiba, não. Joca de Seu Lucindo sabe de tudo. Com pouco apareceu Vitorino. José Passarinho olhou para êle e tirou o chapéu com respeito. -Bom dia, capitão. -Muito bom dia. Compadre, a vazante está com muito pasto. Apareceu, então, Joca de Seu Lucindo, trazendo um maço de corda. -Bom dia, gente; a môça está pronta? -Joca, o que foi que houve com a tropa ontem de noite? -A notícia quem me deu foi o pãozeiro de S. Miguel. Houve fogo na Estrada Nova, mas não se sabe de nada. Chegou na porta a velha Adriana. -Está na hora. 0 mestre José Amaro não quis ver a saída da filha. Emocionado, entrou em casa e o soluço da mulher cortou-lhe o coração. Joca e Passarinho tinham entrado, e a sua comadre Adriana gritava -Cuidado, não machuquem a bichinha. Não podia ver aquilo. Lá embaixo, escutou os gritos da filha. E a voz da comadre mandando em tudo. Passavam-se os minutos. Agora um silêncio de casa abandonada, de deserto, cercava-o por todos os lados. A manhã parecia uma noite escura para êle, Não ouvia nada, não via nada. Ocabriolé do Coronel Lula passou tilintando, como uma música de festa. E o mestre acordou daquele sono pesado. E foi assim que atravessou a casa e chegou na porta de frente. Lá ficou a olhar para as coisas sem ver. Ouvia-se um falatório na estrada. Era uma porção de gente com um defunto numa rêde melada de sangue. Um homem parou para lhe pedir uma caneca d'água. Estavam levando o corpo de um sujeito que a fôrça matara. Diziam que era Cocada, que andava com um grupo de cangaceiros. Otenente tiroteara com o bando, mesmo na bueira. Pensara que fôsse Antônio Silvino. fogo morto 133 Já iam longe com o corpo, quando o sujeito se foi. Omestre não pensava em nada. Havia dentro dêle um vazio esquisito. Teve mêdo de voltar para dentro de casa. E ali mesmo, por debaixo da pitombeira, baixou a cabeça e chorou como um menino. Obode manso chegou-se para perto dêle e lambeu as suas mãos. E começou a berrar, como se tivesse coração de gente. 134 José uns do rêgo SEGUNDA PARTE O ENGENHO DE SEU LULA CAPITÂo Tomás Cabral de Melo chegara do Ingá do Bacamarte para a Várzea do Paraiba, antes da revolução de 1848, trazendo muito gado, escravos, família e aderentes. Fôra êle que fizera o Santa Fé. Havia aquêle sítio pegado ao Santa Rosa, e como o velho senhor de engenho, o antigo Antônio Leitão, não quisesse ficar com aquelas terras, êle ali se fixara. Era homem de pulso, de muita coragem para o trabalho. ele ?nPn r_io dera ao engenho aue montou o nome de anta Fé. Tudo se fizera a seu gôsto. Depois comprou aos índios algumas quadras da catinga, e o Santa Fé pôde subir para os altos, ter a sua pequena mata de angico, crescer um pouco junto ao mundo que era o Santa Rosa. Ocapitão vinha dos Cabrais do Ingá, gente de posses, de nome feito na Província. Os roçados de algodão dêstes homens tinham fama. Falava-se que o velho Cabral tinha para mais de quinhentos escravos nos eitos de seus roçados. Mas o Capitão Tomás descera para a Várzea. Tinha filhos e pensava dar ao seu povo uma criação melhor. E assim liquidara a herança na partilha e ohegara ao Pilar, para ser se fogo morto 135 nhor de engenho. Trazia haveres, as suas moedas de ouro, um gado de primeira ordem, e mais do que tudo uma vontade desesperada para o trabalho. Alguns de seus irmãos tinhamse casado com gente de Pernambuco. Éle preferira uma prima, mulher de muito bom pensar, que só vivia para a casa, para os filhos, para a criação, para os negros. Aquêle Santa Fé, que montara com tanto cuidado, com tôda a sua alma, parecia um anão comparado com os outros engenhos de perto. Mas estava contente com a sua criação e a ela se entregava de corpo e alma. Tivera que lutar no principio com tôda dificuldade. Nada sabia de açúcar, fôra criador, plantador de algodão. Para êle, porém, não havia empecilhos. Levantou o engenho, comprou moenda, vasilhame, e dois anos após a sua chegada ao Santa Fé, tirara a primeira safra. Opovo, a princípio, não levava a sério o Santa Fé. Viam aquêle homem de fora, com jeito de camumbembe, trabalhando para êle mesmo, com as suas próprias mãos, nos trabalhos de casa, e não acreditava que nada daquilo desse certo. Ocapitão era homem sêco, de poucas palavras, de cara fechada. Então começaram a criar histórias, a inventar que passava fome com a família, que matava os negros de trabalho, que era um unha-de-fome. A casa-grande subiu a cumeeira, as telhas brilhavam ao sol, a horta cresceu, o engenho subia as paredes, e com pouco o Santa Fé criava o seu corpo, era como gente viva, com os partidos de cana acamando na várzea. No ano da botada, viera o Padre Frederico benzer o engenho. Ocapitão não deu festa, como era de costume. Muito êle tinha que fazer ainda para poder dar festas. A primeira safra pegara muito bom preço do açúcar, e êle mesmo saía com os seus comboios, com a sua burrama para a cidade, levando a mercadoria para vender. Aquilo fêz escândalo por tôda a parte. Era mesmo um camumbembe. Como era que um senhor de engenho se dava a uma posição daquela, sair acompanhando os cargueiros, como se fôsse um feitor, um qualquer? E foi assim que o Capitão Tomás conseguira tirar do seu engenho o que ninguém podia imaginar. O ,Santa Fé, nas suas mãos, dava mais que outros engenhos de mais terras, de outros recursos. E o Capitão Tomás criou 136 9osé lins do rêgo fama de homem de capricho, de palavra, de trabalho duro. Falava-se do seu gênio econômico. Sôbre isto corriam histórias, criaram anedotas de todos os feitios. Os negros do capitão tinham fama. Diziam que no Santa Fé negro só comia uma vez por dia, que couro comia nas suas costas, nos castigos tremendos. Ofato era que a escravatura do Santa Fé não andava nas festas do Pilar, não vivia no côco como a do Santa Rosa. Negro do Santa Fé era de verdade bêsta de carga. Ocapitão dizia êle mesmo que negro era só para o trabalho. Êle, não era negro e vivia de manhã à noite fazendo a sua obrigação. E assim o Santa Fé ficara um engenho triste. De vez em quando, tendo que batizar uma filha, dava uma festa. Vinham outros senhores de engenho, alguns parentes do Ingá. Mas aquilo não era do gôsto do capitão. Era homem duro, era homem para amanhecer no roçado, de cacête na mão como feitor, fazendo a negrada raspar mato, furar terra, plantar cana. Não havia chuva que o impedisse de sair de casa, não havia sol quente que lhe metesse mêdo. E foi assim que teve dinheiro para poder educar filho. A verdade é que uma filha fôra para o colégio das freiras no Recife. Queria fazer de sua família gente de verdade. Não queria mulher dentro de casa fumando cachimbo, sem saber assinar o nome, como tantas senhoras ricas que conhecia. E o Santa Fé com oÇanitão Tomás Ca bral de Meloz chegou à sua maior grandeza. A filha voltara dos ëstudos, uma moça prenda ad ássoinb-rándo as outras com os seus dotes. OCapitão Tomás comprou piano no Recife. Fôra uma festa quando passara pelas estradas o grande piano de cauda do Capitão Tomás. Nunca o povo vira aquilo. Em cima da cabeça de dez negros, e com outros dez atrás para substituir os outros, lá vinha o instrumento enorme, todo enrolado em pano, rompendo os caminhos estreitos. Vinha um negro de foice cortando os galhos para o piano do Capitão Tomás passar. Êle mesmo a cavalo, no passo vagaroso, vinha atrás dando ordem. Os negros pisavam no chão de pedra, ou na areia frouxa, com cuidados de quem conduzisse um doente do peito, que não pudesse sofrer o menor abalo. Corria gente para ver o piano. Paravam por debaixo fogo morto 137 dos arvoredos para descansar. No engenho da Fazendinha, dormiram. Os negros se deitaram em redor como se guardassem um tesouro. Ocapitão foi para a casa-grande. Teve que tirar os panos da peça para mostrá-la às môças do engenho. Olharam para o espelhar da madeira luzidia, para a alvura das teclas de marfim. E afinal chegara ao Santa Fé o grande piano que o matuto Tomás Cabral de Melo fôra comprar no Recife para sua filha Amélia. Nunca se vira coisa igual pela Ribeira. Um piano daquele tamanho, muito maior que a serafim da igreja do Pilar, maior que todos os pianos do Itambé. Falavam que em Maranguape havia um daquele tamanho. E assim fôra a grandeza do Santa Fé. Viera do nada, dum sitio de camumbembe, e nas mãos do capitão dava como um grande engenho de várzea. Ocapitão ficou forte na política, dava voz de _comando_ no Parti o Liberal.. O -ovo o an á tosa formava _no Conservador. Ele não. Tivera parentes na revolução de 48, gente sua sofrera no govêrno que matara Nunes Machado. Seria sempre contra os conservadores. Por mais de uma vez tivera que presidir a Câmara do Pilar. Quando o seu partido subia era o homem de mando na vila. De baixo, era respeitado, querido dos seus adversários. Só mesmo numa eleição tivera que levantar a voz para repelir um insulto dum sujeito que chegara para o Pilar, um bacharel novato que não o conhecia. Viu-se logo cercado pelos homens do outro partido e tudo terminou bem. Era o Capitão Tomás Cabral de Melo, senhor do engenho de Santa Fé, chefe do Partido Liberal, pai de filha educada em Recife, com piano em casa, que falava francês, que bordava com mãos de anjo. Ocapitão, nas tardes de domingo, quando nada tinha que fazer, deitava-se no marquesão da sala de visitas é chamava a filha. -Amélia, vem tocar uma coisinha. A casa-grande do Santa Fé enchia-se da valsa triste da môça. A mãe deixava a cozinha, os negros a acompanhavam para ouvir D. Amélia tocando no seu enorme piano, de som tão bonito. Ocapitão fechava os olhos, babava-se na harmonia terna que a filha arrancava do teclado. Era um primor. 138 josé lixes do rêgo A mulher, cansada, de pele encardida do sol, de mãos grossas dos trabalhos da cozinha, de debulhar milho para negro, de cortar bacalhau, iluminava-se de alegria. Tinha mais uma filha nos estudos, Olívia. Todos em sua casa não deviam ser como ela fôra, só do trabalho grosseiro, da vida como de negro cativo. Omarido, espichado no marquesão, babava-se com a filha prendada. Não queria para Amélia um marido assim como Tomás, homem que só tinha corpo e alma para o trabalho. Homem devia ser mais alguma coisa para melhor do que era Tomás. D. Amélia tocava as suas valsas com o coração, as varsovianas tomavam conta de suas mãos, de seu sentimento. Ocapitão dormia com a filha na música, aos domingos, com os negros parados, com a terra dando vida às sementes. A casa-grande do Santa Fé, naquela tarde de concertos, tinha outra alma. Mãe, pai, negros participavam de uma existência bem diferente da que viviam. Outra vida, outra fôrça mandava naquela gente enfeitiçada. As negras diziam que a menina tinha umas mãos que eram como se fôssem uma vara de condão. OCapitão Tomás Cabral de Melo chegara ao ponto mais alto de sua vida. Oque mais podia desejar um homem de suas posses? Família criada, engenho moente e corrente, gado de primeira ordem, partidos de cana, roçado de algodão, respeitado pelos adversários. Criara um engenho. Disto se orgulhava. Não fôra ali, como os outros ricos da terra, encontrar tudo feito para continuar. Tudo saíra de suas mãos, era obra exclusiva dêle. Lá estava no frontão de sua casa-grande a data de 1850. Naquele ano dera uma pintura nova na casa. Fôra o ano da chegada do piano. Amélia voltava do colégio, môça como não havia na várzea, cheia de prendas, dona de muito saber. Mas f ramse os anos e o Capitão Tomás tinha uma ,magia. Por que L Y TU - não se casara a sua ilha mais ve a quê Atava para encon rar um mari o na a tura de seus merecimen o . era eia, tudo teria para se sposa completa. os anos se iam e a filha do capitão não se casava. Quando a ouvia no piano, media as coisas com tristeza. Então naquela Ribeira não aparecia um homem que fôsse digno de sua filha? A mulher não lhe falava coisa nenhuma, mas êle sabia que devia fogo morto 139 sofrer. Afinal de contas, por que pensar nestas coisas? Melhor que êle deixasse que o tempo resolvesse tudo. OSanta Fé dava os seus mil pães de açúcar, as suas sacas de lã, e tinha pasto para as suas duzentas reses. E ainda contava com quarenta peças de escravatura. Não queria mais do mundo. Por mais de uma vez viera à sua porta bater senhor de engenho de grandes terras, para se valer de sua bôlsa. Emprestava e os juros que cobrava não eram de arrancar a carne de ninguém. Oseu dinheiro era o seu sangue, a sua vida. A várzea, as vazantes, os altos do Santa Fé, era tudo da melhor qualidade. Lembrava-se de conversas com outros senhores de engenho. Todos lhe gabavam as safras, o açúcar, o gado, os roçados de algodão, as vazantes de milho. Nas mãos do Capitão Tomás tudo rendia, tudo dava dinheiro. É verdade que tinha uma mulher que era a metade do seu esfôrço. Cuidava ela dos negros, cosia o algodãozinho para vesti-los, fazia-lhes o angu, assava-lhes a carne. A sua escravatura era de gente boa. Trouxera do Ingá negros de bom calibre. Nunca comprara peça barata, resto de gente que só lhe desse trabalho. Negro ruim e barato deixava para os pechincheiros. Queria povo para o trabalho, negra que parisse braços e mais braços para os seus partidos. Tudo que o Capitão Tomás pretendeu fazer no Santa Fé, saiu como êle bem quis. Mas a filha que tocava piano como uma môça da praça, que lia livreis bonitos, que lhe custara tanto dinheiro nos estudos, não se casava. E os homens da Ribeira não eram para ela. Não lhe batesse em sua porta filho de João Alves do Canabrava, que êle não dava uma filha em casamento por preço nenhum. Melhor ficar para titia do que ligar-se àqueles vadios que andavam soltos de canga e corda, comendo as negras do pai como pais-d'égua. E os filhos de Manuel César do Taipu? Tinham ido para os estudos, eram doutôres. Seriam dignos ide Amélia? Não seriam. Aquela gente do Taipu tratava mulher como bicho. Amélia era uma sêda, uma flor de jardim. Não. Para vê-la casada com um daqueles animais, êle preferia que ficasse tôda a vida com êle. Tinha dinheiro de ouro que lhe daria para comprar um engenho para a filha. Um engenho de porteira fechada. Queria era que apa 140 imé lies do rêgo recesse um homem que fôsse branco, de bons modos, capaz de fazê-la feliz, de tratá-la como ela merecia. 0 Capitão Tomás ficava velho, já não era o mesmo dos outros tempos. OSanta, Fé, porém, continuava com a mesma fôrça, engenho de casa de purgar cheia, de partidos bem tratados, de rendimento certo. D. Amélia tocava músicas no piano grande. Foi quando apareceu, em visita ao capitão, um rapaz de Pernambuco, um filho de Antônio Chacon, das bandas de Palmares. Era o parente Luis César de Holanda Chacon. Opai morrera nas lutas de 48. Contava-se muito da coragem de Antônio Chacon, cercado nas matas do Jacuípe, com Pedro Ivo, batendo-se com uma fôrça do govêrno até morrer. Deixara a mulher com um filho de pouca idade. Omenino era êste que o Capitão Tomás hospedava, como a um parente que muito amasse. Sempre ouvira falar do velho Chacon como homem de bem, corajoso, dando a vida pelo chefe que mataram em Recife. Nunes Machado era nome que o capitão pronunciava com fervor. Morrera no campo da honra, era o parente que a história falava. Nunes Machado! 0 sêco Capitão Tomás quando pronunciava êste nome molhava os olhos de lágrimas. Agora viera para visitá-lo o filho único de Antônio Chacon, que morrera com as armas na mão, cercado de tropa, ao lado dos Afonsos de Japaranduba. Era um rapaz cerimonioso, de boa aparência, trato fino. Chamou-o logo de Lula, e quis que fôsse tratado em sua casa como um filho. D. Amélia engraçou-se do primo. Agora o piano tinha mais sentimento, as varsovianas soluçavam, os dedos da môça eram mais leves. Oprimo calado, no sofá, escutava a artista que caprichava nas valsas. A mãe, orgulhosa da filha, abandonava mais a cozinha para fazer sala à visita. Oprimo Lula tinha aquela barba negra de estampa, de olhos azuis, o ar tristonho, a fala mansa. A velha olhava-o para sentir bem o genro que viera de longe para fazer de Amélia uma criatura feliz. Nunca aquêle piano falara com tanto sentimento. Amélia dedilhava como uma fada: o capitão ficava em silêncio, escutando a filha, que dava a sua alma ao primo Lula, nas músicas do coração que tocava. fogo morto 141 Quando Luís César de Holanda Chacon marcou o dia da viagem, o Capitão Tomás esperou o pedido à mão de sua filha. Iria para o Recife num melado que êle comprara ao velho Ribeiro de Itabaiana. Oprimo Lula agradeceu muito a oferta, não podia aceitar. A viagem era longa e podia estropiar um cavalo tão fino. E se foi sem falar em casamento. A casa-grande do Santa Fé emudeceu outra vez. A velha Mariquinha voltou para as tachadas de angu, para o trato dos negros, o piano calou-se. Por êste tempo recebera uma carta de Recife, de seu correspondente, dando-lhe uma notícia que encheu a família de tristeza. A filha Olívia, môça de 17 anos, adoecera com gravidade. Ocorrespondente falava em Tamarineira. Ocapitão preparou-se para a viagem, e foi com o coração partido que encontrou a filha completamente perdida. Omédico falou-lhe em cura muito difícil. Quis trazê-la para casa, mas aconselharam para que a deixasse algum tempo mais em tratamento. OCapitão Tomás abalou-se profundamente com a desgraça de Olívia. Quando voltou para o Santa Fé era outro homem. Envelheceu rãpidamente. Fizera o possível pela sua filha. Tudo dera aos seus. Enquanto os outros senhores de engenho deixavam as filhas na ignorância, mandava as suas para o Recife, para vê-las assim como Amélia, môça de trato, de muitas leituras, sabendo fazer sala com distinção. E de repente lhe sucedia uma coisa daquela. Mariquinha não se entregava ao desânimo. Via-a na cozinha, ao fuso de fiar, mandando nas negras com a mesma fôrça de antigamente. Êle não. Não podia esconder a sua fraqueza. Gastara-se no trabalho, nos dias de sol, de chuva. Estava, com a doença de Olívia, como se fôsse um homem sem préstimo. E aquilo durou meses. Todos da casa já tinham se conformado, menos o Capitão Tomás. Agora de dois em dois meses tomava o seu cavalo e ia ao Recife para perto da filha doente. Fazia-lhe dó vê-la naquele estado, como uma preguiça em pé de pau, sem dar uma palavra, no silêncio de morta. Voltava para o Santa Fé, e não falava com a mulher sôbre o estado de Olívia. Só fazia sofrer, com desespêro, calado, sem entusiasmo para as safras; sem gôsto para olhar o gado. Dei142 José lins do rogo xara de ir às feiras de Itabaiana, deixara de comparecer às festas de igreja do Pilar, abandonara o Partido Liberal para os cuidados do velho Pereira Borges. E as visitas que chegavam ao Santa Fé saíam com pena do capitão. Nunca se vira um homem se acabar tão depressa. E êle ficava horas e horas espichado no marquesão da sala de visitas, como se estivesse dormindo. A filha Amélia procurava arrancá-lo daquela tristeza sem fim. Opai fazia que a escutava, fingia um riso de fora para dentro. Lá estava ela ao piano. Não ouvia nada, não sentia mais aquêle orgulho de pai vendo-a sentada, arrancando do instrumento aquêle sentimento tão terno, tão bom. Foi quando se deu a escapula dum negro do engenho. Aí o Capitão Tomás despertou do seu sono. Era o moleque Domingos, de muito boa pinta, de 18 anos, de saúde de ferro. Aquilo chegou para o capitão comoum choque. Todo o antigo Tomás Cabral de Melo ressurgiu para o Santa Fé. Fêz-se, então, no seu cavalo ruço e com o negro Laurindo saiu atrás de Domingos. Mariquinha pedira para que entregasse o caso ao capitão-de-mato. Não quis. Nunca lhe sucedera aquilo. E cheio de coragem, de ânimo, o Capitão Tomás botou-se para a caçada à sua peça. Andou pelos engenhos do norte. Foi a Maranguape, foi ao Rio Grande do Norte, sem notícia de espécie alguma. Viu que estava em pista errada. Desceu para os engenhos da Várzea, atravessou a província e chegou a Goiana, numa manhã de domingo, de missa na Igreja Matriz. Só pensava no negro Domingos. Tudo para êle se sumira, só aquêle negro dava fôrça à vida do capitão. Conversou com o delegado, pediu informações sôbre a passagem de uma partida de escravos que demandava o Recife. E não havia sinal do moleque fugido. No hotel um capitão-de-mato deu-lhe notícias animadoras. Sabia que um moleque com os sinais de que lhe falava o Capitão Tomás estava no engenho Cipó Branco. Osenhor de engenho era homem aborrecido, cheio de muita má-criação. Tivesse cuidado o capitão com os arrancos do velho Nó. Logo depois do almôço, o capitão montou o cavalo e com o seu cargueiro foi chegar, à bôca da noite, na porteira do Cipó Branco. A ca fogo morto 143 sa-grande ainda estava no escuro quando chegou no terreiro. Apareceu-lhe o velho. Era um homem alto, vestido num chambre de chita. Oviajante falou-lhe para o que vinha. E sem mandar que o capitão se apeasse, o velho lhe foi dizendo num tom de zanga -lsto aqui não é quilombo. Os negros que tenho custaram o meu dinheiro. -Não estou dizendo o contrário. Mas tive informação de que um molecote de minha propriedade procurou o seu engenho para se homiziar. Não vim para briga. Sou homem ele minhas obrigações. -Pois se é de suas obrigações eu também sou das minhas. Aqui neste engenho não pisa negro fugido. A noite caíra sôbre o Cipó Branco. A casa-grande no escuro e os negros vinham chegando do trabalho. Era dia de inverno. A chuva começou a cair e o capitão despediu-se do velho Nó. Em Goiana não pôde dormir. De manhã procurou o delegado. Ohomem não podia fazer nada. Ovelho Nó era primo do Barão de Goiana. Ocapitão foi ao barão. E lá encontrou o homem de que tanto falavam. A casa-grande como um palácio, por tôda parte a fartura de uma riqueza que não se escondia. Falou-lhe de sua história. Viera do norte, era da Várzea do Paraíba e sucedera que um negro de sua escravatura fugira. Sabia, por informação, que estava êle no Cipó Branco. Estivera lá. O velho Nó o recebera mal. Obarão escutava-o calado. Depois foram para a mesa do almôço. E havia muita gente para comer, a família, os parentes, os mestres-de-obra. De tarde voltou para Goiana, com uma carta para o delegado. Ohomem leu-a e lhe disse: -Capitão, pode voltar para o seu engenho, o negro estará lá, no mais tardar, na quarta-feira. E assim tudo foi feito. Numa quarta-feira, de tarde, bateu-lhe na porta o negro fugido, que veio cair-lhe aos pés chorando. Trazia o capitão-de-mato uma carta do delegado. Ocapitão olhou para a sua cria com ódio de morte. -Negro, por tua causa andei por êste mundo, por tua causa fui desfeiteado, andei pedindo favor. ó Leopoldo l 144 José lins do régo Apareceu o negro Leopoldo, alto e forte, de corpo troncudo. -Pegue êste negro no carro e dê-lhe um exemplo. Com pouco ouviam-se no Santa Fé os gritos lancinantes do moleque Domingos. Ocapitão estava estirado, com os olhos fechados. Chegou-se para êle a sua filha Amélia para pedir pelo negro. Ovelho escutou-a, sentiu a voz magoada de Amélia, e levantou-se. -Deixa, menina. do seu senhor. A mãe de Domingos, negra da cozinha, caiu-lhe aos pés. -Meu senhor, perdoe ao negro fugido. 0 Capitão Tomás Cabral de Melo não era mais o homem triste com a doença da filha Olívia. Os gritos de Domingos não doiam nos seus ouvidos; não machucavam o seu coração. -Nunca mais êle se lembrará de fugir. Amélia, toca aquela música triste de que eu gosto tanto. A filha foi para o piano. A tarde morria no Santa Fé tristonho. A valsa encheu a casa-grande, saiu de portas afora, foi estender-se pelo canavial verde, foi acalentar a senzala ôca, com os moleques nus pelo barro duro, foi abafar os gritos de Domingos na mesa do carro, de corpo nu sangrando com o couro cru que lhe abria feridas no lombo. Opiano de Amélia amolecia o coração do velho. De repente êle levantou-se, chegou na porta e gritou -Pára, Leopoldo. A filha olhou-o com alegria. A negra na cozinha chorou nos pés da Sinhá. OCapitão Tomás deitara-se outra vez, e a cara de Olívia, o olhar fixo, a bôca caída, as mãos arriadas, eram como se estivessem ali, a dois passos dêle. E que tudo lhe viesse como um castigo. -Toca mais, Amélia. Toca mais. E fechou os olhos para que as lágrimas não corressem de suas faces abaixo, para que a sua dor fôsse mais dor que a de Domingos na peia. No outro dia o moleque que fôra ao Pilar lhe trouxera uma carta do Recife. Pensou logo que fôsse notícia ruim da filha. Era uma carta do primo Lula pedindo-lhe a mão de Amélia em casamento. Deixa, menina. Nunca mais êle fugirá fogo morto 145 -Mariquinha-gritou-anda cá. É o pedido do primo Lula. A tua filha vai se casar. Havia uma enorme alegria na efusão do capitão. Chamou a filha e não teve coragem de falar-lhe, deu a carta para ler. Amélia encheu os olhos de lágrimas e abraçou-se com a mãe. Tôdas as duas choravam. Ocapitão saiu para o terreiro da casa-grande. Nuvens de tanajuras caíam no chão, a terra molhada, os partidos acamando na várzea, o moleque Domingos no tronco, o Santa Fé, firme, sem dever nada a ninguém, moeda de ouro enterrada debaixo da cama, e agora Amélia para se casar. Olhou o tempo. Tinha a pobre da Olívia trancada num quarto em Recife. 2 0 CAPITÃO Tomás não deixou que a filha fôsse morar fora de sua casa. Oengenho era pequeno mas dava para todos. Mariquinha ficara radiante com as vontades do marido. E assim o genro estaria ao lado de todos como filho. Os primeiros meses do casal foram como de todos os outros. A princípio o capitão estranhou o jeito caladão do primo. Ficava o rapaz naquela rêde do alpendre horas inteiras, lendo jomais velhos, virando fôlhas de livros. Não era capaz de pegar um cavalo e sair de campo afora para ver um partido. Em todo caso tomou por acanhamento. Sem dúvida que não achava que fôsse direito estar a se meter na direção do engenho. Mandasse o sogro. O velho, porém, quis pôr o genro à vontade, e um dia falou-lhe. Dava-lhe o partido de cima para que tomasse conta. Éle ali seria como filho, teria tôda a fôrça de mando. Orapaz ouviu calado as palavras do capitão e deu para sair pela manhã para olhar os serviços. Os negros se espantavam com aquêle senhor de olhar abstrato, vestido como gente da cidade, sempre de gravata, olhando para as coisas como uma visita. Ocapitão não se satisfazia com a orientação do genro. Negro precisava de senhor de olhos abertos, de mãos duras. Ogenro pareceu-lhe um leseira. Disse mais de uma vez a Mariquinha 146 José lins do régo -0 primo Lula ainda não tomou tenência na vida. Está aqui há seis meses, e parece que chegou ontem. -Termina se ajeitando-dizia-lhe a velha.-É rapaz acanhado. A filha se angustiava com a desconfiança do pai. De fato, o marido não parecia homem, como era a sua gente. Era alheio à vida que o cercava. D. Amélia procurava interessá-lo. -Lula, como vai o teu partido? E Lula falava das coisas sem interêsse. Gostava de ouvi-la ao piano. No comêço todos de casa pensavam que fôssem dengos de casados de novo. Tôdas as tardes os dois ficavam na sala de visita. Omarido no sofá grande e a mulher, no piano, dando tudo o que sabia. -Toca aquela varsoviana. Ela tocava, tocava tudo que não esquecera. A mãe achava bonito tudo aquilo. Assim devia ser um marido, homem que vivesse perto da mulher, como gente, sem aquela secura, aquela indiferença de Tomás. Felizmente que a sua Amélia encontrara um homem de uma natureza tão boa, tão amorosa. As negras elogiavam os modos do jovem senhor. Parecia uma estampa de santo, com aquela barba de S. Severino dos Ramos, com aquêles modos de fidalgo, todo pegado com a mulher como só se via na história de príncipes e de princesas. Ocapitão era que não podia entender o gênio daquele rapaz. Lembrou-se de sua vida de casado no Ingá, dos primeiros dias, e achara tudo aquilo do primo como um absurdo. Não falava nada para não contrariar a filha, que era tudo que tinha. A outra estava perdida em Recife. Só lhe restava mesmo Amélia que êle criara na fartura como filha de rico. 0 rapaz, pensou, não criava gôsto pelo trabalho. Sentia-se velho e tinha mêdo de deixar o Santa Fé sem um pulso como o seu para governá-lo. Era um engenho pequeno, que pedia um homem de seu calibre, homem que soubesse mandar, de tino, de fôrça. Ogenro não lhe inspirava confiança. Dissera mesmo a Mariquinha -Éste teu genro está me parecendo um banana. A mulher se ofendeu com a sua opinião. E falou-lhe como nunca ouvira ela falar com tanta arrogância. fogo morto 147 -Tomás, quisera eu ter muita filha e encontrar, para cada uma, um homem como o primo Lula. É homem para fazer a felicidade de uma mulher. Quis dizer uns desaforos à mulher e Amélia apareceu na porta do quarto. -Meu pai, eu queria lhe pedir uma coisa. -Então, menina, diz o que tu queres. Junto da filha o Capitão Tomás era manso, terno, como se fôsse feito de lã. Amélia chegou-se para perto do velho: -Meu pai, Lula tem um cabriolé, em Recife, e queria trazê-lo para aqui. Falta sòmente a parelha de cavalos. 0 velho deixou que a filha se calasse. -Menina, para trazer êste negócio para aqui vai dar trabalho. Até Itambé a estrada dá bem. De Itambé para cá, não sei como vai ser. Pelos cavalos, não. Manda o teu marido escolher na cidade duas boas peças. E começou o Santa Fé a girar em tôrno do cabriolé. O Capitão Tomás era homem simples, mas gostava de mostrar aos senhores de engenho da Ribeira que não era o camumbembe que êles pensavam. Tinha filha que tocava piano, e genro que possuía cabriolé. O primo preparou-se para a viagem. Levou quatro negros a Goiana, e numa tarde de verão, com o Santa Fé moendo, entrou de cercado adentro a carruagem de Luís César de Holanda Chacon. Fôra uma festa igual àquela da chegada do piano. Uns foram acompanhar o carro desde Itambé até ali. Na areia do tabuleiro as rodas se enterravam fundo. Braços de negros, de curiosos, empurravam o carro. Para os cavalos cansados havia negros que os substituíam. A viagem do Seu Lula entusiasmara um pouco o capitão. Agora ia à missa do Pilar montado na carruagem. Ogenro não encontrava negro algum que servisse para boleeiro. Era êle mesmo que, de rédeas na mão, cortava a estrada coberta de cajàzeiras. Precisava mandar consertar pedaços de caminhos porque o cabriolé se enterrava na lama. O povo corria para ver passar a carruagem que tilintava fortemente. Corriam os cavalos ligeiros e o mundo para o Capitão Tomás se parecia com aquêle mundo que êle sentia quan148 José lins do rêgo do Amélia tocava o seu piano, de som tão bonito. O primo Lula era homem de gôsto. Fizera bem em dar-lhe a filha para esposa. Era homem fino. Via-o com aquela barba preta tão bem tratada, com o jeito de falar, as maneiras de homem que podia sentar-se na mesa do Barão de Goiana sem fazer vergonha. Se tivesse dado Amélia em casamento a um filho de Manuel César do Taipu, estaria com a bichinha sofrendo nas mãos daquele brutamontes. Amélia era feliz com o primo delicado. Dias depois o capitão esfriava no entusiasmo. Os negros que entregara ao primo nada faziam, o partido estava no mato. Falou um dia com o genro. E se arrependeu. Soubera pela mulher que a filha se mostrara muito sentida. Não fizera aquilo por mal. Quisera sòmente que o genro criasse gôsto pelo engenho. Tudo o que tinha era para Amélia. Pobre da Olívia naquele estado; era uma criatura morta. Quando chamara o primo para o aconselhar não imaginara que fôsse êle sentir-se do modo como se sentiu. Oque o capitão mais desejava era um marido para a filha que tivesse fôlego para o trabalho, que se entregasse com todo o corpo ao engenho. Mas o genro só queria viver de sala, naquela lordeza, falando de política, de gente de um mundo que não lhe interessava. O cabriolé dera muita importância ao Santa Fé. A família do Capitão Tomás, quando entrava na vila, chamava a atenção do povo da rua. E êle gozava, de verdade, a importância que lhe vinha de tudo. Caprichara na parelha que puxava a sua carruagem. Via outros mais ricos do que êle mandando a família para as festas em carro de boi. Quando o carro parava na porta da igreja ficava cercado de gente que o olhava com admiração. 0 capitão se enchia com a grande figura que a carruagem do genro fazia. Tinha piano em casa. Só êle tivera coragem de mandar uma filha para colégio de freira. Montado no cabriolé olhava para o mundo cheio de satisfação. Afinal, o Lula não era homem para o trabalho, mas com um bom feitor daria conta do recado. A escravatura era boa, os negros de boa têmpera. Tudo correria muito bem. Só mesmo a doença de Olívia o abatia desesperadamente. Sabia que não ficava boa nunca mais. E até pensara em ir buscá-la para viver em sua casa. Pelo menos teria o fogo morto 149 carinho de sua mãe, de sua irmã. Sabia que todos de casa sofriam com a presença de Olívia naquele estado. Melhor entre os seus que em mãos de estranhos. Amélia mostrava-se muito feliz com o marido. Via-a ao piano, com uma alegria de menina, tocando as coisas que êle pedia. Quando lhe aparecia visita, as môças do juiz, gostava de olhar para a filha, conversando com tanto desembaraço. OLula sabia manter uma palestra com qualquer doutor que lhe aparecesse em casa. Ovelho rábula do Pilar, o Comendador Campelo, lhe dissera uma vez -Olha, Tomás, êste teu genro sabe onde tem as ventas. 0 diabo era êle não tomar gôsto pelo engenho. Oque seria do Santa Fé sem êle, sem o tino do velho Tomás que lhe conhecia as entranhas da terra, que lhe dera nome, que o criara do nada? E começou o Capitão Tomás a sofrer pelo futuro do Santa Fé. Êle sabia o que era uma propriedade sem senhor de fibra, tomando conta de tudo. 0 que fariam os negros com um banana na casa-grande, ouvindo piano, lendo jomais, tratando da barba? A história do pai do primo Lula era triste de cortar o coração. 0 genro, por mais de uma vez, comovera o povo da casa contando as amarguras da mãe, viúva de revolucionário, abandonada de todos, com um filho pequeno. Viera morar em Recife. E vivia de duas casinhas que o pai, tabelião em Olinda, lhe deixara. Oprimo Lula, quando falava do pai, enchia os olhos claros de lágrimas. Morrera pelo parente Nunes Machado, assassinado pela tropa do govêrno. Oprimo Lula trouxera o retrato em ponto grande do pai. Estava êle ali na parede da sala de visita, com aquelas barbas como as do filho, e um olhar de homem duro. Mas o velho Tomás pensava no outro, naquele homem que abandonara mulher e filho pequeno para morrer como um bandido, cercado no mato como cachorro. Por que abandonara êle a mulher e filho? Ligara tudo ao destino do Santa Fé. Um dia aquêle Lula faria o mesmo com a sua filha, faria o mesmo com o engenho que êle fundara com o suor de seu rosto. E tudo se acabaria ali onde êle imaginara que as pedras que enterrara no fundo da terra fôssem eternas. Ovelho Capitão Tomás Cabral de Melo tinha genro de cabriolé, fi 150 josé lins do rêgo lha que tocava piano e não se sentia firme, pronto para morrer e confiar no futuro de sua gente. Aquela terra que êle moldara ao seu gôsto, que êle povoara, tratara, lavrara, talvez que, com a sua morte, voltasse ao que fôra, a um pobre sítio, a uma pobre terra sem nome. Não acreditava no genro. E tudo isto o consumia. Era bonito andar na carruagem com a barba preta, luzindo com o porte de senhor fidalgo. Era muito bonito. Para êle, para o pai que lhe dera a única filha, tudo aquilo era festa sòmente para os olhos. Ocarro cantava de estrada afora, como as campainhas da igreja na elevação; todos vinham olhar para a sua grandeza. Éle mesmo gozava a grandeza que fazia inveja. Nas noites de insônia pensava na vida, ficava a imaginar sôbre o dia de amanhã. Compreendia que tudo que levantara podia cair. Quando chamou o genro para falar-lhe do futuro, fêz com cuidado. Era preciso que êle tornasse gôsto pelo que seria só dêle e de Amélia. Arrependera-se. Amélia procurara a mãe para chorar. Todos pensavam que fôsse êle um ranzinza, um velho sovina que queria guardar o dinheiro, que tivesse mêdo de morrer e deixar o que era seu para os outros. Oprimo se magoara com a sua conversa. Soubera pela Mariquinha que até falara a Amélia em sair do engenho, para procurar viver longe de suas vistas. Seria para o capitão uma desgraça perder a companhia de sua filha. Se Amélia se mudasse, êle não teria mais coragem para viver. Odiabo era a vida descansada do genro, aquêle paradeiro, aquela distância da terra. Tinha terra gorda para trabalhar, dinheiro, negros, sementes, e ficava dentro de casa, naquela leseira, naquela preguiça sem fim. Como podia um homem com uma manhã de maio, com os negros cavando cova de cana para o plantio, ficar dentro de casa? Como podia um homem não tomar gôsto pela lavoura crescendo na terra, com um engenho moendo, num bonito safrejar de vinte e quatro horas? O cheiro do mel, o cheiro da terra molhada, a chuva, o sol, os lagartos, as cheias do rio, nada daquilo valia para o seu genro? A mulher viera lhe falar, com muito cuidado, da gravidez da filha. Gostou de saber. Podia ser que assim o homem pegasse gôsto pelas fogo morto 151 coisas da vida. Um filho era pêso nas costas, era preocupação, era pensar no futuro. Viera a filha e o genro continuou o mesmo. Era da natureza. Ovelho Tomás desenganou-se. Foi quando se deu . o furto de seus cavalos, com a fugida outra vez de Domingos. 0 negro fizera-se no mundo, levando dois cavalos de sela. Já não era o mesmo Capitão Tomás de outrora. Mas tomou a peito a questão. Velho como estava, saiu à procura do que era seu. Ogenro ofereceu-se para acompanhá-lo. E com dois negros como pajens, botaram-se atrás do ladrão. As notícias davam o negro como tendo ganhado para os lados do sertão. Era difícil para o ladrão procurar os engenhos da várzea, ou meter-se para os lados de Goiana. Teria que subir para o sertão onde a marca do velho Tomás seria pouco conhecida. Osogro e o genro chegaram no Mogeiro e souberam logo que Domingos estivera lá em companhia dum tangerino de Campina Grande. Teriam que chegar em Campina. Sabiam que para aquelas bandas teriam muitas dificuldades. Opovo do sertão não ia muito com a gente da várzea. Ovelho Tomás estava no seu direito, e ninguém poderia tomar o que era seu. E assim chegaram ao povoado. Fazia um frio de tremer, na noite em que se aboletaram num rancho de palha, na entrada da rua. Havia outros viajantes com o fogo aceso, de rota batida para o alto. Ocapitão conversou com um cargueiro e o homem foi franco com êle -Capitão, isto aqui vai ser difícil para o senhor. Sertanejo é povo que estranha muito. Na manhã seguinte foi à casa dum velho que era tido como o maior da terra. Contou a sua história e nem chegou a terminar, porque o velho foi lhe dizendo com tôda a franqueza: -É difícil, Seu Capitão. É muito difícil. Aqui eu moro, nesta Campina Grande, há muitos anos, e não conheço ladrão nenhum. Se o negro ganhar o sertão, o senhor não acha mais. Isto é terra livre, capitão. Opovo destas bandas não tem marcos na terra. Mas o Capitão Tomás e o genro Lula não se deram por vencidos. Em conversa na feira vieram a saber que o negro 152 josé lina do rêgo estava numa fazenda, em Fagundes. Em terra dum homem môço, chegado ali, vindo do Ceará. Tivesse o capitão muito cuidado, porque o rapaz era homem de sangue quente. 0 Capitão Tomás tinha o seu direito, o negro era seu, os cavalos eram seus. Tinha que voltar com êles para o Santa Fé. E com êste intento chegaram na fazenda, quase à bôca da noite. Só havia a casa de morada, e um curral atrás. Uma casa como de morador de engenho, de barro escuro, com um copiá muito baixo. Na porta estava um môço, de camisa para fora das calças, de chapéu de palha. Chegou-se para o terreiro e perguntou pelo fazendeiro. -Está falando com êle, meu velho. Aproximaram-se. E o capitão mostrou-lhe a carta do delegado de Pilar, contou a história do negro, o roubo dos dois cavalos. -Meu velho, o senhor não está na trilha certa. Sou novo nesta terra. Vim do Ceará para viver do meu trabalho. Osenhor vem aqui para encontrar negro fugido, cavalo roubado? 0 capitão explicou-lhe. Não era para agravar que chegara. Tinha a sua propriedade e queria que ela fôsse sua. Tinha o seu direito. -É verdade, meu velho, a razão está com o senhor. Eu não tiro a razão de quem tem. Mas por que bateu o senhor aqui? Eu sou depositário de furto, meu velho? Isto é ofensa. 0 capitão falou com cautela, procurando desviar o assunto de briga. Mas o genro entrou na conversa e êle teve mêdo. OLula levantou a voz para o sertanejo. Ohomem enfureceu-se. Os dois negros, como sentinelas, olhavam para o grupo, pasmos de ver os seus senhores com gente que falava com voz de senhor para êles. -Rapaz, eu não sei quem é você. Sei que êste é o Capitão Tomás, que anda atrás de um negro fugido, e de cavalo roubado. Você eu não sei quem é. -É meu genro. -Então, rapaz, deixe o velho falar. Velho para mim é coisa de respeito. fogo morto 153 -Não estamos aqui para ouvir desaforos, gritou Seu Lula. -Quem está ofendido? Então chegam na porta de minha casa à procura de negro fugido, e sou eu quem ofendeu? Meu velho, o caminho por onde o senhor veio tem volta. Estou na minha casa, e se vieram para aqui com intenção de me insultar a coisa é outra. Já tinham chegado dois cabras de punhal atravessado na cintura. -Êstes dois homens estão vindo do Brejo atrás dum negro fugido. Estão pensando que o negro está aqui. 0 Capitão Tomás explicou -Não senhor, em Campina me disseram que o negro tinha parado nesta fazenda. Seu Lula, com a voz trêmula, inflamada, gritou -Não somos camumbembes. -Eu sei que os senhores são homens de trato, de engenho, de muita lordeza. Tudo isto eu sei. Mas grito aqui não adianta não, rapaz. Eu, se fôsse o capitão, ia me aboletar ali debaixo daquele pé de juá, e esperar a madrugada. Se quiser uns pratos de coalhada eu tenho para dar. Só não tenho é negro fugido e nem cavalo roubado. Um dos cabras abriu numa risada estrondosa. Ocapitão olhou para o genro, e falou para o homem -Pois o senhor me desculpe. Nós vamos voltando. Se aparecer lá por baixo, pode me procurar. Tenho lá uma casa às ordens. -Vão porque quer, capitão. Ali está aquêle pé de juá. A gente só oferece o que tem. Os senhores são povo de trato. Sou um sertanejo pobre. 0 capitão falou com o genro e saíram para a estrada que dava para Campina. Quando chegaram em cima na chã, encontraram um pé de umbu e fizeram pousada. Ovelho estava calado, e o genro puxou conversa -Gente ordinária. Garanto ao senhor que estão com o negro escondido. _`E, Inas sertanejo é gente séria. Desconfio que aquêle cabra deve ser de fora. Aquilo tem pinta de ladrão de ca 154 9osé lìns do régo valo. Vi logo, pela conversa dêle, que aquela fazenda é só para poisa dos ladrôes que vêm do sul de Pernambuco para o sertão. Seu Lula parecia humilhado. Não pôde dormir. Dentro da mataria mexiam bichos, gemiam as vozes da noite. Os negros roncavam alto, o capitão enrolado para um canto, e o genro sem poder pregar os olhos. Veio-lhe então a lembrança do pai, noites e dias no meio das matas de Jacuípe, vivendo como um animal, assassinado, por fim, como um bandido perigosa. Morrera, pelo chefe Nunes Machado. Então Seu Lula, naquele êrmo do sertão, por debaixo do umbuzeiro, com os negros e o sogro deitados na mesma terra, viu que não era nada, que fôrça nenhuma tinha para ser como fôra o pai, Antônio Chacon. Oque êle fôra até ali? Nunca que um pensamento assim o perseguisse como aquêle, naquele isolamento. Quisera falar com o ladrão e nada fizera. Fôra o velho sogro que manobrara a retirada. Estavam vencidos, tinham fugido. Eram quatro homens com mêdo da fala mansa daquele cabra. Os mosquitos gemiam no seu ouvido. A noite escura cobria a vergonha do senhor de engenho que não tivera fôrça para arrancar um negro fugido. Ocapitão não podia dormir. Como poderia dormir um senhor de engenho que não tinha coragem de arrancar um negro de sua senzala das anãos de um ladrão de cavalos? 3 O CAPITÃO Tomás vivia como se tïvesse sido atacado de doença grave. Apareceu-lhe um capitão-de-mato com o seu negro fugido, e êle não dera a menor importâncía ao fato. Deitado na sua rêde, calado, passava, os dias inteiros alheado por completo de tudo. Ovelho tinha sido ultrajado, era um homem que se considerava sem honra. A filha Olívia voltara para dentro de casa. Fera aquêle fantasma vivo, de olhos mortiços, a andar de um, lado para, o outro, numa ânsia que não parava. A casagr -"nde do Santa Fé ficara assim, muda, de repente. 0. Seu fogo morto, 155 Lula lia os jomais do Recife. D. Amélia, nas tardes de quebranto, de muito silêncio, tocava as valsas que o marido adorava. Todos se preocupavam com a tristeza do capitão. Afinal de contas, a história de Domingos não seria motivo para um homem se entregar daquele jeito, para ficar como morto. Ocapitão nos seus silêncios, vivia para dentro de si com violência. Partia êle do ponto de vista que estava derrotado, humilhado, sem honra, sem fôrça para governar as suas coisas. Era um senhor de engenho sem respeito. Tivera um negro fugido, andara atrás dêle, com o seu direito, com a sua razão, e fôra, no entanto, insultado por um camumbembe qualquer, um sujeito de camisa para fora da calça, que quase lhe bateu. Não, êle não podia mais gritar para negro nenhum. E além de tudo, onde um filho para vingar o pai ofendido, onde um homem de sua gente que pudesse desagravá-lo, como êle bem queria que fosse? Havia um genro, muito bom homem, um mole, um leseira. Vira o negro voltar amarrado, chicoteado pelo capitão-de-mato. Era como se não tivesse visto nada. Para êle continuava fugido, com mais fôrça do que êle. Osenhor de engenho do Santa Fé saíra atrás dum negro fugido e não tivera fôrça para traze-lo para a sua senzala. Era muita humilhação. E depois, êle mesmo se considerava sem préstimo, um homem sem energia. 0 que fizera? Lá estava uma filha, com aquela agonia, lá estava Amélia, tôda de seu marido que nada sabia fazer. Vinham visitas para o Capitão Tomás e êle as recebia ali mesmo em sua rêde. Apareceu-lhe o Cônego Frederico para pedir auxílio para levantar a tôrre da igreja. Deu o dinheiro' ao padre e ficou em sua rêde, sem uma palavra com o amigo, procurando uma conversa que o capitão não ouvia. Na saída, o cônego falou com o genro. Não via com bons olhos o estado de saúde do capitão. Êle estaria, sem dúvida, muito doente. Ofeitor, que vinha de manhã e de tarde, pedir ordens e trazer notícias, encontrava aquêle senhor indiferente, de falar baixo, um outro homem que ninguém conhecia. A velha Mariquinha falou com o genro e com a filha. Tinha mêdo de que acontecesse uma desgraça ao marido. A casa inteira passou a viver em tôrno da tristeza do Capitão Tomás. A 156 José lins do rêgo notícia circulou pela várzea. Espalhava-se que o capitão estava aloucado, tudo porque fora desfeiteado em Campina Grande, e não pudera fazer nada. E isto demorou uns meses. D. Amélia parou de tocar o seu piano, e o marido pusera-se à frente do Santa Fé. Pelo menos a doença do senhor de engenho puxara o genro para fora dos jomais. Via-se Seu Lula montado a cavalo, via-se Seu Lula gritando com os negros, e a velha Mariquinha dava graças a Deus. Omarido podia descansar que teria um genro que podia fazer as suas vêzes. Mas o Santa Fé não era já aquêle do Capitão Tomás Cabral de Melo. Corria a safra daquele ano. De sua rêde, no alpendre, o capitão sentiria o cheiro do mel nas tachas, ouviria o barulho da almanjarra, a gritaria dos negros, o rumor da fábrica na moagem. E nem aquela vida, que era a sua própria vida, acordara-o de sua indiferença. D. Mariquinha contava com a moagem para ressuscitar o marido. E dizia para as negras -Êle está assim, mas no dia em que partir um couro de almanjarra saltará da rêde para tomar conta de suas coisas. Quando chegar a moagem, Tomás acorda. E chegou a moagem, os negros cantavam ao pé da moenda, o açúcar cresceu na casa de purgar, e o capitão na rêde, comendo o pouco que comia, de olhar para longe, de cara sombria, de fala mansa, como de doente de morte. Tudo para êle se fôra de vez. Os partidos de cana, a escravatura gorda, os roçados de algodão. Tudo se fôra para a vida do senhor de engenho. D. Olívia dava para falar noite e dia, era uma pena, dizendo coisas sem nexo, chorando e rindo. E o capitão na rêde de varandas compridas, no seu silêncio desesperado. Não ficaria mais bom, pensava a mulher. Estava morto para sempre. Via que o genro não seria o homem para botar as coisas para a frente. Então D. Mariquinha do Santa Fé resolveu dar as ordens no seu engenho. Custara-lhe muito tomar aquela decisão. Era urgente. Ela bem vira no decorrer da safra que o genro não acudia às necessidades do engenho. Ela vira o caso do mestre de açúcar Nicolau, um negro de primeira ordem, que o Lula mandara surrar sem necessidade. Não gostava de ver negro apanhar assim, por qualquer coisa. fogo morto 157 Era contra o sistema do Majm Ursulino d - Itapuá, judiando com a escravatura. Não. Chanara o gemo para pedir que não continuasse a castigar os negros, cono fizera com Nicolau. E o Lula aborreceu-se. Amélia apareceu de cara fechada. Não se importava com brigas de fihos. E assim tudo começou a depender das ordms de D. Kariquinha. Era a senhora de engenho que venda o açúcar aos cargueiros de Itabaiana. As vêzes pedia ao tenro para tratar de negócios no Pilar. E de lá saía êle de c